Um fim de ano inquietante no mundo do atletismo

Por Luís Lopes, jornalista e comentador de atletismo

Este final de 2017 está a ser um tanto ou quanto inquietante no mundo do atletismo – aliás, em que tipo de actividade humana o não estará a ser, e em especial na geopolítica? Mas ficando-nos pelo desporto, e depois da famigerada polémica em torno dos recordes ou não-recordes ter arrefecido – tacticamente? – um pouco, levanta a Federação Internacional de Associações de Atletismo (FIAA) novas questões, com os alegados estudos para a implementação de uma classificação dos atletas à maneira do ténis e do golfe, designando um número 1, um número 2, etc., a nível mundial, e tendo essa classificação influência na maneira como os ditos atletas se podem qualificar para as maiores competições a nível global. Disse em comunicado a FIAA que pretende tornar o atletismo “mais compreensível” do grande público em todas as suas dimensões, e assim quer continuar a “reformar” o desporto…

Logo se levantam algumas questões. A primeira é a de aceitar um sistema adoptado por desportos menores, sem real expressão, como o ténis e o golfe (este último desafia mesmo o conceito de desporto), e que em nada podem servir de comparação para com o atletismo, porque este é um desporto multidisciplinar e no ténis, que se saiba, apenas se dá com uma raquete na bola, todos fazem o mesmo. No golfe idem, muda-se só de raquete para taco. E porque o atletismo é um desporto gigante a nível mundial, praticado no conjunto de todas as disciplinas por milhões de atletas.

É de relembrar que este “sistema”, ou algo que para ele aponte, já foi utilizado há década e meia, e ninguém lhe ligou peva. Em toda a parte ninguém queria saber se era o El Guerrouj ou o Bubka o suposto número 1 mundial do atletismo.

O esquema morreu muito antes de atingir a puberdade. Com base no carácter próprio do atletismo, fica a dúvida acerca da bondade dos pressupostos deste projecto, porque, de uma presidência federativa que quer a todo o custo mostrar cara nova, mascarar as rugas do passado, reciclando a esmo, não é crível que surja algo positivo. Num desporto com disciplinas tão diversas, é muito difícil dizer se o Eliud Kipchoge, o grande maratonista, é melhor ou pior do que o Mutaz Barshim, do salto em altura, ou o Johannes Vetter, do lançamento do dardo. Cada um deles será o melhor na sua disciplina. Ponto.

O que fica no ar é a tentativa de afunilamento do atletismo, procurando possivelmente puxar para cima algumas disciplinas, ditas mais mediáticas, em detrimento de outras. Já é alvo de muitas críticas, por exemplo, o facto de o lançamento do martelo não fazer parte dos programas oficiais da Liga Diamante, e também o facto de para os Campeonatos do Mundo, tanto em pista coberta como ao ar livre, os mínimos globais de participação fixados pela FIAA serem ridiculamente mais difíceis de obter nos saltos e nos lançamentos do que na corrida. Claro que a FIAA não vai querer implementar um ranking em que o atleta “número 1” provenha de uma das tais provas ditas menos mediáticas…

Pretende-se também, aparentemente, apresentar de maneira diferente as listas mundiais. Será que pela atribuição de um quociente (por exemplo), 20 metros no lançamento do peso valem mais se forem feitos num meeting americano do que no meeting de Santo António? O conceito é escandaloso em si, a não ser que se use apenas na qualificação para as grandes competições, mas isso já o fazem as mais avançadas federações nacionais – ou seja, e apenas como exemplo, saltar 2,28 metros em altura num pequeno meeting pode ter de ser refeito noutra ocasião para qualificar o atleta. E assim sucessivamente. Vamos esperar pelo que aí vem, mas o ambiente de confusão que está instalado no atletismo a todos os níveis – nacionais, continentais e globais – não anuncia nada de bom.

Campeã olímpica com doping, Jéssica muito fraca
Também os recentes desenvolvimentos no mundo da maratona tornam este fim de ano atlético menos agradável. A nível
internacional fica como ponto baixíssimo o anúncio de suspensão preventiva por doping, graças a um controle negativo levado a cabo em Abril, da campeã olímpica, a queniana Jemima Sumgong. O castigo não lhe retira o ouro olímpico, mas constitui decerto uma mancha indelével na carreira da atleta, que já foi face de campanha anti-doping, e lança sempre suspeitas sobre a bondade do seu triunfo no Rio.

Depois veio a prestação muito fraca de Jéssica Augusto na Maratona de Nova Iorque. Descolando cedo, mesmo a um ritmo
longe de ser elevado, Jéssica acabaria por se quedar no 18.º lugar, a 14 minutos do seu máximo pessoal. Fica a ideia de que a difícil temporada de 2016, com a concomitante desistência nos Jogos Olímpicos, não está ainda ultrapassada para ela, aos 36 anos.