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Por Dr. Paulo Beckert Especialista em Medicina Física e de Reabilitação e Medicina Desportiva Clínica CUF Alvalade
O aconselhamento e o incentivo das crianças à prática de actividades físicas é um imperativo fundamental em termos de saúde pública. A atracção pelos videojogos é um facto inquestionável na ocupação dos tempos livres que tem afastado as crianças e os jovens da prática de actividades físicas como correr, andar de bicicleta e participar em jogos de rua, que outrora representavam grande parte das actividades de lazer. As consequências desta mudança de estilo de vida repercutem-se em larga escala no crescimento da obesidade infantil e na diminuição da capacidade cardio-pulmonar, com efeitos a longo prazo na saúde do indivíduo.

A prática da corrida pode ser uma excelente proposta de actividade física, a par das estruturadas actividades pós–escolares como o futebol, a natação, o ballet, a ginástica e outros desportos. A corrida é uma actividade que envolve poucos meios. Praticamente consegue-se correr em todos os locais, bastando ter umas sapatilhas, calções e camisola.

Como na prática de todos os desportos, deve-se ter em consideração que a criança não é um “adulto pequeno”. A sua anatomia e fisiologia estão em desenvolvimento e longe da sua maturidade. Alguns aspectos devem estar presentes e servir para a orientação e aconselhamento quando se estimula a criança à prática da corrida.

Diversão em primeiro lugar

Um dos aspectos fulcrais é que a prática da corrida deve ser feita com “gosto” e representar um divertimento. Deve ser encarada como uma diversão, uma brincadeira e não um “sacrifício”. Neste sentido, a escolha do local e da companhia são essenciais. Correr em parques, bosques e na companhia de adultos, mas, sobretudo, de outras crianças é altamente recomendado, quer pelo aspecto da socialização (contrariando a tendência dos videojogos e da comunicação com smartphones), quer como estratégia de motivação e adesão à prática continuada. Os efeitos no bem-estar psicológico e social são de valor inquestionável.

As crianças não são mini adultos

Do ponto de vista fisiológico e biomecânico há diferenças entre a criança e o adulto. Sabe-se que elas não têm a mesma capacidade de absover os impactos da corrida do que os adultos. Do ponto de vista da saúde há necessariamente impacto. A corrida, pela sua natureza, é uma actividade de impacto repetitivo, que pode repercutir-se sobre a cartilagem de crescimento dos ossos das crianças e sobre outras estruturas tendinosas, ligamentares e musculares.

O aumento do risco de lesão é proporcional ao aumento do número de impactos que, obviamente, está associado à distância. Por esta razão, e apesar de não haver recomendações exactas sobre as distâncias a percorrer, devem evitar-se as corridas longas. Não é por acaso que a Maratona de Boston não permite a participação de menores de 18 anos, havendo também aconselhamento de especialistas para não se realizarem distâncias superiores a 10 km até aos 16 anos.

Em suma, a prática da corrida por crianças é uma actividade recomendável, que deve ser realizada como diversão, de acordo com a tolerância ao esforço individual, evitando longas distâncias e sempre na ausência de sintomatologia do aparelho locomotor.