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Não vale a pena divinizar criaturas terrenas. De Kilian Jornet a Caroline Chaverot, os atletas de topo também conhecem a dor, as insónias e a ressaca da ultramaratona.

Texto e foto: Rute Barbedo

Quando Kilian Jornet declarou, na conferência de imprensa do Ultra Trail du Mont-Blanc, que para um atleta de elite bem preparado e sem problemas físicos é suposto ser fácil cumprir uma prova de mais de 100 quilómetros, um “ah!” de surpresa pairou no ar. São os super-atletas também super-heróis?
Para Xavier Thévenard, o único que acumula no currículo as vitórias na CCC – Courmayeur -Champex – Chamonix (2010), TDS – Sur les Traces des Ducs de Savoie (2014) e por duas vezes no UTMB (2013 e 2015), correr mais do dobro de uma maratona em alta montanha não é propriamente como brincar às escondidas. “O que mais me marca são as noites que se seguem, porque torna-se tudo muito agitado, sentimos fome em horas estranhas, é tudo diferente.” Os músculos – não esquecendo que o cérebro também é um – ressentem-se, mas as alterações são sistémicas. Por outro lado, “também há um grande impacto ao nível articular”. Os joelhos, tornozelos e ancas são os pontos de maior dor, mesmo num corpo de 29 anos, como o do competidor francês.
Mas a forma física e a estrutura emocional são variáveis pesadas na balança dos trilhos. “Preparamo-nos muito, mas no ultra-trail há tantos factores em jogo que a forma como nos sentimos depois de uma prova nunca é igual. Apesar da variabilidade, uma consequência é certa: “Perde-se muita água. Chego a perder sete quilogramas numa corrida destas”, complementa François D’Haene, vencedor do UTMB.

A “fadiga interior”
“160 ou 180 km é um caminho muito longo. Temos de estar muito bem preparados, porque é uma prova muito difícil. E não tem apenas a ver com a forma física mas também com a logística – o que comer, beber e levar para vestir. Tem de haver muita auto–gestão”, descreve o americano Zach Miller.
Apelidado de “papa montanhas” pela velocidade e força que imprime ao arranque das competições, Miller é conhecido pela energia que descarrega na corrida, o que representa “um choque para o corpo”. Mas é “sobretudo uma fadiga mental, interior”, descreve. Ainda assim, há um aspecto que o faz distinguir uma prova de 100 km de uma de 50: “As provas mais curtas são muito mais rápidas e por isso a dor muscular é mais intensa. No UTMB, não são bem os músculos [o cerne do desgaste], é o sistema todo. Preciso de um mês até estar a 100% outra vez.”
Não é semelhante a fase de recuperação de Caroline Chaverot, a francesa que venceu o UTMB em 2016. “Para mim, é muito claro: quanto maior é a distancia, maiores são os danos musculares. No dia seguinte a uma prova destas, até é difícil dormir, porque a dor nas pernas acorda-me regularmente.” Recordando o ano em que saiu de Chamonix vitoriosa, confessa que tentou retomar a corrida uma semana a seguir à competição, mas que não terá sido a melhor das ideias. “Tive de parar. Percebi logo que me poderia magoar ou mesmo lesionar.” 171 km e 10 000 metros de desnível positivo, conclui-se, não são simples nem para a elite desportiva.