“A maratona é especial porque se pensa muito, às vezes a cabeça foge”

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Um ano depois de ter sido mãe, a campeã europeia dos 3 000 metros em pista coberta fez-se à estrada. Em Novembro, estreou-se na prova-rainha do atletismo com um terceiro lugar na mítica Maratona de Nova Iorque. Encontrámos Sara Moreira no Parque Urbano da Rabada, em Santo Tirso, de onde é natural, durante um treino com Pedro Ribeiro, marido e treinador. Aos 29 anos, a atleta do Sporting é uma das principais fundistas nacionais da actualidade.

Texto: Inês Melo

Fotografia: Luciano Reis

Tiveste um ano repleto de conquistas. Foi um ponto de viragem na tua vida?

Foi um ano de mudança – de vida, de clube, de desafios. Começou com o título de campeã europeia dos 3 000 metros em pista coberta [Março de 2013], que já ambicionava há muito tempo. Trabalhei bastante e sei que podia ter chegado lá dois anos antes, em Paris, se não fosse um erro administrativo [por lapso, a Federação Portuguesa de Atletismo inscreveu-a na prova dos 1 500 metros].

Foi um momento difícil?

Depois de trabalhar tanto, de abdicar de tanta coisa… foi complicado. Decidi que ia estar presente na competição e sei que dei tudo o que podia [foi sétima nos 1 500 metros], mas ver a final dos 3 000 metros fora da pista foi muito marcante. No dia seguinte só tinha um pensamento: “Não foi agora, mas vai ser.” Por outro lado, sempre quis ser mãe antes dos 30 anos. Com o apuramento para o Europeu de Gotemburgo decidimos adiar essa vontade, mas as coisas precipitaram-se. Sem saber, já estava grávida quando ganhei a medalha de ouro.

Como foi gerir o desafio da maternidade?

Era um objectivo pessoal…foi muito bom. No entanto, agora era campeã europeia e sentia uma série de expectativas à minha volta. Aproximava-se o Campeonato do Mundo, já tinha marcado provas, acordado cachês… Tive de parar um pouco e mentalizar-me: “Sara, esquece o atletismo, agora só para o ano.” Apesar de ter muitas saudades da corrida, aproveitei ao máximo a gravidez – talvez por saber que ia voltar.

Em Portugal, poucas mulheres regressam à alta competição depois de serem mães. Eu não conhecia nenhum exemplo. Aliás, muita gente questionou se tinha sido uma boa aposta. Esses comentários mexeram comigo, mas deram-me mais vontade de provar que era possível. Fui mãe a 1 de Novembro de 2013 e 25 dias depois já estava a correr. Entretanto, aproximava-se o Campeonato da Europa de Atletismo.

Começava o contra-relógio…

Foi uma luta contra o tempo. Comecei por caminhar 10 minutos e logo nesse dia consegui correr sem dores. Tive algumas lesões que me condicionaram, mas no final de Fevereiro já estava a treinar sem limitações. Se queria estar em Zurique, tinha de fazer mínimos e para isso era preciso estar bem preparada. Tive de aprender a gerir as necessidades do Guilherme, os nossos novos horários e os treinos.

A prioridade era o meu filho e trabalhei em função do que ele me deixou… tive sorte [risos]! Sou ambiciosa, acredito sempre, mas sem a ajuda das pessoas que me estão mais próximas teria sido impossível. Consegui mínimos para os 5 000 e os 10 000 metros, mas não estive tão bem como gostaria. Sei que uma medalha nos 10 000 estava ao meu alcance [terminou em quinto]… não foi desta, mas será!

Foi então que decidiste dar uma oportunidade à estrada?

A competição em pista é, sem dúvida, o que mais me fascina. É mais motivante, com treinos mais rápidos e maior superação de tempos. A passagem para a estrada foi tardia, mas natural. No início custou um pouco, mas depois os resultados começaram a surgir. Em relação à maratona, sempre fui muito reticente. As minhas colegas faziam provas e diziam que eu era a próxima, mas nunca cedia: “Tantos quilómetros? Vocês são é malucas!” A estreia surgiu por acaso, com o convite de uma grande maratona. Apesar de não estar nos meus planos, achei que era uma boa altura para experimentar.

Qual é a sensação de estar na linha de partida da Maratona de Nova Iorque?

É diferente de tudo o que já vivi. Diziam-me que era incrível, sobretudo pelas pessoas que estão nas ruas… uma coisa é ouvir, outra é viver! Quando chegou o dia, nada era parecido. Acordámos muito cedo, fomos para a linha de partida sem os treinadores, num autocarro só para atletas – todas muito nervosas. Depois é tudo rápido, quase não te apercebes de aquecer e, de repente, estás pronta para a tua primeira maratona. Estava muito frio e muito vento, mas naquele momento só pensei que ia correr tudo bem. Parti descontraída, concentrada e motivada. Lembro-me de ver bandeiras portuguesas e de ouvir as pessoas gritarem pelo meu nome: “Go Sara! Go Sara!”

Qual era a tua estratégia?

Não tinha estratégia, apenas um plano para controlar os ritmos. Levei o relógio e um pulsómetro com banda peitoral – sabia em que ritmos podia correr e só isso é que estava na minha cabeça. Foi por isso que decidi arriscar e tomar a dianteira da corrida, porque o ritmo estava mais lento do que aquilo que eu sabia que podia correr.

E quando te apercebes que estás na frente da corrida?

A maratona é especial porque se pensa em muita coisa. Fui sempre concentrada, mas há alturas em que a cabeça foge. Para não custar tanto, a cada cinco quilómetros, recomeçava a corrida na minha cabeça. À passagem da meia maratona, percebi que estava longe do objectivo de terminar em 2h27m e acelerei. Entretanto, antes dos 30 quilómetros, aumentou o ritmo e acabei por descolar do grupo. Sabia que estava bem preparada e que tinha de colar novamente. Passei para sétimo e nessa altura decidi que gostava de ficar entre as cinco primeiras…

A motivação foi fundamental. Passei para sexto, voltei a descolar e tive novamente a vontade de ser quinta… Estas pequenas conquistas deram- -me a sensação de que tudo ia correr bem. Quando as duas primeiras atletas deram o último avanço, estava em quinto. Decidi aproveitar o lance e quando passei a quarta, passei também a terceira.

Foi o momento mais difícil de gerir?

Sim. É muito difícil controlar a emoção de poder ser terceira na Maratona de Nova Iorque. E agora? Estava nos 36 quilómetros, faltavam apenas seis para o final, mas não era assim tão pouco. Até aos 40 quilómetros foi muito doloroso, são dois quilómetros praticamente sempre a subir, em que não se vê o fim da estrada. Ia sozinha e só pensava que não queria ser alcançada. Afinal, se eu estava cansada, as outras também estavam. Foi preciso ter sangue frio. Depois apanhei um susto! Um homem na multidão gritou que a quarta vinha a 10 segundos. Nem olhei para trás: corri o mais rápido que as pernas conseguiam. Só tive a certeza de que ela não me apanhava nos últimos 500 metros [terminou a prova em 2h26m].

Esta medalha mudou alguma coisa?

Em mim não mudou nada. Claro que fiquei muito contente, era uma coisa que não esperava. De certa forma, talvez tenha aumentado a minha responsabilidade e as expectativas em relação aos meus resultados. O que mudou foi o reconhecimento. Não imaginava que a medalha tivesse este impacto. Quando fui campeã da Europa, não foi a mesma coisa… Agora passo na rua e as pessoas reconhecem-me! A maioria pensa que este foi o meu primeiro bom resultado.

Portugal ganhou uma maratonista?

Calma [risos]! Primeiro preciso de fazer outra maratona [já está confirmada para a Maratona de Londres, em Abril]. Neste momento, os objectivos passam pelas provas do Sporting, especialmente pela Taça dos Campeões Europeus, que o clube nunca ganhou. Primeiro quero perceber quais são os meus limites, para depois começar a preparar os Jogos Olímpicos do Rio [2016].


 

PERCURSO

2007 Campeã nacional nos 3 000 metros obstáculos (2007, 2008, 2009 e 2011) e nos 3 000 em pista coberta (2007, 2008, 2009, 2010) | Bronze no Campeonato da Europa Sub-23, em Debrecen, Hungria

2008 Campeã nacional de crosse curto (2008, 2009 e 2011)  | Representa Portugal nos Jogos Olímpicos de Pequim, nos 3 000 metros obstáculos

2009 Prata nos 3 000 metros do Campeonato da Europa de Pista Coberta, em Turim, Itália | Campeã Nacional de Estrada (2009, 2010, e 2013) | Medalha de ouro nas provas dos 5 000 metros e 3 000 metros obstáculos nas Universíadas, em Belgrado

2010 Prata nos 5 000 metros do Campeonato da Europa de Atletismo, em Barcelona, com um tempo de 14m54s71’; tornando-se na terceira portuguesa a completar a distância em menos de 15 minutos | Campeã Nacional de pista em 1 500 metros (2010 e 2012)

2011 Ouro nos 10 000 metros da Taça da Europa, em Oslo | Medalha de prata nos 5 000 metros das Universíadas de Shenzhen, na China

2012 Bronze nos 5 000 metros do Campeonato da Europa de Atletismo, em Helsínquia | Representa Portugal nos Jogos Olímpicos de Londres, nos 10 000 metros |  Ouro nos 10 000 metros da Taça da Europa, em Bilbau

2013 Medalha de ouro na prova dos 3 000 metros do Campeonato da Europa de Pista Coberta, em Gotemburgo, Suíça