“Acho que me tornei mais madura”

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Dong-Liu
Dong Liu, ex-campeã do mundo de 1500 metros
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Catarina-Silva

Sara Catarina Tavares surpreendeu tudo e todos com o segundo lugar na Maratona do Porto, em Novembro, ganha pela queniana Loice Kiptoo. No mês seguinte venceu a São Silvestre da mesma cidade e iniciou 2017 com o melhor lugar na São Silvestre da Amadora e a segunda posição no Campeonato Nacional de Estrada. Além de maratonista, temos promessa para os 10 000 metros em Tóquio 2020.

 

T: Rute Barbedo   F: Paulo Jorge Magalhães

 

Enquanto treinava para a Maratona do Porto, houve quem visse Sara Catarina Ribeiro passar e exclamasse: “Esta menina parece um Fórmula 1!” A fórmula, no entanto, é uma conjugação de disciplina, muito trabalho, descanso e optimismo – a desportista de Lustosa (Lousada) arrisca-se a ter o sorriso mais duradouro do atletismo nacional. “Mesmo quando estou mais triste rio-me”, confirma à RUNning. Quando era miúda, olhava para Dulce Félix (que, tal como Catarina, se formou no FC Vizela) ou para Fernanda Ribeiro e queria ser como elas. Passou pelo SC Braga, pelo Sporting CP e pelo SL Benfica. No final do ano passado, decidiu traçar o seu caminho enquanto individual.

 

Sara ou Catarina?

Havia uma Sara na escola que não era muito bem comportada e então eu não queria ser Sara. Mas cheguei a ter problemas com isso, porque havia provas em que me inscreviam como Catarina e outras como Sara. A Sara Ribeiro não tinha marca aos 10 000 metros e a Catarina já tinha… Era uma confusão desgraçada!

Mas qual das duas é melhor?

Acho que é a Sara Catarina. Uma é mais forte numa coisa e outra noutra; juntas são perfeitas. [risos] Ou não…

Como era a tua vida antes de te dedicares a 100% ao atletismo?

Andei na escola em Lustosa, fiz o secundário em Vizela. Depois fui para a universidade, para Fisioterapia, só que nesse ano alteraram o sistema de ensino e eu deixei de conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quando chegou a altura em que eu tinha de representar a selecção nacional no Campeonato da Europa, a professora disse que eu não podia faltar, senão reprovava. Então, eu fiz a minha escolha. Preferi correr.

 

Quantos anos tinhas?

18. Entretanto, comecei a trabalhar num ginásio, mas em 2010 fui operada a um joelho e despediram-me. Fiquei só no atletismo, tirando algumas formações que fui fazendo, como um curso de inglês… Mas com a preparação para a maratona, tinha de ter muito descanso e deixei de conseguir ir às aulas.

 

Como é que começaste a correr?

Foi por causa de um dos meus treinadores (eu tenho dois: o senhor [Joaquim] Santos e o Rui Ferreira). Na altura, eu era pequenita, tinha 11 anos, e o senhor Santos era cliente do meu pai [que tem uma oficina de automóveis]. Quando foi lá arranjar o carro, viu-me e disse: “Ah! Que menina tão magrinha!” Então perguntou ao meu pai se eu não queria ir para o [FC] Vizela correr. O meu pai respondeu: “Ela é que sabe.” Como não havia muitas maneiras para sair de casa, encontrei ali uma “fugazinha”. Começou a crescer o “bichinho” e a competição passou a ser mais a sério. O meu treinador confirmou que eu tinha jeito e perfil de atleta. Portanto, desde cedo que incuti que tinha de ser muito disciplinada.

 

Já lá vão 15 anos. Imagino que os teus treinadores sejam como uma família.

Exactamente. Quando se ganha demasiada confiança, às vezes, isso prejudica a relação entre o atleta e o treinador, mas nós sempre conseguimos distinguir bem as coisas. Somos amigos para além do atletismo, sim, mas quando é para treinar, o que ele disser é para eu fazer. Mais nada.

Qual dos dois te convenceu a sair do Benfica?

Nenhum. [risos] Eles não tiveram interferência na minha decisão… É claro que são eles – o Rui principalmente – que me orientam. E, aliás, as decisões nunca são só minhas, são nossas. Mas ele apoia-me sempre, desde que seja o melhor para mim.

 

Em declarações a alguns jornais, o Rui Ferreira explicou algumas das razões que te levaram a sair, nomeadamente a possibilidade de testar mais distâncias, como a maratona.

Foi particularmente isso que ajudou a que eu quisesse correr como individual. Nós tínhamos um projecto que passava por enveredar pelas maratonas e estar num clube nem sempre é compatível com essas opções. Temos os objectivos do clube, que às vezes coincidem com as datas em que eu preciso de estar mais focada no treino. Nós [Catarina e os treinadores] temos por norma treinar mais do que competir. Quando deixou de ser compatível, decidimos experimentar outra maneira. Por exemplo, eu queria muito ter ido aos Jogos Olímpicos e não fui porque me lesionei numa prova pelo clube. É lógico que a culpa não é do clube mas perdi muito tempo.

 

Sentias que não eras livre nas tuas opções.

Sim. Por isso preferi ficar por conta própria.

 

Neste percurso, sempre foste uma atleta muito polivalente.

Sempre fiz um bocadinho de tudo. No início da época treinava para o corta-mato, depois para a pista coberta. Depois havia ali um período de recuperação e passávamos para a pista ao ar livre. Ultimamente estou-me a virar um bocadinho mais para a estrada e para os 10 mil metros em pista.

 

E também estás a tornar-te mais versátil nas distâncias. Como se deu esta opção pela maratona?

Eu nunca tinha experimentado uma distância tão longa; o máximo que tinha feito era uma meia maratona.

 

Mas já te chamam “a nova maratonista”.

E eu senti que sou maratonista. Gostei muito da experiência. Tinha uma noção, que vinha das outras pessoas, de que a maratona era algo de muito difícil e exigia uma preparação muito dura. Não senti isso, fiz a prova com muita naturalidade. Foi uma experiência única, porque eu adoro fazer quilómetros, rolar durante muito tempo! Adorava chegar ao final da semana, olhar para o relógio e ver que fiz 200 quilómetros. E correu tudo como planeado: não tive lesões, não falhei treinos, nada. Quando chegou o dia, estava um bocado assustada, porque diziam que aos 30 km vinha o “homem do martelo” e ia ser muito duro!

Sofri entre os 15 e os 21 km, porque molhei a cara no abastecimento e, como estava muito frio, foi uma travessia dolorosa. Pensei que talvez não conseguisse chegar ao fim, só que depois começámos a arranjar maneiras de ultrapassar aquilo, de superar a dor na nossa cabeça. Aos 37 km tive cãibras e sofri bastante. Quando cheguei aos 40 km, achava que ia completamente esgotada, mas apercebi-me que a atleta que ia em segundo [Filomena Costa] também ia muito debilitada e, então, não sei bem o que aconteceu mas foi ali uma força de dentro… Ela levava mais de 200 metros de avanço e, na parte final, mesmo em cima dos 42 km, ultrapassei-a.

 

Pensavas poder ficar logo a seguir à queniana Kiptoo?

Eu não sabia bem qual seria o nível da prova. Na verdade só me interessava a minha marca e o que eu conseguiria fazer numa maratona. E percebi que os nossos limites não são onde a gente acha que são, mas muito para além do que conseguimos imaginar. É claro que tive o apoio do Daniel [Pinheiro], que esteve comigo durante a prova, e do meu treinador. “Corre com a cabeça! Corre com o coração!” A cada quilómetro eles diziam uma coisa diferente, para eu conseguir desligar da dor e pensar que queria ficar naquele lugar.

Mas este segundo lugar na maratona não veio do nada. Há pouco dizias que as pessoas se esquecem rapidamente do que os atletas fizeram para trás.

O facto de os atletas se lesionarem, como aconteceu comigo, e de terem de se afastar durante um tempo das competições, faz com que as pessoas pensem que alguns resultados surgem por acaso. Mas não. Eu corro há muitos anos, o meu percurso sempre foi muito programado e tenho tido muito bons resultados [ler “Tempo de corrida”]. Só ainda não consegui ir a um campeonato de pista ao ar livre de seniores. Nos últimos dois anos fiz os mínimos, mas tive azar. Em Portugal temos atletas de grande valia, mas só podem ir três de cada vez e eu ficava sempre em quarto.

 

A maratona mudou a tua perspectiva sobre o atletismo?

A maratona ajudou-me a conseguir testar mais o meu limite. Acho que me tornei mais dura.

 Tens 26 anos e já estás a apostar nesta distância…

Também tenho o objectivo, este ano, de fazer marca para os 10 000 metros do Campeonato do Mundo de Atletismo, porque eu não queria passar a dedicar-me só a maratonas; ainda sou bastante nova. Em 2016, fiz o meu recorde pessoal, de 32m31s aos dez mil, mas gostava de correr abaixo dos 32 minutos, portanto, ainda tenho muito que batalhar.

 

Por teres alcançado estes resultados, com as vitórias nas São Silvestre e o segundo lugar no Nacional de Estrada, sentes que as pessoas esperam mais de ti?

Nós, atletas, somos tão exigentes connosco, que nem importa tanto o que as pessoas acham. As pessoas estão sempre de olhos postos em nós quando estamos na mó de cima e querem sempre mais, mas nós também… Os atletas são seres insatisfeitos.

 

Qual é a tua maior insatisfação?

Foi não ter conseguido ir aos Jogos Olímpicos. Mas vou lutar para que daqui a quatro anos [em Tóquio] não volte a ficar cá. A preparação começa já e esta primeira abordagem à maratona foi um pouco na perspectiva de que em 2020 estar nos Jogos possa ser uma realidade.

 

É mais difícil competir como individual?

Não. Tenho é de ser mais profissional do que nunca. Posso não estar tão folgada em termos de apoios, mas consigo perfeitamente fazer a minha gestão. Estamos muito tranquilos. Desde que eu não tenha dores e consiga correr, estou sempre feliz.

 

Tempo de corrida

Formou-se no FC Vizela, clube onde esteve de 2002 a 2010

Em 2010 foi contratada pelo SC Braga

Entre 2012 e 2014 correu com a camisola do Sporting CP

Em 2014, passou a integrar o SL Benfica, clube que abandonou  no final do ano passado, para competir como individual

Foi campeã nacional juvenil em 2006 e júnior em 2008, nos 3000 metros

Nos sub-23, foi campeã nacional nos 3000 metros

Em 2013, sagrou-se vice-campeã Nacional de crosse curto

Em 2014, foi campeã nacional nos 3000 metros em pista coberta

Ficou em segundo lugar na Maratona do Porto, em Novembro

Ganhou a São Silvestre do Porto e da Amadora (esta última, pela segunda vez consecutiva)

Foi segunda no Campeonato Nacional de Estrada, em Janeiro