congresso da corrida (1)
VII CONGRESSO INTERNACIONAL DA CORRIDA
18 November, 2016
André Rodrigues
André Rodrigues é o Campeão Nacional de Ultra Trail 2016
21 November, 2016
Mundial_GAJO

Agora que as comemorações brindadas até à última gota já terminaram – o meu amigo Quim regressou esta semana à Argentina – é altura de partilhar a experiência vivida em tão importante prova. E desde logo importa salientar que existiu um factor com o qual não contava e que se revelou determinante: a sorte!

Tudo começou na tarde de dia 28 de Novembro em Braga. Estou ciente de que a organização, antecipando o calor que se fazia sentir, idealizou uma entrega de dorsais que permitisse usufruir durante o máximo de tempo possível da tenda montada para o efeito, impedindo assim desagradáveis escaldões. Tal medida evitou ainda a necessidade do “refrescar de goelas com uma fresquinha”, que viria a revelar-se muito importante no dia seguinte.

Surpreendendo-me com a minha antecipada preocupação, verifiquei, na noite anterior à prova, o equipamento obrigatório exigido (normalmente, transporto um saco que contém tudo o que solicitam e só o abro após me equipar) e descobri que uma das pilhas tinha rebentado dentro do frontal, o que o impedia de funcionar. Então, e como diria o outro, “foi só fazer as contas” e chegar à conclusão de que teria de dar ao pedal para cortar a meta ainda com a luz do dia, dado que a corrida só tinha início às 10h30.

Mesmo assim, havia a questão do controlo antes da prova, mas aí o que funcionou? Pois, acertaram, a amiga sorte! Tivemos de comparecer na partida dos 16 km e, só após esta é que seríamos transportados até Ambos-os-Rios, onde a nossa prova se iniciaria. Provavelmente, por não ter sido fácil perceber quem iria correr determinada distância, apesar dos dorsais em forma de babete que identificavam os que iriam desafiar os 55 km, o controlo foi ligeiro e o frontal não foi testado.

Apesar disso, sei da importância que o equipamento tem e telefonei para uns amigos para que estivessem à minha espera no abastecimento em Soajo com um frontal (até parece que estava a prever o que iria acontecer). A prova lá iniciou, cheia de boa disposição e com muitos reencontros à mistura. O meu amigo Quim estava fascinado com o ambiente de amizade que encontrou e cheio de vontade de se lançar aos trilhos. Tive quase de lhe gritar para impedir que se aventurasse logo num dos primeiros grupos que se iam formando na frente da corrida.

No primeiro abastecimento percebi que a sorte estava mesmo a acompanhar-me. Habituado a ficar à conversa entre batatas fritas, laranjas, frutos secos, bolos, etc., perdendo ali por vezes larguíssimos minutos, vi que aquele tinha o mínimo dos mínimos e foi como trocar os pneus numa boxe de Fórmula 1: parar e andar, ou neste caso, correr.

O grupo com quem tinha chegado ficou por ali mais um pouco e eu e o Quim arrancámos. O estropício não se calava que tinha feito a primeira subida sempre a defender-se e tal e então, mandei-o às urtigas, ou melhor, disse-lhe para ir, mal encontrámos uma rampa maior. Após uma paragem de emergência nuns arbustos ali colocados à mão de semear, corri alguns tempos com um rapaz de Arouca. Nessa altura o Pedro Dias encontrava-se ainda fugido e as conversas, invariavelmente, andaram à volta do que tinha acontecido. Fosse mais recente a prova e certamente que fumaríamos um cigarro electrónico ou faríamos um concurso de cuspidelas. Esse rapaz, João, pelo que me recordo, disse-me que estava a subir bem e ao ritmo de que gostava e que estava tudo a correr bem. Podia estar tudo a correr bem, com excepção dele mesmo, pois na subida seguinte ao abastecimento do Lindoso, ele ficou bem para trás e nunca mais o vi.

Nesse abastecimento, a sopa veio mesmo a calhar para retemperar energias e aquecer o corpo. Mesmo assim, fiquei muito menos tempo do que habitualmente, pois não queria ser barrado no Mezio e não andava assim com tanta folga. E lá fui à minha vidinha, até que algo estranho sucedeu. Vi um casal parado a olhar para a terra e perguntei-lhes se precisavam de ajuda e a resposta foi surpreendente: “Passou um lobo por aqui há pouco tempo!” Ora fod….(bom, podem adivinhar o que exclamei) e como sabem disso? “Pelo cocó (assim mesmo) que encontrámos, vês como é diferente do dos cães?” E aí pensei que estava já a correr há tempo a mais. Confesso que pensei em pisgar-me dali para fora, mas e se andasse mesmo por ali um lobo? Fugia primeiro ele do que eu, por certo, mas, sei lá! De qualquer forma, o casal veio comigo e fomos ali um bom bocado a partilhar experiências em trilhos, tal e qual qualquer um de nós fala sobre outros restaurantes, quando está a comer num.

Nessa altura começou a formar-se em mim a ideia que poderia não chegar de dia à meta. Bom, era já uma certeza, pelo tempo que estava a demorar. Comecei então a pensar no que deveria fazer e percebi que se os meus amigos já se tivessem fartado de estar à espera com o frontal o abastecimento, ficaria por ali mesmo (posso, eventualmente, teres-lhe transmitido a ideia que passaria cerca de duas horas antes do que realmente aconteceu…desculpem, putos!).

Mas eles lá estavam e bem acompanhados de umas minis, com me que tentaram subornar a ficar. E nessa altura a sorte voltou a funcionar. Não só tinha o desejo de chegar à meta porque o carro estava lá perto estacionado, como passou uma rapariga, com uns anitos valentes a mais do que eu, que me perguntou se ia desistir. E, claro, gajo que é gajo, não se fica e lá…quase fui, dado que ao despedir-me dos meus amigos, com a concentração em baixo, escorreguei numa pedra e dei um mergulho digno de levar nota elevada em quaisquer Jogos Olímpicos.

Levantei-me como se nada fosse, apesar do sangue que escorria da mão e, entre gemidos disfarçados e pedras que teimavam em rolar, devido aos incêndios que devastaram a zona no Verão, lá fui continuando a correr abaixo do tempo de barramento do Mezio. Mas aquela subida, porra, que aquela subida, apesar de a conhecer, parecia um calvário interminável. Só se viam as luzinhas dos frontais serra acima.

Mais uma vez, a sorte interveio a meu favor, pois como o meu frontal pouco iluminava, não tive ninguém a colar-se a mim, como aconteceu a outros e assim pude continuar sem ninguém “alapado” (claro que se não me tivessem levado o frontal, teria de o fazer também e aí iria incomodar um qualquer infeliz que passasse por mim). Quando acabei a subida, senti a minha vitória e lixei-me para concluir a prova. Estava com frio e fome e com o corpo todo partido quando avistei o abastecimento do Mezio e decidi que, por mim, estava feito. Foi então, que pela última vez, algo sucedeu e me obrigou a seguir até ao fim: Encontrei o Quim estiraçado no chão!

Fui logo ter com ele para ver o que se estava a passar e ele tranquilizou-me. Disse que tinha rebentado e estava só à espera que o transportassem até à meta e exigiu, sim, exigiu, que eu terminasse pelos dois. Não foi nada dramático, mas senti o Rocky Balboa que há em mim e arrastei-me dali para fora, ainda a duvidar de como é que tinha conseguido chegar antes do barramento. Durante uma prolongada oração a todos os deuses, ou melhor, ao deus que melhor conheço, Baco, surgiram dois hipsters, com as suas barbas e gel e pensei que tinha sido transportado para uma qualquer zona de Movida deste país. E os três seguimos até à meta, eles faladores e eu a dizer mal da minha vida.

Quando já bem depois das 20 horas cheguei à meta, os meus amigos que me esperavam, devem ter ficado tão surpreendidos, que só reagiram segundos depois. E foi uma festa! As fotos tiradas junto ao painel da chegada foram mais que muitas e os coitados da organização, certamente fartos de ali estar, esboçavam sorrisos indulgentes pelo alvoroço criado.

A t-shirt e a medalha de “finisher” foram recebidas com incontável alegria e a festa seguiu animada e cheia de boa disposição, principalmente depois da chegada do Quim que já no carro que o transportou, se fazia ouvir.

Despeço-me, agradecendo ao Quim, aos que me aturaram e principalmente à dona sorte, pois que sem ela, nunca teria conseguido terminar o trilho.