Armando Teixeira: Quando “se morre várias vezes e se ressuscita outras tantas”

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Armando Teixeira, 38 anos, é dos ultra-runners mais premiados de Portugal. Acabou de vencer a 1ª Edição do Azores Trail Run, a 24 de Maio; já fez provas de mais de 180 quilómetros; aguentou 32 horas e 42 minutos em continuum na montanha; e esteve entre a vida e a morte em Mont Blanc. Tudo porque “quanto maior for o desafio, maior é o ganho”.

Texto: Rute Barbedo

Começou a carreira de maratonista na montanha. Por que escolheu este terreno?
Tenho uma paixão pela montanha e a corrida surgiu no contexto do trail, em 2007/2008. Descobri esta paixão no trail Serra da Freita. A partir daí encontrei o desporto de que gostava e, ao mesmo tempo, um equilíbrio. Lembro-me de que quando estava a terminar os meus 13 quilómetros, havia atletas a terminar a ultra… Fiquei a olhar para eles, estupefacto, porque não compreendia como tinham capacidade para fazer 50 quilómetros naquelas condições climatéricas e de terreno. Eu já achava que 13 quilómetros eram algo de sobre-humano…

Então por que razão insistiu no trail?
Despertou-me curiosidade. Em 2008 comecei a fazer ultra-maratonas e em 2009 fui à Madeira fazer uma prova de 100 quilómetros. Em 2010, já estava a fazer o ultra de Mont Blanc. Comecei a descobrir a montanha, as dificuldades, os riscos de correr trilhos sozinho, e fui usando a minha curiosidade para me tentar superar cada vez mais. Estas provas não são para tentar ficar em primeiro, são para estarmos em contacto com a natureza, equilibrarmo-nos e superarmo-nos.

O que acontece nesses momentos, entre o Armando e a natureza?
São inúmeras sensações. A montanha é o meu jardim, onde encontro o meu equilíbrio. Passo por várias fases. A primeira é o choque tremendo de quem vem da cidade. Depois, há a adrenalina. E também costumo dizer que é na montanha que tomo as decisões da minha vida, pela tranquilidade que nos dá, a maneira como interagimos com ela… É ter as quatro estações do ano e a capacidade de contornar isso. As ultra-maratonas tornaram-me uma pessoa mais sensata, mais ponderada e muito menos materialista.

Na Madeira percorreu 100 quilómetros em 14 horas. Como se consegue chegar a este nível?
É preciso experimentar. Mas requer muito sacrifício e o apoio familiar é fundamental. Outro ponto importante foi ter passado ao treino orientado, com o Paulo Pires. Estar a este nível requer treino, disciplina, rigor e abdicar de muita coisa, como saídas à noite, estar com os amigos, até mesmo muitos jantares e almoços, em prol de uma dieta particular.

Até onde quer chegar no ultra-trail?
Um ultramaratonista é um insatisfeito. Quer sempre distâncias superiores, mais dificuldades e riscos maiores. Eu sinto isso. Mas é neste tipo de provas que me consigo encontrar e que me sinto bem. Para me abstrair de tudo, fecho-me numa “bolha” e é quase como estar sob o efeito de um sonífero ou de alguma droga… Mas na realidade sou só eu e a natureza.

É essa “bolha” que lhe permite vencer o cansaço?
Quando se corre oito, 10, 15, 20 horas, passa-se por muitas fases. Diz-se que se morre várias vezes e que se ressuscita outras tantas. Há momentos em que pensamos em desistir… Mas encontrei pontos para manipular a fadiga. Tomo decisões da vida, penso nas pessoas que estão a acreditar no meu desempenho ou, quando o terreno permite, observo a natureza. Muitas vezes consigo ouvir o meu coração, entrar no ritmo e abstrair-me de tudo.

Que dimensão tem a corrida na sua vida?
Neste momento – e até é um risco eu dizer isto – não é uma obsessão mas está no topo dos meus objectivos. Se eu não tivesse o apoio da família, neste caso, da minha esposa, não conseguia fazer nem sequer metade. E acho que quanto maior for o desafio, maior é o ganho, e maior é a vontade em ganhar um novo desafio e de me tentar superar.