“As diferentes modalidades tornaram-me uma pessoa mais completa”

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O que está por detrás das grandes prestações de Miguel Reis e Silva no trail não é o ar franzino nem o comprimento das pernas. A magreza é leveza para subir montanhas, sim, mas há uma resiliência e determinação ganhas na natação e na orientação, a modalidade que o tornou campeão nacional e que o fez saltar para o trail running. A crítica não demorou muito a chamá-lo de “revelação”, mas, aos 28 anos, a maior revelação deste interno de Medicina Física e de Reabilitação é que o desporto fá-lo ser melhor médico.

Passaste por diferentes etapas do desporto na tua vida. Vamos à primeira, a natação: como é o Miguel Reis e Silva dentro de água?

Comecei na natação aos 3 anos, pelo mesmo motivo que centenas de outras crianças: tinha uma asma de difícil controlo. Na altura era um dos nadadores mais fracos; era ultrapassado pelas melhores raparigas. No entanto, ficou para a posterioridade a técnica de natação que hoje em dia ainda me permite prestações regulares com pouco treino.

Então continuas a praticar.

Passei muitos anos sem nadar. Mas no último ano iniciei-me no triatlo e, desde então, tenho tentado cumprir um a dois treinos mensais de natação.

O que exige mais disciplina: a água ou a terra?

A disciplina apenas depende da forma como encaramos a água e a terra. Quando andava na água, tive durante vários anos volumes de treino de 2h30 por dia. Actualmente, limito-me a uma hora diária [de corrida] – que não cumpro rigorosamente –, com treinos mais longos ao fim-de-semana.

Explica-nos essa passagem de umas modalidades para outras. Vês-te sempre impulsionado a sair da tua zona de conforto?

Foram oportunidades que tive nas diversas fases da minha vida. O Clube de Natação de Torres Novas tinha um grupo muito dinâmico no qual treinava a maioria dos meus amigos. No quinto ano encontrei na minha escola uma boa equipa de orientação. Na faculdade, encontrei do outro lado da rua do Hospital de Santa Maria um excelente grupo de treino [de corrida]. As passagens pelas modalidades tornaram-me uma pessoa mais completa.

Os meus pais sempre estimularam em mim um fascínio pelo desconhecido. Quando era miúdo e começavam as férias, costumávamos partir de carro sem destino, com uma tenda. Num Verão, chegámos até à Grécia. Chamavam-nos malucos mas guardo dessas aventuras as melhores recordações.

Levaste aprendizagens da natação para a corrida?

Aprendi muito, não por ser o desporto A ou B, mas pelo facto de ter praticado desporto na infância e na adolescência, o que é fundamental no desenvolvimento psicológico e motor. Afinal de contas, as alegrias e tristezas do treino e da competição mimetizam a futura vida “real”.

Na altura treinava diariamente, independentemente das minhas condições respiratórias, com treinadores exigentes. Lembro-me de às vezes ter de esvaziar as lágrimas dos óculos de natação antes de entrar na água e a verdade é que sempre fui dos piores nadadores do grupo: pela asma, por ser dos mais novos dos escalões, por ter sido um maturador tardio e por não ter características físicas vantajosas. Mas toda essa experiência desportiva deu-me uma resiliência importante, uma característica que falta às gerações mais novas.

A partir dos 11 anos, dedicaste-te à orientação, um desporto de minorias. Como respondes à estranheza com que muitos atletas olham para esta modalidade?

Em Portugal, a infeliz realidade é a de estranheza por qualquer desporto que não seja o futebol. A orientação é um desporto extremamente competitivo que tem nos países nórdicos provas com 25 000 atletas.

Em Novembro hospedei um amigo que compete no meu clube finlandês de orientação e que esta época fez 13’47 aos 5 000 metros, um tempo que em 2015 não foi alcançado por nenhum atleta português. Os atletas de orientação François Gonon (Campeão Europeu de Km Vertical), Ionut Zinca (por duas vezes segundo nas Skyrunning World Series, apenas batido pelo Kilian [Jornet]) e Marcus Lauenstein (vencedor de Sierre Zinal e da Marathon du Mont Blanc) são apenas alguns exemplos de performances físicas impressionantes, às quais aliam apuradas técnicas de navegação.

A orientação não é um desporto, é um estilo de vida e nenhum atleta de orientação se dedica a esta modalidade por dinheiro, patrocínios ou ambição de grandeza, o que torna os praticantes pessoas particularmente interessantes. Impressiona-me a quantidade de atletas que abdicam radicalmente do conforto dos estilos de vida convencionais, “apenas” pelo prazer de se superarem a navegar na floresta.

Mas o que te fascina a ti, particularmente, neste desporto?

O que eu adoro na orientação é sentir o flow [a sensação descrita pelo psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi]. É quase uma sensação de êxtase, difícil de explicar e que acontece na corrida a grande velocidade, quando temos um domínio pleno do mapa e do terreno, sabendo exactamente onde estamos e onde iremos estar no mapa.

Além disso, é um desporto para toda a família, que normalmente se situa em locais naturais belíssimos. E o facto de as partidas serem espaçadas no tempo concentra centenas de pessoas durante várias horas no mesmo local, o que resulta em dias de convívio bem passados.

Mais uma vez: levaste da orientação aprendizagens para o desporto seguinte, o trail?

Não só para a corrida de montanha mas também para a minha vida diária. A orientação tem uma grande componente psicológica. O facto de escolhermos as rotas gera muita ansiedade, porque uma hesitação/decisão que custe 20 segundos pode arruinar as aspirações de meses de treino. O domínio psicológico que este desporto exige levou-me a desenvolver estratégias de gestão da ansiedade mais eficazes e a melhorar a atitude psicológica em prova. As técnicas de VMBH (visual motor behaviour rehearsal), essenciais neste tipo de desporto, ajudaram-me em muitos campos da minha vida.

Imagino que a tua rotina, tendo em conta o quanto dedicas ao desporto e à profissão, não seja fácil. Como geres os dias?

A Medicina sempre foi a minha prioridade, enquanto a corrida é um hobby. Tenho um volume de treino que é metade do que já foi: uma hora por dia, que aumenta para duas a três horas por dia ao fim-de-semana. É um estilo de vida com prioridades diferentes e que qualquer pessoa pode conciliar com as rotinas de trabalho – não tenho televisão em casa há vários anos e aproveito os tempos livres para ler e estudar.

Acreditas que a corrida te pode tornar um médico melhor?

O desporto dá disciplina mental. Se me proponho a fazer 20 séries de 400 metros com um minuto de descanso, faço as 20 séries, sofra o que sofrer – e às vezes sofre-se muito! Esta disciplina mental facilmente transcende para as rotinas do dia-a-dia. É curioso mas, quando treino, embora tenha menos tempo disponível, ele torna-se mais útil: estudo mais e sou mais produtivo e, consequentemente, um melhor médico.

Quais são os teus principais objectivos na corrida?

Melhorar as minhas performances em maratonas de montanha. Sinto que ainda posso evoluir muito. Quero também manter um bom nível nas competições de orientação usando o know-how de navegação que adquiri até hoje (as minhas rotinas já não me permitem realizar treinos com mapa frequentes) e ver até onde consigo subir na tabela classificativa de provas de triatlo esporádicas.

E qual tem sido a tua grande luta?

Quem me conhece sabe que eu não sou pessoa de lutas. Contudo, embora a Medicina Desportiva não seja a minha área predilecta, tenho investido algum tempo a desmistificar conceitos. O mundo do desporto é dominado por marcas que querem vender os seus produtos a qualquer custo e por técnicos de saúde que anunciam as mais estranhas terapêuticas como solução para quase tudo. Tudo isto não seria um problema se não resultasse em atletas frequentemente perdidos num manancial de informação errónea e contraditória enquanto gastam avultadas somas de dinheiro em produtos que supostamente vão melhorar a sua performance e terapêuticas inúteis para as suas patologias. Qualquer atleta quer ser “hi-tech” mas já vimos que todos estes pseudoavanços não trouxeram nenhuma melhoria na performance, antes pelo contrário, comparativamente à década de 70. É necessário parar e questionar os inúmeros dogmas não fundamentados do desporto.

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O grande sonho

“Viver num Portugal livre da corrupção, que o destrói a cada dia que passa.”

  O maior medo

“Do tempo, que nos vai levando quem gostamos nos momentos mais imprevisíveis.”

O acontecimento mais espectacular dos últimos tempos

“Ter-me casado em Agosto!”

Os ídolos no desporto

“Jonathan Wyatt, Tom Owens e Ionut Zinca. Todos eles atletas de topo, pessoas extraordinárias e introvertidas e, por isso, subvalorizados pela comunicação social.”

O melhor momento desportivo

“A Maratona de Zegama, na primeira vez que fiz a subida a Aizkorri. O ambiente do público fez-me chorar em competição.”

 O melhor equipamento

“Toda a gama Salomon S-lab, produzida por atletas e para atletas, é inigualável.”

 Os conselhos no trail

“Start low, go slow – uma máxima com origem em algumas terapêuticas médicas mas que se aplica nas adaptações aos treinos de longa distância.”

“KISS – Keep it simple, stupid – uma velha expressão da marinha americana. Treinar, comer e dormir é o essencial para um bom resultado; o resto é acessório.”