“As mensagens dos atletas mostram a força e a união dos trail runners portugueses”

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Foto: Cortesia da organização

Devido à aproximação de algumas frentes de incêndio à Serra da Lousã, o Montanha Clube Trail Running cancelou o Louzan Trail. A RUNnig falou com Ana Sêco, da organização, que nos contou como as forças foram direccionadas para a ajuda aos bombeiros e à população. Segundo a responsável, os acontecimentos trágicos de Domingo “marcaram profundamente a Organização e os voluntários do Louzan Trail”, que estão muito cansados. Contudo, “sabemos que não estamos sozinhos, as mensagens de apoio e de solidariedade que nos têm sido enviadas pelos atletas mostram a força e a união dos trail runners portugueses”, salientou.

Teresa Mendes

 

Como foi ter de tomar a decisão de cancelar uma prova tão esperada e que levou tanto tempo a organizar?

Ana Sêco (AS): Quando o incêndio deflagrou no Sábado, a Protecção Civil foi-nos preparando para a eventual necessidade de desviar os meios que estavam à nossa disposição (Bombeiros, Cruz Vermelha e GIPS) para o combate às chamas. Perante este cenário, e ainda no Sábado, criámos vários planos de contingência para a prova dos 50 km, uma vez que iria passar no ponto mais alto da Serra da Lousã e, consequentemente, mais perto do incêndio. Consoante o desenvolvimento da situação, os atletas ou seriam desviados para outros trilhos, ou a prova seria encurtada em cerca de 5 km. Em último caso, a prova dos 50 km seria cancelada.

Com o avançar das horas, e já na madrugada de Domingo, quando começou a ser divulgado o número de vítimas, voltámos a reunir e a discutir as implicações éticas de manter uma prova onde na outra encosta da Serra pessoas tinham perdido a vida. No meio desta discussão, as informações transmitidas pela Protecção Civil eram cada vez mais alarmantes. Assim, quando às 4h da manhã fomos formalmente informados do perigo que os atletas e voluntários corriam, a decisão de cancelar o evento foi fácil de tomar. A nossa principal preocupação enquanto organizadores de uma prova deste género é a segurança de todos.

E os atletas, como reagiram?

AS: Com a decisão de cancelar o evento, tínhamos de informar o mais rapidamente possível todos os atletas. Com inscrições de vários pontos do país, e sabendo que sairiam de casa de madrugada, procurámos avisá-los de todas as formas possíveis (redes sociais, e-mail e SMS). Claro que nem todos receberam em tempo útil esta informação e não vamos mentir, a organização ficou preocupada com uma reacção menos positiva por parte dos atletas.

Não podíamos estar mais enganados. Todos eles, sem excepção, compreenderam a necessidade de se cancelar o evento. Alguns chegaram mesmo a oferecer-se como voluntários para subir a Serra e recolher as fitas de marcação dos trilhos. Mesmo tendo recusado a ajuda, a organização ainda não consegue expressar como ficou profundamente sensibilizada com este gesto.

Rapidamente os esforços se direccionaram para a ajuda aos bombeiros. Como é que tudo aconteceu?

AS: Foi a decisão mais fácil que tomámos durante todo o dia de Domingo. As comidas e bebidas não perecíveis haviam sido colocadas nos locais de abastecimento no Sábado, mas às 4 horas da manhã de Domingo já se encontravam na Serra os voluntários responsáveis pela montagem do primeiro abastecimento. Quando, por volta das 5 horas da manhã, eles regressaram ao local da partida, fizeram um relato impressionante das condições atmosféricas que enfrentaram. Ao mesmo tempo a Protecção Civil estava a dar-nos informações sobre a redistribuição dos meios de apoio que estavam afectos ao Louzan Trail. Conhecendo a Serra e sabendo o que os bombeiros iriam enfrentar, nem sequer se colocou a questão do que fazer com a comida. À medida que a íamos retirando da Serra, os nossos voluntários, em articulação com a Protecção Civil, começaram a dividir e distribuir pelos vários postos de comando os abastecimentos destinados aos atletas. Tanto as 1000 refeições de massa com atum que estavam destinadas aos inscritos nos 50 e nos 25 km, como o reforço alimentar destinado aos voluntários foram integralmente entregues aos bombeiros.

Esta decisão não só foi naturalmente aceite pelos nossos parceiros e patrocinadores, como ainda disponibilizaram veículos de forma a que a distribuição fosse mais célere. Sem o apoio da Fruta da 5.ª e do Grupo MCoutinho não teríamos conseguido chegar onde queríamos.

Ainda estão no terreno a ajudar os bombeiros e a população?

AS: Neste momento, dado que não temos mais nada armazenado, funcionamos como intermediários entre os pedidos que nos chegam e os nossos patrocinadores. Verdade seja dita, graças à união e solidariedade dos portugueses, estes pedidos são cada vez mais espaçados.

Já existe uma nova data para a prova?

AS: O Louzan Trail 2017 integrava o PROZIS Campeonato Nacional de Ultra Trail (50km), Campeonato Nacional de Trail (25 km), Lacatoni Taça de Portugal de Trail – zona centro (25km) e o Circuito Distrital de Trail Running de Coimbra – Trail Curto (15 km).

Estamos a tentar encaixar a repetição da prova ainda em 2017, mas teremos de ter em conta os diversos calendários. Em última análise só a conseguiremos realizar em 2018. Naturalmente que todos os atletas deste ano estão automaticamente inscritos.

Quando será tomada essa decisão?

Os membros da organização só irão reunir amanhã para discutir o caminho a seguir. A adrenalina do dia de ontem está a esgotar-se e não queremos tomar decisões precipitadas, fruto do compreensível cansaço que sentimos.