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Por Nino Raleiras

Fotos: Click Faial

 

“Corra quando puder;

Ande se tiver de andar;

Rasteje se for necessário;

Mas nunca desista.”

Dean Karnazes

 

 

Foi IMG_09102017_104747com este espírito que aterrei no dia 5 de Outubro, na Ilha do Faial, disposto a, pela primeira vez, ultrapassar a fasquia dos três dígitos.

Estava ciente de que era uma prova distribuída por três dias, o que, à partida, ajudaria a minimizar o efeito dos quilómetros. No entanto, correr em ilhas diferentes obriga a cansativas viagens de barco e de autocarro, a jantar tarde, apesar do gigantesco esforço da maravilhosa organização (obrigado, Mário Leal) e a noites mal dormidas, o que é um verdadeiro desafio para quem, como eu, nunca tinha corrido mais de 50 km.

Na bagagem, entre o material necessário para três etapas e a esperança de as terminar, transportei histórias de amigos que elogiavam o ambiente quase familiar entre os atletas, os adormecimentos que levaram vários participantes a perder a travessia de barco e a célebre frase de que “nos Açores é possível sentir as quatros estações num só dia”.

O que encontrei foi, contudo, bem diferente. Nenhuma ligação marítima foi perdida, o tempo apresentou-se limpo e demasiado quente para o que era esperado e o ambiente era de competição. Após percorrer 110 km e gastar mais de 15 000 calorias, o final deixou a sensação de dever cumprido e a certeza de que esta é mesmo uma prova do “caraças”!

 

 

Dia 6 de Outubro

Da Vinha à Montanha

Ilha do Pico

IMG_07102017_150753Durante os primeiros 25/26 km, embora em sentido ascendente, a etapa inaugural do Triangle Trail Running Adventure permitiu apreciar as belíssimas vinhas entre campos de lava, o Lajido da Criação Velha (Património da Humanidade), as figuras gigantes que surgiram de amontoados de pedras e que foram chamadas de “maroiços” e o verde dos pastos, povoados por inúmeras vacas, que pareciam surpreendidas com tanto rebuliço.

Cheguei, devido ao calor, completamente ensopado à Casa da Montanha, mas ciente de que a prova ia ali verdadeiramente começar. Fui logo advertido, como se já o não temesse, que, apesar de faltarem somente 3,5 km para o final, teria de subir cerca de 1 000 metros em altitude. E ainda faltava a descida.

Amaldiçoei a minha vida logo no início de tão empinada subida, pedindo ajuda a todos os santinhos para a ultrapassar. Deixo aqui um conselho a quem se vai aventurar até ao topo da Montanha do Pico: peçam ajuda também para a descida, que não é menos difícil.

Terminada a etapa e “cravada” água ao Carlos Pedro que fotografava os que chegavam exaustos à meta, o desafio surgiu de imediato: subir ao ponto mais alto de Portugal, o conhecido “piquinho”, ligeira elevação de 70 metros no interior da cratera do vulcão, onde o mundo parece parar tal é a dimensão da paisagem.

Só faltava o raio da descida…

Dia 7 de Outubro

Trail das Fajãs

Ilha de São Jorge

 

17-09-59-22528903_1551239098253180_5234038910811254834_oApesar das elogiosas opiniões ouvidas sobre São Jorge, não estava preparado para a que hoje considero ser a mais bonita paisagem onde corri.

Aqueles pedaços de terra quase plana, encaixados entre as altas montanhas e o Oceano Atlântico, resultado do arrefecimento da lava expelida durante uma erupção ou dos desabamentos da encosta – as fajãs –, conferem à orla costeira da ilha uma singularidade a que quero brevemente regressar.

No primeiro dos abastecimentos, onde não faltou o delicioso queijo amanteigado, ex-libris da região, conheci o João Rodrigues, um conterrâneo almadense com quem segui até ao final.

Às animadas conversas, juntou-se mais tarde o João Silva, orgulhoso residente na ilha e que, nascido no Pico, nunca trepou a sua montanha. Foi através das suas explicações que, entre elevadas subidas e pronunciadas descidas, identifiquei as Fajãs da Costa Sul, onde existe uma das raras plantações de café da Europa e as lagunas costeiras.

A confiança ia crescendo e a deliciosa sopa de peixe, junto à Ermida, foi um prémio mais do que justo.

 

Dia 8 de Outubro

Trail dos Vulcões

Ilha do Faial

22308674_1657054301035266_7676458426821477645_n (1)Para a mais longa das três etapas, enchi-me de brio e ataquei com afinco os trilhos formados por cinzas, bombas vulcânicas e tufos, que partiram do Vulcão dos Capelinhos.

Desejoso de dar tudo, atravessei, rapidamente, os dez vulcões que antecedem a Levada – considerada a maior obra de engenharia do arquipélago dos anos 60 do século passado e conhecida por ser o local onde, no Azores Trail Run de 2016, parti dois dentes.

Preocupado em evitar novas quedas, não prestei a devida atenção à marcação do caminho e quando o final da Levada se aproximava, segui as fitas de uma prova anterior, correndo no sentido contrário ao da prova, o que me levou a perder mais de uma hora.

Fui resgatado à irritação pela imponência da Caldeira do Faial, cujo perímetro percorri praticamente sozinho, tendo sido poupado à sede pela generosidade da Fernanda Melo, que partilhou comigo a sua água.

Os famosos “S” foram descidos com um sorriso estampado no rosto, gozando com a falta de jeito que teima em me acompanhar.

A lindíssima cidade da Horta já se exibia com o esplendor de uma das mais belas baías do mundo.

Foi já no último quilómetro que dei a primeira e única queda, sinal de que até ao lavar dos cestos é vindima e de que a atenção não pode ser descurada.

A meta foi ultrapassada ao som de simpáticos aplausos e feita de reencontros com quem viveu idêntica experiência.

Está feita!