“As selecções estão mais fortes, o que torna o campeonato mais exigente”

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Depois do segundo lugar no MIUT, Tòfol Castanyer, da equipa Salomon Suunto Etixx, volta a Portugal para competir no Campeonato do Mundo de Trail, em Outubro. A RUNning esteve com o atleta em Barcelona, ainda na ressaca da Madeira e já de partida para a estreia na Western States Endurance Run 100 – Mile, nos Estados Unidos da América. Não admira que defenda o dia com 36 horas.

Texto: Vanessa Pais      

Foto: João M. Faria | NO WORDS Productions

Ainda no rescaldo do Madeira Island Ultra Trail® (MIUT), como te correu a prova?

Muito bem. Fui para a linha de partida com muitas dúvidas, porque foi a minha primeira ultra da época, tinha acabado de recuperar de uma lesão no tendão de Aquiles e estava há praticamente duas noites sem dormir devido à viagem atribulada de Maiorca para a Madeira. Tive de fazer várias escalas e, com os atrasos, acabei por chegar no dia da prova. Não consegui acompanhar o ritmo do Zach Miller, que foi fortíssimo, mas estou contente com o resultado. A prova foi duríssima, com um desnível do mais exigente que já fiz. Aos 70 quilómetros já tínhamos subido um acumulado de 5900 metros!

 Tens boas recordações das provas que já fizeste em Portugal?

Muito boas. Adorei a Madeira. Também gostei muito dos Açores. É um local onde gostava de voltar não só para correr (quero muito fazer a Triangle Adventure, porque no ano passado [venceu a Azores Trail Run 2015] não consegui ir ao Pico, mas vi-o do Faial e fiquei com muita vontade de subir ao topo), mas também em família. Quando vou competir costumo ir sozinho, mas há locais aos quais sinto vontade de voltar com a família. Os Açores é um deles. Também tenho boas memórias dos Trilhos do Paleozóico e do Ultra Trail Aldeias de Xisto. Gosto muito de correr em Portugal, porque recebem muito bem os atletas e conhecem-me quase como em Espanha.

 Imaginamos que estejas contente por poder voltar em Outubro para o Campeonato do Mundo. Quais são os teus objectivos para esta competição?

Estou muito contente, porque vou poder correr numa zona que não conheço. O Miguel [Hera, atleta da mesma equipa] já me disse que é um percurso muito técnico. Ainda não tive muito tempo para definir objectivos, porque só depois de vencer o campeonato de Espanha assegurei a minha participação, mas espero conseguir um bom resultado. Este ano todas as selecções estão mais fortes, o que torna o campeonato mais exigente, e isso é muito positivo.

Que outros desafios tens para esta época?

Vou participar, em Junho, na Western States Endurance Run – 100 Mile. Todos os anos escolho uma prova mítica ou exigente para participar pela primeira vez ou para melhorar resultados de anos anteriores. Este ano vou estrear-me nesta. É um tipo de corrida ao qual nós, europeus, não estamos habituados, porque é muito rápida, corremos com lebres e tem algum desnível. Estou muito feliz por ter conseguido um lugar nesta prova, que era um objectivo pessoal depois da participação no Mont-Blanc.

Tens já no currículo um segundo lugar (ex aequo com o colega de equipa Iker Karreas) no UTMB (Ultra Trail du Mont-Blanc®) em 2014 e um primeiro lugar no CCC (Courmayeur Champex Chamonix) em 2012. Que conselho podes dar aos que se vão estrear este ano na mítica?

Que desfrutem e que vivam a prova. O Mont- -Blanc é… Uau! Só estar em Chamonix é uma oportunidade única. É um ambiente espectacular. A ultra é uma prova duríssima, mas corrê-la é indiscritível, por isso, o conselho é que vão preparados, sigam as indicações da organização e que a vivam. Para quem ainda não tem preparação para a distância maior, pode começar pela maratona, como um primeiro escalão para viver aquele ambiente.

Que outras recordações guardas da montanha?

Tenho muitas imagens gravadas na memória. Costumo dizer que a montanha deu-me muito mais do que aquilo que alguma vez poderia imaginar, mas também tenho memórias menos positivas e grandes aprendizagens. A pior recordação e a maior aprendizagem que guardo é a da Ultra Cavalls del Vent, em 2012. Foi uma prova com cerca de 1100 participantes, dos quais 700 desistiram ou foram forçados a desistir por hipotermia, sendo que uma das atletas faleceu. Eu fui um dos que foi forçado a desistir.

O que aconteceu?

Parti a um bom ritmo com o Kilian [Jornet], mas com material insuficiente. Sabíamos que poderia chover, mas não previmos o frio. Não estava habituado ao clima. Em Maiorca a temperatura é bem diferente. Foi uma aprendizagem para mim e para as organizações. Penso que a partir daí passou a haver mais exigência ao nível do material obrigatório e do seu controlo.

 Sentes o impacto de viver numa ilha na tua preparação enquanto atleta?

Claro. Mas há coisas positivas e negativas. Excepto em Julho e Agosto, meses nos quais está muito calor, quase todo o ano temos temperaturas ideais para treinar. Estou bem preparado para provas com calor, mas o frio é um desafio. Também temos alguma dificuldade em viajar devido às escalas e aos tempos de espera, mas já estamos habituados. Depois há a questão da altitude. Maiorca tem uma altitude máxima de 1300 metros.

Como é que consegues preparar-te para provas com maior desnível?

A maioria dos atletas treina para as provas consoante o desnível. Eu faço treinos mais curtos, mas mais rápidos durante a semana (até porque com três filhos e uma empresa para gerir com o meu irmão não tenho muito tempo) e ao fim-de-semana faço treinos mais longos e com o máximo de desnível possível.

Os resultados atestam o sucesso da fórmula. A rapidez na montanha vem da época em que corrias na pista?

Talvez. Comecei a praticar atletismo na pista e na estrada e, apesar de em 2006 me ter dedicado exclusivamente ao trail, continuo a gostar da sensação de velocidade. A montanha pode dar-te muitas coisas, mas não a sensação de correr a 3m20s por quilómetro. No final de cada época, faço sempre uma maratona de estrada. No ano passado fiz a de Castellón e consegui correr a 2m25s por quilómetro, o que para um atleta de trail com 44 anos é muito bom. Este ano ainda estou indeciso, porque estou focado no Campeonato do Mundo, e só depois disso é que posso pensar na maratona.

Podes voltar a Nova Iorque, mas desta vez para correr…

[Risos] Sim, a Maratona de Nova Iorque ficou-me entalada. Queria voltar lá, porque em 2013, depois de ter conseguido o mais difícil, que é estar lá, cancelaram a prova devido ao furacão Katrina. O pior não foi cancelar, mas confirmarem que a prova se ia realizar, dizerem aos atletas para viajaram para Nova Iorque (só da Europa foram cerca de 20 mil) e dois dias antes informarem que a maratona não se ia realizar. Senti-me enganado!

Como é que se consegue ser um atleta do teu nível sem te poderes dedicar exclusivamente ao trail como profissão?

Sem o meu irmão e a minha mulher seria impossível. Tenho três filhos, com oito, seis e um ano. Tenho a sorte de trabalhar com o meu irmão na empresa que era dos nossos pais. Temos duas lojas de ménage, uma direccionada para o lar e outra para unidades hoteleiras. Tento gerir as ausências, tanto no trabalho como com a família, estando realmente presente quando não estou em competição. E depois tenho a sorte de ter o patrocínio da Salomon.

 

B.I.

44 anos

1,64m

54 kg

Soller, Maiorca

Lema de vida: “Sou aspirante ao equilíbrio entre estar parado, trabalhar e correr na montanha; defensor do alargamento do dia para 36 horas; e fã da doutrina: ‘Tenho tempo de descansar no caixão.’”

 

Junho 2016