Aurora Cunha: “Portugal tem quantidade e qualidade, mas é preciso saber trabalhá-las”

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Tem incentivado as mulheres portuguesas a correr e diz que “quando elas se querem juntar, revolucionam tudo”. Aurora Cunha, 55 anos, é assim: sem papas nem língua. Quando a filha era criança, disse-lhe: “Se no meu tempo eu tivesse umas sapatilhas como as tuas, não corria: voava!” E nós acreditamos. Em entrevista, a tri-campeã mundial de estrada fala sobre o que há a fazer no atletismo de hoje para um país melhor amanhã.

Texto: Rute Barbedo
Fotografia: Celestino Santos

Vamos ao presente. Como são hoje os dias da Aurora Cunha?
Estou ligada à RunPorto já há quase 20 anos. Quando o projecto nasceu, nem eu nem o Sr. Jorge Teixeira [presidente] pensaríamos que chegasse a este patamar. Termo-nos conhecido foi uma mais-valia e uma maneira de eu continuar ligada a esta modalidade que sempre amei e abracei. Sou também embaixadora da Ética Desportiva em Portugal. E, através do Instituto Português da Juventude, tenho visitado cadeias, onde falamos na ambição e no respeito pelos adversários… Alguns presos dizem-me: “É tão bom ser livre!” E a corrida dá-nos isso.

O que a move neste apoio contínuo às corridas?
É sensibilizar as pessoas para a prática do exercício físico. Mas depois há também uma vertente solidária, porque um euro ou 50 cêntimos podem fazer a diferença na ajuda a várias instituições. No ano passado, aqui na Póvoa de Varzim, tivemos 5 000 pessoas na 4.ª Corrida da Liberty Seguros e o dinheiro reverteu para duas instituições de que sou madrinha: o Instituto Maria Paz Varzim e a Casa do Regaço. Sinto-me uma atleta privilegiada, em todos os sentidos. Sou embaixadora da Liberty há cinco anos, uma companhia que se move pelos valores da vida e da solidariedade, que só tive pena de não ter conhecido quando competia. Já a minha relação com o Futebol Clube do Porto (FCP), por exemplo, deixa-me triste.

Tem ressentimentos para com o clube?
Eu vesti a camisola do meu FCP durante 20 anos, dei tudo o que tinha ao clube e vejo que ele abandonou os seus atletas e a modalidade. Até 1987, o presidente José Nuno Pinto da Costa viveu dos meus resultados e das minhas medalhas. Só a partir daí é que o Porto começou a ganhar no futebol.