AZORES TRAIL RUN – TRIANGLE ADVENTURE: LIGAÇÕES FORTES

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Por Vanessa Pais

Fotos: Click Faial

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Alguém me disse um dia (penso que foi o Hélio Fumo) que parece que a prova só acaba quando se escreve sobre ela. Não terá sido exactamente por estas palavras, mas a ideia era esta. E é precisamente isso. Quando a experiência é boa, e é quase sempre, as memórias querem sair para o papel e ir ter com outras pessoas. É por isso que inauguro a minha participação neste espaço de opinião dos colaboradores e leitores da RUNning com uma prova que me diz muito, a Azores Trail Run – Triangle Adventure, que este ano aconteceu nos dias 7, 8 e 9 de Outubro.

Poderia ficar aqui horas a discorrer por lugares-comuns como a simpatia e a disponibilidade dos açorianos, a beleza da paisagem, a possibilidade de privar com grandes atletas, o trabalho fantástico dos fotógrafos da Click Faial, ou as capacidades organizativas do Mário Leal, mas isso toda a gente já sabe. O burburinho nas redes sociais, que mantem a prova viva nas nossas memórias de uma edição para outra, encarrega-se dos elogios. Hoje vou contar uma história.

Era uma vez uma jornalista que escrevia sobre corrida, mas que só tinha feito uma prova de trail de 15km (e demorou 3 horas, porque estava em reportagem e tinha de esperar pelas personagens principais da história). Um belo dia de Outubro de 2015 recebe um telefonema de alguém com um sotaque estranho com um convite para ir fazer uma prova de 100 km de trail, por etapas, em três ilhas – Pico, São Jorge e Faial -, com um desnível positivo acumulado de cerca de 6000 metros. “O máximo que fiz foi uma maratona em estrada e demorei 4h00. Achas que consigo?” Pergunta estúpida! Claro que não. Não era para conseguir, principalmente porque estava lesionada. Não se corre com dor! Não se corre com dor! Não se corre com dor! Quantas vezes já tinha ouvido isto? E qual foi a primeira coisa que fez? Correr com dor!

Ainda hoje está para saber como, mas lá conseguiu fazer a prova “a arrastar o rabo” e não houve ventos nem tempestades que a impedissem de trazer a medalha para casa, mesmo depois de demorar 10h00 a concluir os 42 km da etapa do Faial. Trouxe a medalha e muito mais, a começar pela sensação de superação, de missão cumprida, objectivo alcançado, no fundo, a raiz do vício que faz alinhar na partida, mesmo quando a cabeça nos diz que não é boa ideia, que vamos sofrer, que vai doer.

 

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E trouxe de lá histórias para contar aos netos, amizades que podem durar para sempre e também uma coisa extraordinária (não, não foi o queijo amanteigado) que é o ter encontrado um sítio onde, nem que seja apenas por alguns dias, as pessoas estão focadas em dar o seu melhor, sabem que todos estão a dar o seu melhor e dão sem esperar nada em troca, sem desconfianças. É por isso que gostava de levar lá todos os meus amigos. Faz-nos falta um banho de optimismo.

Com todas estas estas preciosidades na bagagem e uma lesão no joelho (ah pois, não podia ser tudo um mar de rosas!), a vontade de voltar era muita, mas “para fazer o triângulo nunca mais”, disse. E voltou. Foi a Santa Maria, voltou ao Faial, até que chegou a derradeira pergunta: “Então, queres vir ao triângulo?” “Claro!”, respondeu sem pestanejar. “Pronto, já me meti numa alhada outra vez”, pensou logo a seguir. E ainda bem! Foi por esta e por outras histórias que lá voltei.

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A experiência da edição de 2016 ainda foi melhor. A prova correu melhor, a preparação era outra e os resultados apareceram. E foi muito bom ver que outros atletas também evoluíram e que houve fotógrafos que se tornaram atletas (não é, Carlos Pedro?). Foi bom testemunhar o impacto positivo da corrida na vida das pessoas e ver a prova a conquistar outros atletas, como o João Pedro Simões. Bem-vindo!

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Este ano subimos ao Pico. Fomos os primeiros a fazê-lo em prova. E Thibaut Baronian, vencedor da etapa e da prova, tornou-se no atleta mais rápido a percorrer a distância, com o tempo de 2h55m22s. Já para nós foram 4h00 até à Casa da Montanha (cerca de 26 km) e mais quase 2h30 para chegar à base do Pico (cerca de 3,5 km), literalmente “de gatas” (obrigada pelo registo Rui Melo e pela companhia também). Ora, quem chega à base também sobe ao Piquinho e já pode dizer que esteve no ponto mais alto de Portugal. Assim foi, com a companhia do amigo Carlos Pedro, sempre pronto para mostrar os recantos dos Açores, com direito a explicação, fumarolas e fotografia. Depois foram só mais 2h00 de descida guiada pela experiência do Ricardo Ávila que ainda valeu uma boleia até ao merecido descanso. No total, contei 9h00 de sobe e desce, de sol e chuva, de frio e calor, de conversas, de histórias, de gargalhadas. Atrás só vinha mesmo o Lima, sempre na galhofa, mas quase que ficava à minha frente (ainda não foi desta!), e o nosso vassoura de serviço, o Mauro Gonçalves. Mas esta história fica para a próxima edição da RUNning.

No final de cada etapa, a chegada ao hotel era apenas a preparação para uma nova partida. A companhia não podia ser melhor: Lucinda Sousa. Sábios conselhos os da nossa campeã. Lembro-me de lhe dizer que ainda gostava de a ver ganhar aos homens. Mal sabia eu que na semana a seguir ia telefonar a dizer que tinha conseguido. Que orgulho!

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A luta na etapa de São Jorge (30 km) começou, para muitos, ainda na viagem de barco, mas o pequeno-almoço que nos esperava em São Tomé, com as iguarias regionais (gostei muito de conhecer as “espécies”), aconchegou o estômago e encheu-nos de coragem para receber a beleza, mas também as subidas e descidas das Fajãs de São João, dos Vimes, da Caldeira de Santo Cristo, do Belo e dos Cubres. Valeram os bastões do Mário Leal que encurtaram escadarias e evitaram uns belos tombos.

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Na meta, foi um desfilar de petiscos, das conservas à sopa de peixe, sem esquecer a canja. Houve quem saísse já de banho tomado, cortesia do café local, e massagem recebida, para um novo desfile de sabores. As distracções foram tantas que até as sapatilhas ficaram para trás. Obrigada Susana Ribeiro pelo salvamento!

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A última etapa – “Trail dos Vulcões” (42 km) – não começou molhada, mas encharcada (para alguns, logo no barco, não para mim que sigo sempre os conselhos dos locais). Chuva e trovões não faltaram. De tal modo, que a partida foi dada no interior do Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos e a prova foi encurtada em dois quilómetros, evitando assim a passagem pela Caldeira (e adiando o desempate para uma próxima oportunidade). Depois de três dias a ouvir o Miguel Judas a dizer que eu não corria nada, foi bom partilhar com ele uma canja no abastecimento. Sem dúvida, um dos pontos altos desta aventura. O outro foi ver a Horta ensolarada ao sair dos trilhos com a certeza de que ia cruzar a meta. A imagem vai ficar para sempre gravada na memória!

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E porque a tradição ainda é o que era, não podíamos regressar ao continente sem ir ao Peter’s em excelente companhia e com sotaque madeirense. Obrigada pelos momentos, pelas memórias, pelo apoio e pela amizade Mário Leal, Lucinda Sousa, Carlos Pedro, João Pedro Simões, Miguel Judas, Sara Sezifredo, Mauro Gonçalves, Vítor Dias, Ricardo Gouveia, Pedro Medeiros, Nuno Gonçalves, Renato Andrade, César Lima, José Baptista, Susana Ribeiro, Ricardo Ávila, Rui Melo, entre tantos outros.