Carlos Sá: “Esta mudança não é uma utopia. Dói mesmo.”

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Passou de sedentário ao ultra-runner mais completo do mundo. Já venceu a Badwater – 217 km no deserto da Califórnia; foi o melhor atleta não-africano na Maratona das Areias – 250 km no deserto do Sara; e superou os mais de 2 000 metros de altitude no Ultra-Trail de Mont Blanc. Em Setembro, vai participar pela primeira vez na Jungle Marathon – 260 km de densa Amazónia. Até esta entrevista, duvidámos que Carlos Sá fosse de carne e osso. Mas é mesmo. E vem de Barcelos.

Texto: Rute Barbedo
Fotografia: Paulo Jorge Magalhães

Quem é o Carlos Sá?
É um ex-sedentário que começa a fazer actividade na natureza. Começa pelo BTT, segue para o montanhismo extremo e, na necessidade de se superar, vai para a corrida… Como o alpinismo é uma prática cara e eu, como todos os portugueses, ganhava cada vez menos, comecei a dedicar-me mais à corrida. Depois fiquei desempregado. Estava a viver tempos difíceis aqui no vale do Cávado. Na procura de emprego, ofereciam-me o ordenado mínimo, por isso, o risco era mínimo também. Então vi na corrida uma alternativa e comecei a pensar no que precisava de fazer para me afirmar, para ser tão bom ou melhor do que os outros. Sabia que não ia ganhar dinheiro nas provas, portanto, só através da publicidade é que conseguiria pagar as viagens e inscrições, e ter algum dinheiro para mim. Decidi arriscar tudo, treinando a 200%. De há dois anos para cá estou a viver esse sonho.

Como se passa, de um dia para o outro, a ex-sedentário?
Fiz desporto até aos 18/19 anos. Mas depois saturei de estudar, quis descobrir o mundo da discoteca e dos copos, que as crianças dessa idade gostam de ter… Rapidamente, tornei-me uma pessoa com excesso de peso e fumava dois maços de tabaco por dia. Aos 25 anos, casei e, claramente, comecei a mudar a minha vida. Foi dos períodos mais difíceis de sempre. Esta mudança não é uma utopia. Dói mesmo.

Se doía, por que decidiste insistir?
Consegui provar que era possível, com sacrifício e trabalho. Parecia que tinha toda a felicidade do mundo, mas era tudo um engano. Foi-nos vendido um mundo irreal, onde não colocamos desafios a nós próprios. E eu sentia que não era feliz assim. Depois nasceu o meu filho e começou a chocar-me vê-lo a imitar o pai a meter pauzinhos e tabaco à boca. Então comecei a luta do ex-sedentário e passei a vencer barreiras, a sentir-me realizado a cada etapa. Era fácil porque estava a fazer tudo com muita paixão. E ainda não consegui parar.

De todas as provas, quais foram as que tiveram mais significado pessoal?
Há as mais mediáticas, como a Maratona das Areias, a Badwater, Mont Blanc… Mas há muitas outras de que não se fala e onde sofri muito mais e vivi experiências mais intensas. Em 2010, participei numa prova de 170 km nos Pirenéus franceses [Le Grand Raid des Pyrénées], onde sofri imenso – aos 70 km estava com os pés completamente em ferida; a planta do pé era uma bolha só. Cometi vários erros pela falta de experiência, mas mesmo assim não quis desistir e acabei por terminar a prova em primeiro lugar. Acho que nunca sofri tanto na minha vida, mas consegui superar. A partir daquele momento, fiquei a pensar que não havia de ser uma dor a fazer-me parar. Essa prova deu-me uma resistência psicológica tremenda. E se não tivermos uma cabeça de ferro, não há preparação física possível para isto.

Como se treina a mente?
Dei por mim várias vezes a chegar a casa à meia-noite, depois de muitos afazeres, sem ter tido tempo para treinar, mas em vez de ir dormir, decidi pegar na [luz] frontal e saltar para o meio do monte. Tinha de resistir aos apelos da esposa, que me dizia que o melhor era descansar para ter energia no dia seguinte… Depois dava por mim no monte, sozinho, a ouvir dois monstrinhos [aponta para as laterais da cabeça]: o bom e o mau… Pensava que estava louco, mas depois convencia-me de que certas experiências ainda me iam fazer falta quando estivesse nos Alpes… Mais do que treinar o físico, treino o psicológico. Quem não o fizer está condenado.

Quando se ouve a tua história, a pergunta é: Como é possível correr 200 km seguidos, sob mais de 40º C ou temperaturas negativas, em condições extremas, no limite? Também colocas esta questão a ti próprio?
Sim… e muitas vezes tenho dúvidas de que serei capaz. Mas não perco muita energia com isso. O que eu penso é: “Se os outros conseguiram por que é que eu não hei-de conseguir?” Ninguém é melhor do que ninguém, por isso, se eu consigo correr mais de 200 km non-stop, por que é que outras pessoas não conseguirão correr uma maratona? Só é preciso motivação e trabalho.