Cathy Freeman, a aborígene de ouro

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Quando Cathy Freeman correu a final dos 400 metros nos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, a Austrália susteve a respiração. Na recta final para o Rio 2016, recordamos a história da atleta aborígene que uniu uma nação.

Texto: Inês melo

Na memória dos Jogos Olímpicos, poucos terão chegado à linha de partida com tamanho peso nos ombros. Em 2000, na final dos 400 metros, Cathy Freeman levou para a pista todas as esperanças de uma nação. Durante pouco mais de 49 segundos – os mais longos da história da Austrália –, correu com o orgulho vestido da cabeça aos pés. O fato de corpo inteiro verde e prateado prestava tributo ao país dela; as sapatilhas vermelhas, amarelas e pretas honravam a sua cultura aborígene. Cathy era o símbolo da reconciliação.

A história recente dos povos indígenas australianos está cravada de massacres, roubos e racismo consentido pelas autoridades. A avó de Cathy é um dos rostos da Geração Roubada, resultado da política governamental que, entre 1910 e 1970, retirou das famílias aborígenes milhares de crianças, entregando-as a famílias brancas ou a instituições, assente na convicção de que não tinham condições dignas para as criar. O pedido de perdão por parte do governo australiano aconteceu em 2008, oito anos depois das olimpíadas que distinguiram pela primeira vez uma atleta aborígene.

Em miúda, Cathy lembra-se de vencer um campeonato escolar e de ver a medalha ser entregue a uma colega branca. Apesar do talento óbvio, pertencia a um grupo minoritário, que historicamente não tinha tido acesso às mesmas oportunidades de outros atletas. O sonho manteve-a focada no treino e valeu-lhe uma bolsa de estudo numa escola de renome. Tinha 13 anos quando disse a uma orientadora vocacional que seria campeã olímpica. Na mudança do milénio, quando Sidney recebeu os Jogos, já não era uma desconhecida: aos 16 anos tinha–se tornado na primeira atleta aborígene feminina a vencer uma medalha de ouro internacional, nos Commonwealth Games; aos 19 seria a primeira aborígene a representar a Austrália em Jogos Olímpicos, em Barcelona.

“A corrida das nossas vidas”

Campeã do mundo em 1997 e 1999, Cathy era a grande favorita para vencer os 400 metros em Sidney. A maior rival, a francesa Marie-José Pérec, acabaria por abandonar misteriosamente o país antes da prova, queixando-se da perseguição dos jornalistas. Para evitar a histeria, Cathy tinha decidido treinar longe de casa; quando regressou a pressão era avassaladora. Ainda no aeroporto, os visitantes eram recebidos por um cartaz gigante com a imagem da atleta, que se replicava por toda a cidade. E na cerimónia de abertura lá estava ela: a primeira atleta em competição a acender a tocha olímpica.

No dia da final, o Sydney Morning Herald imprimia na primeira página: “A corrida das nossas vidas”. Num estádio lotado, mais de 112 mil corações expectantes aguardavam o sinal da partida – do outro lado da televisão eram milhões. Cathy começou com prudência, mas a 80 metros da meta descolou para a vitória. O barulho era ensurdecedor. “Estava completamente deslumbrada, porque conseguia sentir a multidão à minha volta, todas as emoções, toda a felicidade e alegria. Tive de sentar-me.” Esteve assim durante alguns minutos, então tirou as sapatilhas e voltou para a pista com duas bandeiras na mão.