“Chamam-nos atletas profissionais, mas nós somos amadores”

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Hermano Ferreira tem os pés bem assentes na estrada – nada que o envergonhe. Do talento fez vício; do vício tem feito o sustento que lhe permite continuar a voar. Aos 32 anos, tem um sonho: estar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Texto: Inês Melo      

Fotos: Celestino Santos

Encontrámos Hermano Jorge Ferreira de chinelos, em Santiago dos Velhos, concelho de Arruda dos Vinhos, ainda o sol se estava a espreguiçar. O chá e a carcaça com fiambre acomodam o estômago para mais um dia de treino – primeiro na frente ribeirinha de Santa Iria da Azóia, depois na pista de atletismo do parque urbano da vila. Do Jorge menino, os pais contam que nunca parava quieto. Que caía e limpava as feridas sozinho. Que sempre quis ser grande.

Quem é o Hermano Ferreira, que afinal é Jorge?

[Risos] É um rapaz simples, que tem um vício: correr. Tinha quatro anos quando recebi o meu primeiro diploma e nunca mais parei. A corrida dá-nos uma liberdade que nada pode pagar. Talvez por isso prefira as provas de estrada à pista ou à terra batida. Sinto-me como um pássaro.

Qual foi o maior voo da tua carreira?

A primeira ida à selecção de seniores, que curiosamente foi num corta-mato, em 2005. Claro, também foi muito importante a vitória na Taça dos Clubes Campeões Europeus, quando ninguém esperava, em Paris [2009]. Era um miúdo, mas fiz muito bem o trabalho de casa. Foi a rampa de lançamento para várias vitórias em taças e campeonatos nacionais.

Quais são as diferenças entre esse Hermano e este à minha frente?

Cresci muito como ser humano e como atleta, apesar de ter tido algumas infelicidades em momentos decisivos. No Campeonato do Mundo de Moscovo, em 2013, tinha o objectivo de ficar entre os dez primeiros, mas fiz uma lesão e tive de desistir. Depois, ao rever a prova, fiquei com a sensação de que ali teria sido o meu momento numa grande competição. No ano passado, em Zurique [no Europeu de Atletismo], também estava muito bem, mas fui traído pela ansiedade.

Como geres essas situações?

É complicado. O primeiro pensamento é que foram três meses de trabalho por “água abaixo”. Depois penso nas pessoas que estão comigo:  treinador, massagista, família, amigos, patrocinadores… O dia seguinte é sempre mais difícil, mas é preciso não baixar os braços e traçar novos objectivos. Foi o que aconteceu em Zurique, pensei logo na Maratona de Londres.

Depois de ter visto o António Pinto ganhar durante anos, tinha esse sonho. Tive o privilégio de entrar, mas acabei por correr mais com o coração do que com a cabeça [terminou em 16.º]. Foi uma grande lição, porque poderia já ter os mínimos para os Jogos Olímpicos e estar na PREPOL [Projecto de Preparação Olímpica].

De onde vem a motivação para continuares a sonhar com os Jogos?

Desde o dia em que comecei a treinar a sério, tinha 15 anos. Qualquer atleta tem esse sonho, porque, obviamente, significa que se é muito bom. De cada selecção só podem ir os três melhores atletas e eu espero ser um dos melhores portugueses. Também tenho a mágoa de saber que já podia ter estado nuns Jogos Olímpicos [Londres 2012]… Na altura ia fazer 29 anos, tinha os mínimos e até hoje estou para saber o motivo pelo qual só levaram dois atletas e eu fiquei. Isso dá-me mais motivação para querer estar no Rio de Janeiro.

A que distância estás da PREPOL?

Para estar na PREPOL tenho de correr abaixo das 2h10m40s. Poucas pessoas sabem, mas em Londres eu estava a valer essa marca. Sei qual é o meu valor e quem está comigo também sabe. Alguns antigos atletas com quem cheguei a correr diziam que eu tinha características de maratonista. Muitas vezes olho para o meu reflexo em corrida e lembro-me dessas palavras.

Que características são essas?

A minha passada, o à vontade com o acumular de quilómetros, a capacidade de sofrimento e, sobretudo, de sofrer sozinho. Eu sei que tenho capacidades para correr abaixo das 2h10m, que é uma marca que poucos brancos estão a conseguir alcançar. E isto ficou claro nos treinos com o Prof. Amândio Santos [fisiologista]. É verdade que também tenho tido alguns azares ao nível dos clubes. As pessoas não imaginam, mas essa instabilidade condiciona-nos emocionalmente [esteve no Benfica, Skoda, Maratona CP, Conforlimpa, The Cleans e representa actualmente o Sporting].

Como te estás a preparar para correr uma maratona em 2h10m?

Pode acontecer, mas agora não me estou a preparar para fazer essa marca. Estou focado em tirar mínimos para os Jogos Olímpicos. Ainda não saíram as marcas oficiais, mas normalmente são os mínimos do Campeonato do Mundo: 2h13m00s. Claro que não quero jogar no limite; vou tentar correr para 2h11m/2h12m. Já corri esse risco e o resultado não foi bom.

A nível financeiro, como tornas possível este sonho?

Às vezes é complicado. Chamam-nos atletas profissionais, mas nós somos amadores. Há quem ainda ache que ganhamos como um jogador de futebol; mal sabem que muitos atletas ganham menos do que o ordenado mínimo. O país está em crise e muitos clubes aproveitam-se disso. Eu não consigo fazer atletismo de alta competição e ganhar 500 euros a recibos verdes. Depois vivo do quê? Tenho gastos com a suplementação, as deslocações para treinos, as massagens… Por exemplo, no Sporting tenho direito a uma massagem por semana, mas quando estou a preparar uma maratona preciso de mais, e esse dinheiro sai do meu bolso. Também tenho patrocinadores, que são sobretudo amigos, que me apoiam muito.

A tua fonte de rendimentos é o Sporting?

No Sporting presto um serviço, passo recibos verdes àquela entidade – logo aí se vê como somos uma modalidade amadora. Para sobreviver tenho de participar em pequenas provas de estrada, que também oferecem cada vez menos… Um atleta com um ordenado mais baixo é obrigado a fazer duas ou três corridas por mês para conseguir juntar algum dinheiro e fazer um estágio para preparar um grande objectivo. Por causa dos Jogos, tive de reduzir a participação nestas provas, mas durante algum tempo fiz muitas. Houve quem me criticasse por estar a correr por 200 euros, mas eu também tenho contas para pagar.

Nos últimos quinze dias de Outubro vou fazer um estágio, que vai sair novamente do meu bolso; não é do bolso do Sporting ou da Federação. Aliás, eu sou atleta de alta competição, mas na Federação não tenho direito a quase nada. Fui a um Campeonato do Mundo [Moscovo] e a um Campeonato da Europa [Zurique] sem ter direito a um estágio… Assim, é normal que muitos atletas abdiquem desta preparação por causa das tais provas comerciais.

Com o desgaste nessas provas, é possível ambicionar um grande objectivo?

Tenho de ir buscar forças não sei onde. O meu sonho é estar nos Jogos, e estou a apostar tudo para concretizar esse objectivo. No dia 15 de Novembro vou tentar os mínimos  [na Maratona de Valência] e espero dar uma prenda a mim mesmo, já que faço anos no dia seguinte [risos]. Se conseguir, a partir de Janeiro tenho algum apoio da Federação. Acho que vai ser difícil entrar na PREPOL e ganhar a bolsa – cerca de 1 200 euros –, mas se conseguir os mínimos, habitualmente, a Federação dá uma ajuda de 500 euros por mês até aos Jogos. Noutros países as coisas não funcionam da mesma forma…

Como assim?

Por exemplo, na vizinha Espanha, se há atletas com qualidades e capacidades para tirar mínimos para os Jogos, essas pessoas recebem uma bolsa logo no início da época para fazer a preparação. Em Portugal, temos de conseguir os mínimos sozinhos, que é o mais difícil. E se as coisas correm menos bem ainda se fazem comentários e exigências? Não pode ser. Eu sou muito crítico, não ando aqui para agradar a ninguém… Estou no atletismo para trabalhar e fazer aquilo de que mais gosto. Claro que sem as provas de estrada e os patrocínios não era possível. Mesmo assim, não gosto de achar que estou a abusar das pessoas. Talvez seja um sintoma de alguma ingenuidade.

És uma pessoa ingénua?

Em algumas situações, sim. Noutras faço-me de ingénuo. No mundo da alta competição tem de ser assim. É uma forma de sabermos quem está verdadeiramente connosco.

Qual é o “plano B” caso não consigas os mínimos em Novembro?

Tenho de fazer outra maratona em Abril, mas já seria a última cartada. 15 de Maio é a data limite para os mínimos da maratona, até lá não deito a toalha para o chão. Por outro lado, raramente penso neste plano… O meu foco está em Novembro.

Sentes muita pressão?

Eu sempre lidei muito bem com a pressão. Vou para as provas muito descontraído e só me fecho para o mundo quando estou na linha de partida. Acho que é um trunfo em relação aos meus adversários, porque tenho consciência de que essa postura os deixa intimidados. Depois há os óculos… Permitem-me olhar para qualquer lado sem que ninguém perceba, estudar o adversário e até esconder o cansaço. Se calhar o segredo está nos óculos [risos].


 

O treino dos campeões

“Treino todos os dias, de manhã e à tarde, excepto no fim-de- -semana. No Sábado faço cerca de 20 quilómetros em séries e no Domingo tenho um treino longo, duas horas seguidas. Durante a semana costumo correr na frente ribeirinha da Póvoa de Santa Iria e na pista. Depois faço técnica de corrida duas vezes por semana, algum reforço muscular em casa (não gosto de ginásio) e massagem de recuperação. O descanso também é fundamental, a seguir ao almoço gosto de me deitar um pouco, 10/15 minutos. Também tenho cada vez mais cuidado com a suplementação.”