“Chegar ao topo é só um extra”

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Recorde de velocidade na subida do Kilimanjaro: feito. Bater o melhor tempo em Aconcágua: feito. Perder-se 24 horas na montanha e sobreviver: feito. O que o suíço-equatoriano Karl Egloff, de 34 anos, ainda não fez é o que nos leva a seguir os próximos episódios desta história. Isso e os recordes que tem tirado ao “mito” Kilian Jornet.

Rute Barbedo

5 895 metros é a distância que separa o cume do Kilimanjaro do nível do mar. Em Agosto, Karl Egloff subiu e desceu (num total de 42 km de distância e 4 300 metros de desnível positivo) o monstro africano em 6h42m24s, uma marca 32 minutos mais curta do que a do espanhol Kilian Jornet, anterior recordista. Em Fevereiro, o desportista, que vive no Equador, foi novamente mais rápido do que a sombra de Kilian, desta feita, nas subidas argentinas de Aconcágua (bateu o recorde mundial de subida e descida em 11h52m). Foram as primeiras duas etapas de uma façanha que se vai prolongar por mais cinco cumes. É que o atleta decidiu subir em corrida as montanhas mais altas dos sete continentes.

Não é que Karl ande a fazer frente a Kilian, mas os acasos põem-no nas montanhas certas à hora certa, por assim dizer. Aliás, o equatoriano estreou-se nestas andanças há pouco mais de meio ano, depois de um mundo feito de futebol, natação e ciclismo, e das vidas no Egipto, Venezuela, Turquia, Suíça e Equador. Mais alpinista do que runner, como se considera, Karl é a história de um miúdo com dificuldade em adormecer no ar rarefeito do Quito que tornou perfeita a sua relação com a montanha: pede licença para subir, mas depois ninguém o pára.

És um multidesportista que muito recentemente se envolveu com o trail running. Encontraste o teu grande desafio?

Aos 15 anos, o meu pai levou-me a subir com ele a minha primeira montanha de 5 000 metros – o emblemático glaciar de Cotopaxi, no Equador. Quando chegámos ao cume, disse-me assim: “Muito bem, filho. De hoje em diante, vais guiar comigo os nossos clientes [numa empresa de expedições turísticas em montanha] e continuar os meus passos quando eu deixar de poder subir.”

Mas o montanhismo não era a minha prioridade naquele tempo. O futebol estava sempre na minha cabeça, até porque, na América do Sul, não se trata de um desporto mas de uma religião. Quando mudei do futebol para o ciclismo de montanha foi porque me lesionei e o médico recomendou-me andar de bicicleta para recuperar. Desde então, nunca mais me afastei das montanhas. No ano passado, passei do ciclismo para a escalada de velocidade usando o trail running para melhorar a aclimatação. A escalada de velocidade sempre esteve na minha lista de prioridades, mas eu estava à espera do momento certo e agora ele chegou, numa altura em que o trail está a rebentar em todo o mundo.

A tua ligação à montanha é íntima e longa. Ainda te sentes pequeno nela?

Sempre me sentirei pequeno na montanha ou em qualquer outra paisagem. O que mantenho com as montanhas é uma conexão espiritual. Peço-lhes permissão antes de correr nelas, e o meu maior sonho é ter saúde para estar junto delas a minha vida inteira.

Porquê? O que te atrai na altitude?

Sinto-me livre como um pássaro, sozinho como o vento, pequeno como uma formiga. É a verdadeira conexão com a montanha que eu procuro. Chegar ao topo é só um extra.

Dizes que são muitas das expedições turísticas que conduzes a ditar os lugares onde corres e estabeleces os teus desafios. Mas há rumores que apontam a competição com Kilian Jornet como uma das tuas principais motivações. Onde está a verdade?

Foi em Fevereiro de 2014 que “googlei” o Kilian pela primeira vez. Estava sobretudo focado no ciclismo de montanha e no futebol, por isso, não sabia da existência do Kilian, até ter definido como objectivo bater o recorde de velocidade na subida ao Kilimanjaro.

A viagem à Tanzânia já estava reservada e o desafio planeado. Quando lá cheguei, durante o processo de aclimatização [os treinos in loco duraram três semanas], li o livro do Kilian, “Correr ou Morrer”. Desde aí, passei a sentir-me muito nervoso ao saber quem estava a desafiar. Acreditar em mim foi uma das coisas mais difíceis durante a preparação.

Quando bati o recorde do Kilian no Kilimanjaro, já tinha uma expedição planeada para Aconcágua, em Fevereiro, com a minha agência [cumbretours.com]. Nessa altura, ouvi dizer que o Kilian iria voar para a Argentina em Dezembro, por isso mudei as datas do bilhete por uns dias, para ter tempo de tentar o recorde mundial…

São incríveis as coincidências em relação aos recordes, mas não é nada de pessoal contra ele. Os nossos projectos parecem similares tendo em conta que ambos batemos recordes nas montanhas comercialmente mais conhecidas.

Como te preparas para subir uma montanha como o Kilimanjaro?

Muito treino em altitude, muitas noites em altitude, muitos treinos de intensidade, mas, sobretudo, é preciso amar a montanha e sentir-me livre.

O teu objectivo era dominar o monstro?

Era desafiar-me a mim próprio, nunca a montanha. O Kilimanjaro foi uma luta constante contra os meus limites, para me conhecer melhor, e o recorde foi um extra.

Dirias o mesmo sobre Aconcágua, onde mais uma vez bateste o recorde do Kilian?

Aconcágua foi perfeito. Treinámos muito duro; dormimos várias noites acima dos 4 000 metros de altitude – e até acima dos 5 500 metros; subimos o cume três vezes em oito dias, duas delas em velocidade. A montanha sempre nos permitiu fazer isso, a energia esteve muito positiva, por isso só tenho a agradecer a Aconcágua o facto de nos ter aberto as suas portas.

Para um ser humano “normal”, subir uma montanha destas em apenas algumas horas é algo que requer uma explicação física, científica, que nos faça acreditar. Há algo diferente no teu organismo que explique os resultados em altitude?

O meu pai é suíço, a minha mãe é meia suíça, meia equatoriana, e eu cresci no Quito, a 2 800 metros de altitude. Muito provavelmente, a combinação da genética europeia e o estilo de vida do meu pai na montanha ditaram a diferença. Depois, toda a minha vida fui muito desportivo. É apenas o meu estilo de vida [ler “Ficha técnica”].

Mas a resistência psicológica é treinada.

Muitos anos como guia turístico na montanha, como profissional do ciclismo e em alta competição tornam a tua mente muito resistente. Mas cada dia é diferente e, por vezes, mesmo estando perfeitamente preparado, podes sofrer muito.

Nessas alturas, em que a mente vacila, agarras-te a alguma crença ou filosofia?

Embora viva num país extremamente católico, não sou religioso. No entanto, sinto energias. É por isso que amo as montanhas e o campo. A minha filosofia é simples: sentir-me livre e amar o que faço.

Uma vez, em 2003, estive perdido durante 24 horas na montanha, sozinho, sem equipamento apropriado e sem comida. O tempo tinha mudado de repente, houve uma vaga de nevoeiro. Caminhei durante horas e horas fazendo muitas perguntas a mim mesmo, até que encontrei uma casa no meio da noite e, aí, finalmente, percebi onde estava. Noutra ocasião, vi pessoas morrerem na montanha… Tudo isto me ajudou a respeitar muito a montanha.

Quais são os teus grandes objectivos, por agora?

Tenho muitos planos; só tenho de organizá-los. Em primeiro lugar, vou participar em algumas corridas aqui no Equador e depois espero viajar até à Europa. Agora em Abril vou para o Nepal como guia e aproveito a oportunidade para me aclimatizar bem, com treino intenso. Em Maio, Junho e Julho vou treinar duramente e competir em vários quilómetros verticais e corridas de curta distância, com o intuito de me preparar para mais uma subida em velocidade, em Agosto, em França [Mont-Blanc]. Em 2016, virá mais uma etapa dos Sete Cumes, o Monte McKinley, no Alasca.

Queres deixar algum conselho aos trail runners?

Respeitem a montanha e amem a natureza, levem os treinos como uma parte do vosso estilo de vida e não como um “tem de ser” por recomendações de saúde. Sejam livres e amem a vossa vida.


 

Ficha técnica

  • 87 ml/kg/min de VO2 max
  • 193 ppm em esforço máximo e 38 em repouso
  • 9% de matéria gorda
  • 63 kg
  • 1,75 m de altura

Recordes mundiais de subida e descida

  • Cotopaxi Equador
  • Kilimanjaro Tanzânia
  • Aconcágua Argentina