“Considero-me um camaleão desportivo”

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Ouvimos falar dele porque venceu o circuito europeu Urban Trail™, porque terminou em segundo o Estrela Grande Trail®, porque dá que falar sempre que põe o pé na estrada. Aos 33 anos, Hélio Fumo é um atleta de heterónimos.

Texto: INÊS MELO

Fotografia: CELESTINO SANTOS

Cinco anos no Benfica, a passagem dos 800 metros para os 40 quilómetros (quando fizemos esta entrevista ainda não tinha corrido os 90 do Estrela Grande Trail®), a cidade, a montanha, o negócio de bolachas artesanais, a associação de voluntariado. Decidimos começar pelo fim: pelas palavras. Afinal, é ali que Hélio Fumo se encontra. “Ai, não acredito que estiveste a ler o blogue”, lança assim que ligamos o gravador.

“A cada dia que passa, sinto-me cada vez mais um lobo solitário, contudo nesta solidão não perco a alcateia de vista (…).” Queres comentar?

Deve ser um livro interessante [risos]. Com o boom do trail e da estrada, parece que as pessoas não se querem misturar. Há ideologias para o trail e ideologias para a estrada. Não faz sentido porque o princípio é o mesmo: correr. E como eu gosto dos dois mundos acabo por sentir-me algo sozinho.

 Quando começou a correr a tua escrita?

Escrevo há bastante tempo, no computador, em papéis, até nas receitas. Se não escrever, a corrida não acaba. É tanto stresse que precisas de te desfazer daquilo. Depois de Lyon [venceu os 35 km do Lyon Urban Trail™, em Abril] estive dois dias completamente perdido, até começar a escrever. Encontrei um meio de me livrar os meus anseios, porque as corridas acabam mas continuam dentro de nós.

 

 “Quando tive uma amante chamada tartan.”

 

Os primeiros amores nunca se esquecem? 

Nem pensar. Por muito que goste de outros territórios, a minha génese está na pista. Foi ali que vi o Rui Silva, o [Francis] Obikwelu, o [Kenenisa] Bekele. Mas comecei por brincadeira.

 Como foi essa história?

Como estudava perto de casa, era o primeiro a chegar e passava a tarde no sofá. Um dia, tinha uns 13 anos, um tio disse-me: “Tens duas opções, ou vais para a capoeira ou ajudas a tua avó na cozinha.” Sabia que um dos meus primos, que era sempre elogiado, costumava correr. “Às cinco vamos até Odivelas, treinamos e voltamos à hora de jantar.” Era perfeito.

As primeiras vezes era pôr a mochila às costas, treinar e vir embora. Depois aconteceu uma história engraçada. Eu vivia numa casa com umas sete pessoas, não havia tempo para banhos demorados. No Odivelas [Futebol Clube] havia um balneário… para tomar banho era espectacular. Um dia, o treinador dos jovens disse ao técnico dos seniores: “Temos de mandar embora este miúdo. É o último a chegar, perde com as raparigas e é sempre o último a sair do balneário.”

Mas não foste embora.

Não, o treinador dos seniores, que foi depois meu treinador, pediu-lhe para me deixar ficar. Eram outros tempos, ninguém cobrava nada a ninguém. Acho que esse foi um factor decisivo para eu continuar.

Quando é que ficou sério?

Quando se lembraram de me pagar o passe [risos]. No Odivelas nunca nos questionámos sobre dinheiros. Se te dão um sítio para tomares banho e ninguém cobra para te levar aos treinos ou às provas, agradeces sempre. Depois percebes que te dão valor por aquilo que fazes. E nesse momento acontece outra coisa: sou transferido para os seniores.

Nos treinos acabava sempre em último, mas o treinador continuava a pedir mais e mais. Na altura não percebi o trabalho que ele estava a fazer. Levava-me a casa, dava-me conversas de horas… Deve ter visto alguma coisa em mim. Talvez fosse entrega. Não me acho um atleta de raiz com talento, mas estou sempre disposto a dar mais um bocadinho além do que tenho, até cair para o lado. Isso aconteceu num treino. Nesse dia decidi que as coisas iam mudar. Acabei por ganhar a todos no meu clube.

Como foi a saída do Odivelas?

A questão financeira foi o que acabou por destruir o clube. Se a certa altura te dão uma coisa e tu fazes melhor, no próximo ano queres mais. E isso tem implicações na estrutura do clube. Na Grande Lisboa havia incubadoras brutais de atletas, todas fecharam. Os jovens chegam aos 18 anos, têm de tomar decisões e não podem continuar a correr pelo passe. Os clubes grandes absorvem os talentos, mas também é preciso estar preparado para essa estrutura. O Benfica é brutal para a prática da modalidade, mas ali já não somos apenas amigos. Antes de competir com outros clubes, competimos dentro do nosso. Ali já não és a vedeta.

Cinco anos no Benfica, estavas preparado?

Cheguei ao Benfica já sénior. Foi lá que passei a fase má, das lesões. Claro, as exigências são maiores e eu tinha de estar sempre “afinado”. Era capaz de acordar, ir treinar na pista com o [Manuel] Damião, alguém me dava boleia para o Campo Grande porque tinha a faculdade [fez o curso de Psicologia, está a terminar a tese de mestrado], chegava a casa, descansava, voltava a treinar e ainda tentava estudar durante a madrugada. Se calhar o erro foi querer logo tudo, devia ter feito uma opção.

Nessa altura, que distâncias fazias?

Só distâncias curtas: 800 e 1500 metros. Para mim não havia treinos a dobrar, isso era para os “brutos”. Só rolávamos uma vez, mas com muita intensidade. Era duro, mas acabava rápido, e isso agradava-me. Dás tudo, vomitas e vais para casa.

Como foi a adaptação às distâncias mais longas?

De certa forma, considero-me um camaleão desportivo. Quando saí do Benfica [em 2013], experimentei a estrada e achei que não era para mim. Todos faziam muitos quilómetros e eu não tinha possibilidade de aplicar a minha velocidade. Foi preciso ganhar bagagem. Comecei a fazer mais quilómetros, mais séries, mais volume, e fui participando em algumas provas.

E o trail urbano?

Em 2014, fundei uma associação de voluntariado com dois amigos. Precisávamos de fazer publicidade, então decidi participar numa prova em Lisboa [Meo Urban Trail™]. Só tinha de vestir a t-shirt a dizer “Vup4u” e ir com o grupo. Fui treinar de manhã e à tarde estava mega nervoso. É como ir para um teste sem ter estudado. Lembro-me que estava o Carlos Sá e outros atletas, todos se conheciam. A certa altura, alguém comenta para a pessoa ao lado: “Tu aguentas um bocado connosco e depois vais-te embora, não é?” Eu venho de um atletismo que fomenta o respeito pelo adversário. Senti-me provocado.

Tanto, que venceste a prova.

Sim, mas achei que tinha terminado ali. Depois, a convite da organização, fui à prova do Porto e à de Sintra, venci o circuito nacional e fui a Lyon [onde ganhou a prova dos 23 km, em 2015].

Entretanto, no início deste ano, começaste a correr em montanha.

Foi no Trail Vicentino. Nunca tinha feito 42 km, ainda tenho cada curva na cabeça. Ao contrário dos sítios onde costumo correr, o trail envolve muitas coisas que eu desconhecia, como a alimentação, a hidratação e a1 intensidade da corrida. Tens de perceber muito bem o que se passa à tua volta e eu ignorei isso completamente. O primeiro abastecimento não fiz porque não senti necessidade, no segundo tirei a roupa, a mochila, e entreguei tudo. Daí para a frente fui sem comer e sem beber. Cheguei aos 35 km e já não dava. O corpo dizia que não, mas a cabeça pedia para continuar. Nunca me senti perdido ou com medo. Só tinha uma certeza: era preciso transpor tudo o que aparecia. Fiquei em terceiro, mas aprendi uma lição.

Já falámos de pista, estrada, trail, urban trail. Como te preparas para os diferentes terrenos?

As pessoas do trail têm tendência para fazer só treinos de trail, que envolvem muito volume, trabalho de rampas… As pessoas da estrada têm tendência para fazer muita estrada e algumas coisas rápidas. Eu, que sou curioso e leio muito, às vezes chateio-me com os meus treinadores. Como dizia o Moniz Pereira, o treino já foi inventado. Agora, os treinadores têm a mania de adaptar ou encurtar caminho em termos de metodologia. Um atleta precisa de fazer volume, intensidades e treino específico. Eu tenho essa base e depois centro-me nos meus objectivos.

Qual é a tua rotina de treino?

O José Ramos, que é um dos maiores atletas nacionais, foi a primeira pessoa que me disse: “Se não acordares todos os dias e fizeres uma hora, e nessa hora encaixares 15 quilómetros, não te safas.” Levanto-me às seis, faço 20 quilómetros, vou trabalhar [numa loja de desporto], volto a treinar e, se tiver encomendas, fico a noite toda a fazer bolachas. Sou capaz de acabar uma semana com 180 ou 190 quilómetros.

Como é isso de ora teres os pés na lama, ora teres as mãos na massa?

Tinha de terminar uma disciplina do 12.º ano e estava com algum tempo. Um dia, fui com um colega para ele se inscrever num curso de barman. Por brincadeira, inscrevi-me noutro, de pastelaria. Passados uns dias enviaram-me uma carta. A minha avó nestas coisas não facilita: “Inscreveste-te, agora tens de ir.” Pensei: “Vou fazer os testes, chumbo e não entro.” Entrei e fiz o curso durante um ano. Entretanto, em 2015, criei com a Cristel [responsável pelo design e comunicação] o Love in The Bag, um negócio de bolachas artesanais.

Num mundo ideal, gostavas de juntar todas as tuas facetas em torno da corrida?

Adorava, mas acho que já estou a viver num mundo ideal.

 

VUP4U

O quê?

“A Vup4u é uma associação juvenil sem fins lucrativos que promove acções de voluntariado.”

Como?

“A associação está centrada no voluntariado desportivo com o objectivo de angariar dinheiro para estruturas. Basicamente, apresentamos propostas às organizações dos eventos para sermos voluntários.”

Porquê?

“Eu cresci num bairro e acho que o meu acaso se transformou numa felicidade. O desporto dá muitas oportunidades, não só para seres atleta, mas para conheceres outras pessoas e outros mundos. E sei que os miúdos dos bairros não têm essas oportunidades. Se conseguirmos organizar colónias de férias, criar bibliotecas ou fazer outras actividades poderá nascer alguma coisa.”

 

Maio 2016