“Continuo a viver o atletismo de forma intensa, mas penso se valerá a pena”

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João Campos já quis parar, mas a ambição que o mantém agarrado à pista é do tamanho do seu talento. Pelas suas mãos têm passado atletas que fizeram coisas extraordinárias no meio fundo e fundo portugueses, como Fernanda Ribeiro, Jéssica Augusto ou Rui Silva. Aos 59 anos, não tem clube. É um treinador freelancer e o único emblema que traz ao peito é o sonho de resgatar a essência do atletismo nacional.

Texto: Inês Melo

Fotos: Celestino Santos

Em Agosto realizou-se o Campeonato do Mundo de Atletismo, em Pequim. Como é estar do outro lado da televisão?

É muito diferente… Estive em cinco ou seis Campeonatos do Mundo e em seis Jogos Olímpicos. São momentos de grande stresse, porque além do nosso nervosismo ainda temos de diluir ao máximo o stresse dos atletas. Ao vivo o prazer é maior, mas também se trabalha muito. Em 2009 estive em Berlim com cinco atletas e foi terrível; durante uma semana praticamente não vi competições. Nestes campeonatos assisti a tudo, dias e noites seguidos. E quando a transmissão acabava às 14h00 ficava inquieto, sem saber o que fazer durante a tarde [risos].

Tem vontade de regressar a uma grande competição?

Quem viveu – como eu vivi – tantas competições de nível internacional, é claro que quer voltar. Muitas vezes digo que me sinto realizado por tudo aquilo que fiz no atletismo, mas logo a seguir penso: “Se eu posso repetir, por que não tentar?”

Está a trabalhar para isso?

Neste momento estou numa fase de introspecção. O atletismo não está num bom momento – não podemos negá-lo –, particularmente se compararmos com o boom dos anos 80, 90 e 2000. Continuo a viver o atletismo de forma intensa, mas sempre a pensar se vale a pena continuar.

Essa introspecção é fruto de cansaço ou desânimo?

Cansaço, sobretudo. Lembro-me que quando a Fernanda [Ribeiro] foi campeã olímpica, em 1996, eu disse: “Para mim, chegou. Consegui atingir o objectivo que pretendia na minha carreira, que era ter um atleta olímpico. Agora vou parar.” Depois houve alguém que me disse: “Epá, então e se conseguisses repetir isto mais tarde?” Vim para casa, ponderei se seria possível e a verdade é que estive perto, quando a Fernanda foi medalha de bronze, em Sidney. Neste momento não sou tão feliz no atletismo como já fui, mas também estou noutra fase.

Regressando a Pequim, o que achou dos Mundiais?

O Quénia foi fantástico, apresentou atletas de topo: barreiristas, velocistas, lançadores… Por outro lado, a Europa não esteve bem. Estou a pensar em Portugal, Espanha, França, Itália, que são países tradicionalmente muito bons no atletismo. A Europa precisa de fazer alterações profundas e, particularmente, de repensar uma questão que eu considero fundamental: as nacionalizações. De um ano para o outro, os atletas mudam de país, ganham medalhas por outras selecções… Começa a ser um abuso em certos países – como na Turquia, por exemplo. Essa não é a minha forma de entender o atletismo.

Como é que o atletismo deve ser vivido?

Temos de ser nós próprios, temos de ser Portugal. Esse espírito foi muito importante para o nosso país e estamos a perdê-lo. Talvez a solução seja criar um “novo” atletismo ou então um atletismo semelhante ao que já existiu. Temos de pensar quem eram as pessoas que geriam a modalidade, os treinadores, a forma como os clubes funcionavam… Isto era importante para resolver alguns problemas, sobretudo na área do meio fundo.

O que se perdeu no meio fundo português?

Por incrível que pareça, ninguém que esteja num Programa de Preparação Olímpica se pode queixar das condições. O que o atletismo perdeu foram os treinadores. Olhando para a fase áurea do meio fundo, neste momento, no activo estarei eu e a professora Sameiro Araújo. O professor Moniz Pereira já não pode estar, nem o professor Fonseca e Costa, nem o professor Bernardo Manuel… Hoje há muita formação, mas não há treinadores que tenham chegado onde estes chegaram. E não foi só porque tiveram bons atletas, foi porque eram profissionais da área e viviam o atletismo de forma intensíssima.

Os próprios clubes deixaram de ser centros de alto rendimento. Aliás, posso dizer que desde que a secção de Atletismo do Futebol Clube do Porto acabou [em 2010], eu sou um treinador freelancer. Com excepção de um novo projecto de formação, nunca mais tive um clube onde pudesse trabalhar e mostrar as minhas capacidades.

Faltam estruturas e pessoas dedicadas?

Falta sobretudo um conhecimento profundo sobre o atletismo. Posso dizer que, em Outubro, vou aos Estados Unidos participar numa formação. Faço isto há quatro anos, mas pergunto se valerá a pena. Tenho quase 60 anos e começo a pensar que, se calhar, não se justifica procurar mais conhecimento quando não tenho muitas oportunidades para pô-lo em prática.

É desmotivante?

Sim, mas eu continuo a ir [risos]. São formações muito específicas na área do alto rendimento, num sistema de retiro, durante quatro dias. Participam apenas treinadores e atletas olímpicos de várias modalidades.

O que fez com os seus atletas que não repetiria?

No início da minha carreira eu era muito pressionante. Sempre tracei metas para a minha vida e quando entrei no treino olhava para a vida dos atletas em função da minha. Queria chegar alto e sabia que precisava deles, mas a certa altura percebi que eles também precisavam de mim… Tinha de haver uma relação atleta-treinador que não fosse tão pressionante, por isso mudei a forma de estar e passei a moldar a minha personalidade a várias personalidades.

Havia um João para cada atleta?

Praticamente. E também houve alturas em que tive de pedir desculpa porque era preciso dedicar mais tempo a um determinado atleta. Foi o que aconteceu quando a Fernanda estava no auge da carreira.

Como é ter uma Fernanda Ribeiro nas mãos?

Não é fácil ter-se um talento nas mãos. O atleta mais fácil de conduzir é aquele que tem os objectivos mais curtos. A Fernanda era uma atleta com uma personalidade muito forte, que desde jovem dizia que queria ser campeã olímpica. Era como aqueles talentos que às vezes acordam bem-dispostos e fazem coisas fantásticas, mas no outro dia já não lhes apetece fazer nada. Acho que fui muito importante na carreira da Fernanda… E também é com ela que guardo as melhores memórias da minha carreira. Ganhar o ouro olímpico foi como chegar ao paraíso, é indescritível.

Hoje, em que pistas podemos encontrar o João?

No alto rendimento, trabalho há 20 anos com o Rui Pedro Silva – o melhor fundista português da actualidade –, colaboro com o Rui Silva e com a Mónica Silva [maratonista]. Tenho também outro grupo de atletas, num nível abaixo, com quem mantenho uma relação muito próxima. Depois há um projecto de regresso ao passado… [João não consegue esconder o sorriso]

Fale-nos sobre esse projecto.

Sou responsável técnico do Atlético Clube da Póvoa de Varzim, que fez agora três anos. Entrei no ano passado e identifico-me muito com o projecto, porque é dirigido por pessoas que têm uma perspectiva saudável sobre o atletismo, em que a educação e o apoio aos jovens fazem parte da essência do clube. É uma verdadeira academia de atletismo, muito virada para os jovens e com um grande envolvimento dos pais. Estou altamente motivado e é um projecto que me faz sorrir quando me levanto de manhã.

Como olha para o futuro do atletismo em Portugal?

Não o vejo assim tão cor-de-rosa… E é urgente analisar esta questão profundamente; não é só pensar que a Ana Cabecinha foi quarta nos Mundiais de Pequim ou que temos boas atletas nos 10 000 metros. Temos de pensar em quem temos a seguir a elas: ninguém. Não há atletas com a perspectiva do que foi uma Rosa Mota, depois uma Aurora Cunha, uma Conceição Ferreira, uma Manuela Machado, uma Albertina Dias, uma Fernanda Ribeiro, uma Dulce Félix, uma Jéssica Augusto, uma Sara Moreira… E agora estamos num impasse.

Isso significa que a curto prazo vamos ter um vazio no atletismo nacional?

Podemos estar sujeitos a esse tipo de situação, mas também estou expectante em relação às últimas declarações do presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, sobre a necessidade de debatermos o problema. Espero que essa intenção vá rapidamente para a frente, que se fale abertamente e que se convidem pessoas para partilhar conhecimentos e estratégias.

Às vezes não é preciso ter tudo para atingir os objectivos. Com isto quero dizer que há pessoas que têm tudo, mas que não chegam aos objectivos. Por exemplo, a Fernanda foi campeã europeia e campeã do mundo e só esteve na Preparação Olímpica na época de 1995/96. Neste momento, é preciso gerir melhor os meios que temos e isso deve ser objecto de conversas muito sérias e de escolhas muito criteriosas.

O Programa de Preparação Olímpica deve ser repensado?

A criação da Preparação Olímpica foi espectacular, tem imensas virtudes, mas também tem defeitos. E um dos defeitos é que cada atleta pode gerir individualmente aquilo que tem à sua disposição. Hoje, os atletas gastam o seu plafond como acham melhor: estagiam sozinhos, não partilham experiências e até podem gerir as competições onde vão participar. Mais uma vez, posso dizer que a Fernanda sempre fez todas as competições que a Federação e que o clube lhe pediram, mesmo em anos olímpicos.

O importante é saber gerir as competições de carácter individual, especialmente com o boom das corridas de estrada, em que há dezenas de provas por semana e prémios aliciantes. Muitos atletas, mesmo os que têm mais qualidade, como ganham pouco nos clubes (ou não ganham) acabam por ir à procura destas provas, o que é impensável. A gestão da carreira de um atleta é o marco mais importante para a sua evolução.


B.I.

  • João Campos nasceu em Pedorido, Castelo de Paiva, a 18 de Abril de 1956.
    Licenciado em Educação Física e Desporto, foi professor de Educação Física, director técnico regional da Associação de Atletismo do Porto, treinador nacional de meio fundo e fundo e técnico superior de desporto na Câmara Municipal da Maia.
    Orientou atletas como Fernanda Ribeiro, Jéssica Augusto, Rui Silva, Luís Novo, Elsa Amaral, Rui Pedro Silva, Luís Sá, Alberto Paulo, Vítor Almeida, António Pereira, Pedro Curvelo, José Regalo, entre outros.
    Ajudou a conquistar mais de 50 medalhas para o atletismo português.