Correr no cabelo do Trump!

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Fotos: Click Faial/Sandra Dart; Luciano Reis

 

Há muito tempo que pretendia visitar os Açores e o Azores Trail Run foi o pretexto que serviu que nem ginjas, ou gins tónicos – não fosse na Horta a sede desse pedaço de demo, chamado Peter Café –, para finalmente me deslocar ao Arquipélago. Tomada a decisão de ir, havia que escolher qual a distância a correr: 23 km, 48 km ou uns impensáveis 70 km. Aconselhado por quem conhece os percursos, optei por uma distância muito superior a qualquer outra que tivesse percorrido. Sim! Adivinharam, inscrevi-me nos 48 km!

Preparei-me afincadamente durante o mês anterior, tendo corrido cerca de 40 km (somados todos os treinos, obviamente). Afinal de contas, estavam inscritos atletas de inúmeros países e alguns até de fora da União Europeia, como os Ingleses! Cheguei à ilha do Faial dois dias antes da prova e a recepção não poderia ser melhor: um prato de maravilhosas lapas, antes do peixe espadarte, acompanhado por um belo verdelho da região. Assim dá gosto estagiar antes de uma prova!

O dia anterior ao Azores Trail Run decorreu sem nada de relevante que mereça ser contado. A esta distância, penso que tal, eventualmente, se deveu a ter permanecido no quarto do hotel (facto explicado pela dor de cabeça sentida, a qual é comum ser designada por ressaca).

O transporte para o local onde a prova se iniciou, foi realizado muito cedo (que falta essa horinha de sono me fez!) tendo chegado cerca de uma hora e meia antes de ser dada a partida. E aí o que encontrei? Gente sorridente e animada, cheia de vontade de conversar e a gastar a pele das pontas dos dedos com os milhares de fotos tiradas. As roupas combinavam as cores, quase todos usavam coletes mais caros do que o Cristiano Ronaldo ganha em 30 segundos e os relógios eram objecto de adoração. Entre o aliviar de líquidos orgânicos junto de uns quintais ali perto, a tentativa infrutífera de esconder os músculos abdominais demasiado desenvolvidos e a conversa de circunstância com quem estava ali por perto, o tempo foi passando.

O início da prova pareceu a abertura da época de saldos do Harrods, com gente a correr por todo o lado e a sorrir para as máquinas fotográficas, câmaras e drones. A um ritmo que considerei estratégico, na parte inicial, acompanhei os bravos que fechavam o pelotão. Não tinha, contudo, assim tanto sono para seguir a passo e fui galgando ferozmente posições (duas pelo menos).

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No meio de uma paisagem deslumbrante e com condições meteorológicas excepcionais para a salutar prática desportiva, senti que tinha tomado a decisão certa ao me inscrever. Encontrei parceiros de aventura e juntos percorremos alcatrão e terra em longas subidas, animados por estarmos perto da zona considerada mais bonita da prova, a Caldeira Central da Ilha do Faial.

 

Os primeiros pingos de chuva foram acompanhados pela expressão tão típica da região: “Açores, as quatro estações num dia”. Nada nos preparou para o que estava para vir! À chuva abundante, juntou-se o vento forte que nos fazia correr aos ziguezagues. O massivo nevoeiro surgiu, impedindo qualquer visão da cratera do vulcão.

 

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Comecei a ver os primeiros atletas a correr embrulhados na manta térmica. Após percorrer alguns km naquelas condições, que me parecerem demorar uma eternidade, ouvi alguém afirmar alegremente que faltava pouco para a zona dos “tufos” e que ali já seria possível correr. Pois bem, como explicar a sensação de correr em cima do cabelo do Donald Trump? Aquelas pequenas elevações de terra e erva desfaziam-se a cada passada.

 

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A primeira cãibra surgiu nessa zona quando o pé direito decidiu surfar um tufo que se mergulhou até à lama. Algumas expressões depois, cuja autoria jamais reconhecerei, lá consegui voltar ao trilho, tendo conseguido, após várias quedas, chegar à zona das “levadas”. O tempo nessa altura melhorou e aqui o inocente pensou que o resto da prova seria realizado de uma forma agradável.

 

Pois não poderia estar mais errado. Após os saltos constantes na zona das “levadas”, a lama apresentou-se em toda a sua plenitude, levando a que cada passo fosse um arriscado número de equilibrismo. Convém aqui referir que o arame farpado que delimitava alguns terenos foi agarrado por vários concorrentes, a fim de evitar quedas. Bom, eles lá saberão quais as suas prioridades!

 

Nessa altura já só pensava na barraca de cerveja e nos “chicharrinhos” que me esperavam no final da prova. No penúltimo abastecimento, fui, juntamente com outros enlameados até aos olhos que comigo partilharam as agruras dos últimos km, brindado com gritos de apoio e até animadas cantigas das voluntárias que ali se encontravam. Mas o que esta gente pensa para estar aqui horas ao frio? Será que os chicharrinhos são assim tão bons?!?!?!?

 

Percorri os 2000 metros que faltavam numa velocidade considerável, ou será mais correcto afirmar, com as forças que me restavam. Quando vi a meta, junto ao vulcão dos Capelinhos, as lágrimas surgiram (raio da pedra que se me enfiou entre os dedos do bendito pé direito, provocando uma dor insuportável).

 

Algumas fotos e cumprimentos depois, finalmente lá consegui saborear o delicioso prémio. Foi no coxear até ao autocarro que me levou ao hotel que ouvi a expressão, vinda de alguém que assistia à chegada: “Estes gajos são loucos”. Não podia estar mais de acordo.

 

Boas corridas e não se esqueçam de consultar o boletim meteorológico antes de saírem de casa.