Crónica – Luis Lopes

Luís Lopes

    Jornalista e comentador de atletismo
#23 O NACIONAL DE ESTRADA, O MEIO FUNDO E A SUA PERCEPÇÃO MEDIÁTICA
A propósito do recente Campeonato Nacional de Estrada, que de novo teve lugar nos arredores e no Estádio Nacional, na Cruz Quebrada, e da sua percepção mediática e, de certo, pelo público, veio-me logo à lembrança um ou outro e-mail que o antigo excelente atleta, João Junqueira, me enviou acerca dos meus comentários sobre os eventos de atletismo que envolvem fundistas portugueses. Neles dizia, resumindo, que o meio fundo português estava hoje doente e que eu contemporizava bastante com o facto, não o expondo de uma forma totalmente crua na sua dimensão. E é rigorosamente verdade, diga-se. Não é fácil um comentador, “oral ou escrito”, dizer taxativamente que os actuais fundistas lusos carecem quase totalmente da qualidade dos de há trinta ou vinte anos, em especial no sector masculino. Tal asserção ajudaria a afundar o barco, talvez, e poderia passar por um vexame face aos visados, hipoteticamente.

O meio fundo português

Dizia-me o João Junqueira no último e-mail sobre o assunto que “actualmente no futebol trabalha-se como no atletismo há 30 anos, no atletismo trabalha-se como no futebol há trinta anos”. Talvez seja verdade, e será trágico. Pelo que muitas vezes vi, no meu tempo de praticante, o que mesmo as melhores equipas de futebol faziam em matéria de trabalho, de aquecimento e condicionamento, inclusive muscular, era algo ridículo, e no meio fundo e fundo trabalhava-se a sério. Também havia então grandes treinadores no atletismo, e agora rareiam, o que Junqueira também aponta.

Esta pode não ser a explicação total, mas os números estão aí. Por exemplo, e pegando apenas numa prova para ilustração, a dos 10 000 metros masculinos, há 30 anos, em 1987, 14 atletas correram abaixo dos 29 minutos e um total de 27 fê-lo sob os 30 minutos (note-se que o recorde mundial feminino já vai em 29m17s45’, desde os Jogos do Rio, para boa medida do que estamos a falar). Dez anos volvidos, em 1997, eram 15 os portugueses a correr em menos de 29 minutos, para um total de 23 sob os 30 minutos. Em 2007 esse número passou a ser, respectivamente, de 1 e de 8. E agora, em 2017, última temporada completada, de um, na mesma, e de 5.

Isto é válido, com mais ou menos números a apoiar, para todas as disciplinas do meio fundo e fundo, e mesmo para as femininas, apesar de uma geração de prata (a de ouro foi há 20/25 anos) ainda estar activa, mas no seu ciclo final, composta por Ana Dulce Félix, Jéssica Augusto, Sara Moreira, Marisa Barros, e outras. Ficam como herdeiras destas Catarina Ribeiro e Salomé Rocha.

Haverá muitas explicações para esta situação, que se arrasta há muito, e uma das mais nomeadas em surdina é a do doping. Mas basta olhar para os tempos recentes para se perceber que isso nunca explica cabalmente a situação. Se houve doping escondido no passado, também os tempos recentes têm sido algo pródigos na matéria. É claro que esta não é uma situação só portuguesa e, de facto, alastrou praticamente a toda a Europa. Muitas das causas do declínio são comuns, só que cá tardaram (como quase tudo) a chegar.

O Nacional de Estrada

Quando olhamos para os Nacionais de Estrada, o que vemos? Com muitas ausências de primeiros planos, em ambos os sexos, a prova feminina teve duas corridas abissalmente diferentes, tendo a da frente apenas duas contendoras, e entre elas vindo a criar-se uma enorme surpresa, com Inês Monteiro, aos 37 anos – e sem ser profissional a tempo inteiro – a vencer Sara Moreira, pela margem gigante de 30 segundos. O ano de 2005 fora o marco da última vitória da beirã no certame, e daí para cá esteve várias vezes para terminar a carreira.

Nos homens houve alguma animação adicional, e ganhou um raro fundista prometedor em Portugal, Samuel Barata, numa frente de um pelotão algo envelhecido também, com o segundo lugar a caber a Rui Pedro Silva, aos 36 anos de idade. Rui Pinto, que havia ganho reiteradamente a Barata no crosse, foi terceiro, e fica o mistério de saber da sua não progressão.

Quanto a Samuel Barata, é um atleta prometedor, repete-se, e no ano passado correu – além da meia maratona em menos de 64 minutos – os 10 000 metros em 28m40s19’. Essa foi a melhor marca na distância em Portugal de há vários anos a esta parte, mas para termos uma medida mais ou menos exacta da valia dessa marca, diremos que em 2017 lhe deu o 215.º lugar mundial do ano, e que passou a ser o 49.º melhor português de sempre na distância.

Agora a percepção mediática do evento nunca se matizou com preocupações, por mínimas que fossem, para situar os Nacionais de Estrada num contexto mais alargado. Tudo ficou perspectivado num embate Benfica-Sporting, em função da razia que os dois maiores clubes de Lisboa fazem em relação a tudo quanto mexe, e que possa ter alguma valia para conquistar títulos colectivos em estrada e em crosse. Ora dado que, a exemplo de outras situações (e não só no atletismo), a formação benfiquista, ao constatar que não poderia ganhar, pura e simplesmente não compareceu, ou teve participação simbólica – ao caso, Neide Dias, oitava feminina – ficamos esclarecidos quanto às “grandes razões” da promoção do evento, obliterando tudo o que de facto se poderia considerar como essencial.

#22 UM FIM DE ANO INQUIETANTE NO MUNDO DO ATLETISMO
Este final de 2017 está a ser um tanto ou quanto inquietante no mundo do atletismo – aliás, em que tipo de actividade humana o não estará a ser, e em especial na geopolítica? Mas ficando-nos pelo desporto, e depois da famigerada polémica em torno dos recordes ou não-recordes ter arrefecido – tacticamente? – um pouco, levanta a Federação Internacional de Associações de Atletismo (FIAA) novas questões, com os alegados estudos para a implementação de uma classificação dos atletas à maneira do ténis e do golfe, designando um número 1, um número 2, etc., a nível mundial, e tendo essa classificação influência na maneira como os ditos atletas se podem qualificar para as maiores competições a nível global. Disse em comunicado a FIAA que pretende tornar o atletismo “mais compreensível” do grande público em todas as suas dimensões, e assim quer continuar a “reformar” o desporto...

Logo se levantam algumas questões. A primeira é a de aceitar um sistema adoptado por desportos menores, sem real expressão, como o ténis e o golfe (este último desafia mesmo o conceito de desporto), e que em nada podem servir de comparação para com o atletismo, porque este é um desporto multidisciplinar e no ténis, que se saiba, apenas se dá com uma raquete na bola, todos fazem o mesmo. No golfe idem, muda-se só de raquete para taco. E porque o atletismo é um desporto gigante a nível mundial, praticado no conjunto de todas as disciplinas por milhões de atletas.

É de relembrar que este “sistema”, ou algo que para ele aponte, já foi utilizado há década e meia, e ninguém lhe ligou peva. Em toda a parte ninguém queria saber se era o El Guerrouj ou o Bubka o suposto número 1 mundial do atletismo. O esquema morreu muito antes de atingir a puberdade. Com base no carácter próprio do atletismo, fica a dúvida acerca da bondade dos pressupostos deste projecto, porque, de uma presidência federativa que quer a todo o custo mostrar cara nova, mascarar as rugas do passado, reciclando a esmo, não é crível que surja algo positivo. Num desporto com disciplinas tão diversas, é muito difícil dizer se o Eliud Kipchoge, o grande maratonista, é melhor ou pior do que o Mutaz Barshim, do salto em altura, ou o Johannes Vetter, do lançamento do dardo. Cada um deles será o melhor na sua disciplina. Ponto.

O que fica no ar é a tentativa de afunilamento do atletismo, procurando possivelmente puxar para cima algumas disciplinas, ditas mais mediáticas, em detrimento de outras. Já é alvo de muitas críticas, por exemplo, o facto de o lançamento do martelo não fazer parte dos programas oficiais da Liga Diamante, e também o facto de para os Campeonatos do Mundo, tanto em pista coberta como ao ar livre, os mínimos globais de participação fixados pela FIAA serem ridiculamente mais difíceis de obter nos saltos e nos lançamentos do que na corrida. Claro que a FIAA não vai querer implementar um ranking em que o atleta “número 1” provenha de uma das tais provas ditas menos mediáticas...

Pretende-se também, aparentemente, apresentar de maneira diferente as listas mundiais. Será que pela atribuição de um quociente (por exemplo), 20 metros no lançamento do peso valem mais se forem feitos num meeting americano do que no meeting de Santo António? O conceito é escandaloso em si, a não ser que se use apenas na qualificação para as grandes competições, mas isso já o fazem as mais avançadas federações nacionais – ou seja, e apenas como exemplo, saltar 2,28 metros em altura num pequeno meeting pode ter de ser refeito noutra ocasião para qualificar o atleta. E assim sucessivamente. Vamos esperar pelo que aí vem, mas o ambiente de confusão que está instalado no atletismo a todos os níveis – nacionais, continentais e globais – não anuncia nada de bom.

Campeã olímpica com doping, Jéssica muito fraca

Também os recentes desenvolvimentos no mundo da maratona tornam este fim de ano atlético menos agradável. A nível internacional fica como ponto baixíssimo o anúncio de suspensão preventiva por doping, graças a um controle negativo levado a cabo em Abril, da campeã olímpica, a queniana Jemima Sumgong. O castigo não lhe retira o ouro olímpico, mas constitui decerto uma mancha indelével na carreira da atleta, que já foi face de campanha anti-doping, e lança sempre suspeitas sobre a bondade do seu triunfo no Rio.

Depois veio a prestação muito fraca de Jéssica Augusto na Maratona de Nova Iorque. Descolando cedo, mesmo a um ritmo longe de ser elevado, Jéssica acabaria por se quedar no 18.º lugar, a 14 minutos do seu máximo pessoal. Fica a ideia de que a difícil temporada de 2016, com a concomitante desistência nos Jogos Olímpicos, não está ainda ultrapassada para ela, aos 36 anos.