DEAN KARNAZES: “A minha vida é como uma versão real do Forrest Gump”

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Dean Karnazes veio a Portugal para apresentar o livro A Lenda da Maratona (edição da edlp), a aventura grega em que reencarna Fidípides, o criador da corrida mais épica da História. Mas a lenda é ele, Dean, made in USA, com todo aquele ar de rapaz da praia, dourado pelo sol, mas também com 54 anos de rugas uzbeques e cicatrizes da Tanzânia. Voltado para o mar do Guincho, aviva a sua Califórnia, talvez como em 2005, ano em que chegou a adormecer enquanto corria 560 quilómetros. Mister California Dream, que não sonha com a fama, sentou-se para falar com a RUNning.

 

T: Rute Barbedo  F: Celestino Santos

 

Como funciona o homem que podia correr para sempre imóvel numa cadeira? Este não é o atleta, mas o escritor, pensamos. Acontece que Dean Karnazes escreve em movimento. O corpo já não é mistério para ninguém: a genética privou-o da produção de ácido láctico, oferecendo-lhe o presente de não saber o que é a fadiga. Mas ninguém sabe ao certo como comanda ele esta cabeça grande. Sim, uma cabeça desproporcional ao corpo, mas também às proezas que o puseram nas bocas do mundo – desde as 50 maratonas em 50 dias aos 560 quilómetros em 80 horas, sem parar. Agora diz que vai correr maratonas em todos os países do mundo. Dean é maluco. Não admira. Começou a correr bêbedo aos 30 anos. Hoje é embaixador dos Estados Unidos, porque acredita que a corrida é um livro para a paz. Foi considerado pela revista Time uma das 100 personalidades mais influentes do mundo.

 Ainda fazes o trabalho de escritório de pé, em frente à secretaria?

[risos] Bom, na verdade, costumo responder a entrevistas de pé, enquanto caminho. Para mim é estranho estar assim sentado.

 Não é assim que escreves?

A minha melhor escrita sai quando estou a correr. Tenho um gravador para onde vou ditando os meus pensamentos e é assim que funciona. O único tempo em que sou obrigado a estar sentado é no avião. Uso-o para passar as gravações para o computador.

 Precisas de movimento para pensar melhor?

Acredito nisso. Aristóteles – aprendi na investigação para o meu livro – costumava escrever enquanto caminhava por Atenas. Era um peripatético, aquele que vagueia e escreve. Mesmo Nietzsche diz que apenas os pensamentos que surgem durante o movimento têm valor. Quem corre tem pensamentos profundos.

 Por que quiseste viver e escrever A Lenda da Maratona?

Eu queria, sobretudo, desafiar-me. No fundo, este é um livro de História. Nos Estados Unidos, esteve no primeiro lugar das vendas na categoria de História Grega e, atenção, eu sou um atleta. Mas tive o cuidado de pensar em como contar a história original da maratona, de forma que ela faça qualquer runner orgulhoso de o ser e não de forma académica. É uma história fascinante em que uma ultramaratona [de cerca de 240 quilómetros, de Atenas a Esparta] salva a democracia. Tantas ideias importantes do pensamento contemporâneo existem hoje porque um homem correu aqueles quilómetros… No livro, acabo por envolver as minhas histórias com a forma como este homem se terá sentido há 2500 anos.

 E descobriste, como Fidípides se terá sentido?

Viajei até à Grécia e percorri os mesmos trilhos do que ele, comi alimentos como figos, azeitonas, peru curado e apenas bebi água. Fazer uma ultramaratona nestas condições foi bastante difícil, com as lutas que ele terá travado.

 Que tipo de lutas? Físicas? Psicológicas?

Acredito que todas as lutas são do foro mental. A Sparthatlon, a corrida disputada por Fidípides, tem momentos de corte muito agressivos. E não estamos em nenhuma prova nem vamos ganhar nenhuma medalha. Ele estava a correr para salvar a família e o país, porque se falhasse tudo seria destruído pelos persas. É claro que essa foi a parte que não consegui sentir. Como pode um homem imaginar isso?

 Foste com uma bagagem política e histórica para esta corrida?

Não. Foi ao contrário: a corrida é que me levou a descobrir a política da Antiguidade. Há 2500 anos, Platão previa que a desigualdade social iria arruinar a República. E agora, pelo menos nos Estados Unidos, discutimos as diferenças entre ricos e pobres e como poderemos resolver isso.

 Como transformaste a corrida em projectos sociais?

Sou atleta-embaixador dos Estados Unidos e o Governo tem-me enviado para projectos a que chamam de “diplomacia suave”. Ou seja, em vez de mandarem militares para fazerem explodir pessoas, enviam um atleta, porque a sua corrida é tão poderosa que consegue unir as pessoas, independentemente da cor, da língua que falam ou do Deus que veneram. Quando correm juntas são todas iguais. Há tantas coisas que nos separam que a corrida torna-se num lugar onde podemos partilhar as semelhanças, além-fronteiras e fora do tempo.

 Mas também pode servir para conhecer as diferenças…

Bastante. Já estive nos diferentes continentes pelo menos duas vezes, já conheci e corri em mais de 100 países, provavelmente.

 Também percorreste os 50 Estados do teu país, na famosa saga de 50 maratonas em 50 dias. Ficaste a conhecê-lo melhor?

Foram 50 dias em que conheci muitas diferenças culturais, geográficas, gastronómicas, de pensamento, de ritmo de vida…

 Que efeito tiveram essas 50 maratonas em ti?

Acho que as nossas perspectivas mudam sempre que vivemos uma nova experiência. Estou constantemente a evoluir como ser humano, pelo simples facto de estar a ver coisas novas, a conhecer pessoas. Acho que a receita para a felicidade é não permanecer no mesmo lugar demasiado tempo, porque depois tudo se torna familiar e confortável.

 Já aprendeste alguma coisa em Portugal?

Fui a uma escola americana em Sintra, esta manhã. Os desafios que os miúdos enfrentam aqui são os mesmos do que em todo o mundo. Estive no Verão passado como diplomata no Cazaquistão e também lá os pais estão preocupados com o tempo que os filhos passam agarrados aos ecrãs. O trânsito é um problema global, em Sintra ou em Bisqueque [no Quirguistão], embora as pessoas, nos seus lugares, os sintam como únicos.

 Sendo tu o inverso do sedentário, esta sociedade dos ecrãs preocupa-te?

Não podemos travar o progresso, por isso, estou mais focado em saber como podemos navegar através de tudo isto para continuarmos humanos. Mais do que pensar nas tecnologias, é uma questão de saber como integrá-las de forma saudável na vida. Elas não vão desaparecer, por isso, podemos tornar-nos mais ubíquos com elas e usá-las de forma positiva.

 Como fazes isso com os teus filhos?

A minha mulher ficou furiosa comigo quando decidi dar smartphones aos meus filhos, há dez anos. Mas, porque viajo tanto, eles permitiram que estivéssemos ligados. Na altura, fiz uma prova no deserto do Sara. Tirei uma selfie em frente às pirâmides [de Gizé, no Egipto] e mandei aos meus filhos. Ficaram eufóricos. “Pai, isso é incrível! Vamos mostrar à turma toda!” Portanto, a tecnologia também pode unir-nos, em vez de nos separar.

Dizes que viajas muito. Sentes que possa ser demasiado?

Sim… Tenho dificuldade em dizer “não” às pessoas. Por exemplo, agora estou a viajar há duas semanas, e o meu relógio biológico diz-me que é uma da manhã [a entrevista aconteceu às 10 horas]. Estou a fazer um grande esforço para ter uma conversa que pareça coerente [sorri]. Ontem não me apetecia sair da cama às sete da manhã, o meu desejo era dormir o dia inteiro, mas quando fui correr com outras pessoas, voltei à vida.

Então o Dean Karnazes também se sente cansado.

Sinto… Tenho estado a correr maratonas todos os fins-de-semana, em diferentes continentes. Voo para os Estados Unidos daqui a uns dias, corro 50 milhas, depois vou para a Califórnia e corro uma maratona na manhã seguinte. É uma espécie de missão que tenho na vida. Pode inspirar ou capacitar outras pessoas. “Uau! Este tipo tem uma vida de aventura! Eu também podia viver assim…”

Além da corrida, és diplomata, escreves livros, assinas uma coluna regular numa revista… É importante ter uma acção para lá da pista e dos trilhos?

Acho que tudo isto ajudou a prolongar e a equilibrar a minha carreira de atleta. Se eu apenas corresse, ela seria muito curta.

 Quando conheces alguém e essa pessoa te pergunta o que fazes na vida, o que respondes?

Respondo que sou um corredor de longas distâncias. Normalmente querem saber quão longa… “Bom, corro 160 quilómetros sem parar.” Quando digo isto, a outra pessoa fica a olhar e não compreende como não durmo durante à noite, como consigo fazer isso. É uma ideia que fascina as pessoas. Comigo foi igual. Da primeira vez que ouvi uma pessoa dizer que tinha corrido 100 milhas, achei que não era possível. Quebrava todas as minhas barreiras mentais.

 É difícil ser o único no mundo com este historial de longas distâncias?

O que os ultramaratonistas fazem é tão único, tão longe do resto da existência quotidiana, que, por natureza, somos de alguma forma diferentes.

 Quais são as próximas metas?

Uma vez que já cumpri o objectivo de correr 50 maratonas nos 50 estados dos Estados Unidos, agora quero correr uma maratona em cada país do mundo, durante um ano.

 É um projecto que já idealizas há algum tempo…

Sim, tenho trabalhado nele nos últimos seis anos. É multi-fascinante. É uma aventura pensar em conhecer todos os países, os povos, tudo. Por outro lado, vai inspirar os outros a serem mais activos e a serem mais do que corredores. E vai ser uma forma de unir o mundo, porque, mais uma vez, vai mostrar o que temos em comum.

 Quando começas?

[risos] As pessoas perguntam-me se alguma vez falho e, nisto, estou a falhar há seis anos. Era suposto começar em Janeiro, mas, agora, com a nova administração [Trump], todos os meus contactos no Governo desapareceram. Portanto, vou ter de reintroduzir esta ideia.

 O que esperas desse encontro?

Não sei. O que ouvimos é que o Presidente Trump é muito a favor da força militar, enquanto Barack Obama era muito mais voltado para a diplomacia.

 Como é ser um cidadão americano cujos valores assentam na paz e na diplomacia e ter um Presidente como Donald Trump?

Estás a colocar uma pergunta a um cidadão americano e não ao atleta. Como é que os portugueses vêem os americanos?

A pergunta é para o cidadão americano, porque és um embaixador enviado pelo Governo.

Acho que há muitos preconceitos relativamente à América nas diferentes culturas. No Verão passado, estava a correr no Uzbequistão, na fronteira com o Afeganistão, e perguntaram-me: “Não tens medo de viver nos Estados Unidos? Nas notícias ouvimos sobre a polícia a matar negros e o contrário… Os Estados Unidos devem ser um país muito perigoso…” E eu estava era aterrorizado por correr ali, porque há terroristas por todo lado! [risos]

Este projecto de correr por todo o mundo parece-se com o fechar de um ciclo. 

[pausa] Para ser franco, não consigo ver nada maior do que isso. Mas quando me propus a correr 50 maratonas em 50 estados também não via nada além disso…

 Sentes-te a envelhecer, como todas as pessoas?

Claro. Já não sou tão rápido. No entanto, sou muito saudável. E sempre tive o compromisso de sustentar a minha carreira e de provar às pessoas que é possível ser-se atleta toda a vida. Portanto, agora essa é a minha responsabilidade, porque tenho as pessoas a olhar para mim. Tenho de reinventar-me, saber como vou fazer a transição para um atleta mais velho e como vou pagar as minhas contas [risos]! Já corri 300 maratonas… Agora, na mais recente, estava rodeado de pessoas que me conheciam. “Dean, posso correr contigo?” Chego a casa e tenho centenas de fotos que me tiram nas corridas, em qualquer parte do mundo. A minha vida é como uma versão real do Forrest Gump, é estranha, e não faço ideia de como cheguei a isto.

 

Para lá da corrida

Escreveu quatro livros sobre corrida, acompanhados pela componente de investigação: A Lenda da Maratona, O Homem da Ultramaratona, 50-50 – Quem Corre Por Gosto e Run!.

Em 1995, fundou a Energy Well Natural Foods, em São Francisco, para fomentar o consumo de alimentos saudáveis. Em 2011, estreou-se no comércio de gelado de iogurte, com a U-Top It.

 

“Escrito na pedra”

Karnazes não sabia o que se passava com o seu corpo infatigável até à noite em que fez 30 anos, na altura em que era um executivo bem-sucedido em São Francisco. “Estava num bar, a fazer o que fazemos nos aniversários: beber com amigos. Sentia-me miserável e tive uma epifania de mesa de bar. Bêbedo, corri 48 quilómetros a meio da noite”, contou no programa da BBC “Incredible Medicine: Dr Weston’s Casebook”. Terá sido a primeira vez em que se sentiu realmente vivo.

“Se pegares num atleta de alto nível e o treinares por um longo período, o sistema cardiovascular vai melhorar até um determinado nível e é difícil passar disso, porque está condicionado pelo coração e pelas artérias. Por isso, se continuarmos a treinar essa pessoa, não vamos melhorar a sua capacidade aeróbia mas o desempenho vai continuar a melhorar, porque o limiar de lactato não é limitado pelo sistema cardiovascular, mas pela qualidade dos músculos”, disse em declarações ao The Guardian.