Dong Liu, ex-campeã do mundo de 1500 metros

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“As mulheres apercebem-se de tudo”

Foi atleta e treinadora da Federação Chinesa de Atletismo, mas em 2007 embarcou para Espanha para continuar a missão – já com 15 anos – da corrida no feminino. Do doloroso “Exército de Ma” para as baladas de Madrid, a história de Dong Liu conta-se em três actos.

 

T: Rute Barbedo     F: Celestino Santos

 

Encontrámos Dong Liu no Hotel Amazónia. A atleta chinesa chega esbaforida, acompanhada pelo marido, Luis Miguel Landa. “Mais de uma hora e meia no autocarro!”, reclama no seu espanhol com toque mandarim. Tinham ido conhecer Fátima – “os chineses são muito religiosos”, justificou Luis. Dong insiste na presença do marido durante a entrevista. “És o meu tradutor!” Conheceram-se em 1993, sem saber falar a mesma língua; em 2006, o treinador pediu-a em casamento. Desde então, aprendem quase tudo um com o outro. “Trabalhamos juntos 24 horas por dia.” Dong conta que fugiu da China por amor. Depois de um ano e meio sob as ordens do treinador-ditador Ma Junren, não poderia ter encontrado melhor razão.

 

O amor

Uma treinadora desempenha melhor o seu papel com as mulheres?

Na minha vida de atleta, tive dois treinadores: uma mulher e um homem. Os homens não reparam tanto nos detalhes, faz parte. As mulheres, pelo contrário, apercebem-se de tudo, não só do treino. Mas ser treinadora de fundo não é fácil. Estamos sujeitas ao frio, ao calor, à chuva, ao esforço físico… E em alguns casos, a mulher também tem de trabalhar em casa, cuidar dos filhos.

 

Ainda assim, foi a profissão que escolheste.

Gosto do meu trabalho. Fazia os 4/5 km de casa para a escola sempre a correr [Dong nasceu na província de Lianoning (onde se viria a formar o denominado “Exército de Ma”), junto ao mar Bohai. O pai era pescador]. Depois de ser atleta – terminei aos 31 anos [há 12 anos] – passei naturalmente para treinadora.

 

Nem todos os bons atletas dão bons treinadores. É uma questão de talento ou de trabalho?

Temos de aprender muito enquanto somos atletas e saber que a competição também se faz com a cabeça. Comecei por trabalhar na minha província, no Norte na China, e de 2005 a 2007 estive na Federação. Nessa altura, o Luis [actual marido] telefonava-me todos os dias a perguntar se eu queria ir para Espanha viver com ele. Um dia, decidi que sim.

 

Foi difícil sair da China?

Ainda hoje a federação chinesa não me perdoa. Tenho muita pena. Quando me cruzo com técnicos ou com o presidente em competições internacionais, apenas nos saudamos, nada mais. Pensam que lhes fiz mal, mas saí por amor [ri timidamente].

 

Não houve outras razões?

Foi exclusivamente por amor. Já eram muitos anos a planear isto, desde 1993 [Luis e Dong conheceram- -se em Estugarda, no Mundial de Atletismo em que a atleta se sagrou campeã dos 1500 metros].

 

Passaram 14 anos até ires definitivamente para Madrid. Porquê tanto tempo?

No início não havia nada, apenas nos cruzámos. Depois fomo-nos encontrando. É uma história longa… [Luis intervém: “No dia 12 do 12 de 2006 perguntei-lhe: queres ficar em Espanha?” Dong corrige: “Queres casar comigo?”. E começam, ao mesmo tempo, a entoar a marcha nupcial).]

 

O exército

Como foi a adaptação ao sistema espanhol?

Tanto na China como em Espanha, há atletas boas e trabalhadoras, mas há uma coisa muito diferente: se as espanholas não alcançam marcas importantes, também não conseguem dinheiro para continuar a treinar, o que me parece muito bem. Na China, se és profissional, tens um salário garantido todos os meses. Depois, aqui as pessoas são atletas e têm outro emprego. São médicos, trabalham numa loja, há de tudo.

 

O que aprendeste com quem te treinou?

Aprendi muitas coisas com este senhor, o meu marido. Mas a minha ex-treinadora, Song Yuan Hong, tratava–me melhor a mim do que à sua filha, apesar de ser muito exigente.

 

O oposto de Ma Junren, com quem estiveste antes.

Treinei com ele cerca de um ano e meio. Corria muitos quilómetros todos os dias, mas estava bem com isso. Para mim, treina-se para ter bons resultados; ali eu aceito sofrer. Mas fora do treino, não… Éramos como escravas. Ele batia-nos, vivíamos num quarto de dez metros quadrados, estávamos umas em cima das outras. Não podíamos ver uma revista, uma novela, ouvir música, aprender inglês, não podíamos falar com rapazes nem ter o cabelo comprido. Mas eu tinha!

 

Eras a rebelde.

Sou uma mulher. E o que eu tinha era de treinar bem. Enfim, ele até era bom treinador, mas não era boa pessoa…

 

Como assim “bom treinador”?

Quando se tem campeãs na equipa e se chega a recordes do mundo…

 

Mas não respeitava os direitos humanos.

Não havia direitos. Houve muitas coisas, um montão de coisas… [faz um gesto de quem não quer continuar a falar do assunto]

(Luis) Dava-me muita pena olhar para aquele cenário: elas correndo quilómetros e ele sentado a fumar.

 

Mais do que isso, ele era um ditador.

[acenam com a cabeça em concordância]

 

Quantos quilómetros corrias por dia?

Eu sou meio-fundista e todos os dias corria entre 32 e 35 quilómetros, um exagero.

 

E houve ou não doping? No ano passado, foi divulgada uma carta em que dez atletas de Ma assumiam essa acusação.

Não posso dizer muito sobre isso, porque nessa época [a carta é datada de 1995] eu já não estava com elas. O que a carta denuncia eu desconheço. Não sei se é verdade ou se as pessoas querem fazer algo contra as atletas chinesas ou o treinador.

 

Mas a tua assinatura está na carta.

Nem sequer vi a carta. [Luis acrescenta: “Várias assinaturas foram falsificadas; falta saber quem fez isso.”] E nunca tomei nada. É preciso ver como vivia aquele momento. As pessoas estavam agoniadas e queriam sair do grupo, só que isso era difícil.

 

Tu saíste.

Eu estava a lutar para os resultados do campeonato do mundo de 1993. Assim que cheguei ao que queria, disse-lhe: “não quero mais treinar consigo”. Não podia aguentar mais, senão morria, suicidava-me.

 

Como aconteceu a Li Ying, tua colega.

Sim…

 

Não gostarias que se fizesse justiça em relação às práticas de Ma?

Não estamos a falar da Europa.

 

As mulheres

(Luis) Ela sempre me disse que o atletismo no feminino era diferente, e tem razão. Não se pode treinar uma mulher como se fosse um homem mais fraco. Por isso fizemos este livro [Entrenamiento de Fondo para Mujeres, publicado em 2014].

 

Quais são as principais diferenças?

(Dong) Treino mulheres há mais ou menos 15 anos e gosto muito de trabalhar com elas, embora seja mais complicado. Não basta estar na pista a controlar o tempo, também tenho de conhecer cada uma das minhas atletas. Se se passa algo, temos de conversar.

 

 

Por que é mais complicado com as mulheres?

Há sempre mais detalhes e sensibilidades. Quando se chateiam com o namorado, por exemplo, ficam de mau humor, desanimadas, e isso nota-se na pista. Ou quando estão menstruadas, isso também afecta o rendimento. Depois há outra coisa: num grupo de mulheres, elas acabam por falar sempre umas das outras. Faz parte.

 

A ditadura de Ma

Nos anos 90, Ma Junren ficou conhecido pelas marcas mundiais que alcançou com as suas atletas: em 1993, por exemplo, Dong Liu sagrou-se campeã dos 1500 metros, Qu Yunxia bateu o recorde mundial da mesma distância nos Jogos Nacionais da China, e Wang Junxia bateu três recordes em três corridas (nos 3000 e 10 000 metros). Mas fora dos pódios, a curiosidade pelo personagem aumentava devido aos “métodos de treino” aplicados ao “Exército de Ma”, como ficou conhecido. O treinador-fumador obrigava as atletas a correr mais de 30 quilómetros diariamente, nutria-as com misturas exóticas como sopa de sangue de tartaruga e, alegadamente, exercia violência física e psicológica sobre elas, privava-as de contacto com homens e de exibirem a sua feminilidade.

Em Fevereiro do ano passado, o jornalista Zhao Yu divulgou uma carta (datada de 1995) assinada por dez atletas de Ma, em que o treinador chinês é acusado de submetê-las ao consumo de substâncias ilícitas. A situação, que pode colocar em cheque resultados de várias atletas, está a ser investigada pela Federação Internacional das Associações de Atletismo.