Dos 800 metros aos 100 quilómetros em 10 meses

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O silêncio de um ultra-runner não é mais do que uma luta constante entre o desejo de concluir algo que não sabemos ao certo como fazer e a batalha contra a mente que se tenta iludir com as dores que o corpo suporta. Tens o corpo todo a contrair, olhas para as horas que levas e pensas que é uma ilusão, desesperas ao pensar que muito pela frente falta, sentes que não estás sozinho, o que te torna egoísta com o desejo de vencer – sim o egoísmo de querer ser o primeiro a cortar a meta é maior do que tudo, critica-me se assim for – quero ser o primeiro a cruzar a meta, nem que para isso tenha de abdicar de pequenas partes do meu corpo, suar como nunca o fiz, chorar por não sentir os pés ao descer, desesperar por ver a inclinação que se segue à frente, ter medo de ficar sem água até ao próximo abastecimento, ter medo do aconchego que encontro nos abastecimentos. E aparece então aquele pequeno sentimento de perda de tudo, que nos acompanha pelo trilho, quando entramos num vazio de pensamentos, já tudo foi equacionado, em tudo pensamos, só nos sobra o medo de quando irá aparecer aquela dor, aquela cãibra que vai determinar o resto do meu percurso, aquele esgotamento próprio de quem está disposto a largar tudo, numa sentença por ele determinada, és tu e o trilho, és tu e os teus demónios, és tu e a falta de consciência que determinam este tipo de desafios.

 

“Pain is the purifier. Love pain. Enbrace pain.” Percy Cerutty

 

Do dia em que termino o Trail da Serra da Freita ao dia em que tento expor em palavras sobre o que aconteceu nos últimos dez meses, a única coisa que me ocorre é “loucura”. Mal sentia o corpo das andanças do Estrela Grande Trail, mas o ser humano tem coisas que eu não compreendo. Quem é que se propõe a correr 90 quilómetros, com uma mochila às costas, correndo risco de vida, atravessando encostas, subindo e descendo serras, abordando locais com nomes que assustam qualquer bravo? Acredito que quem o faça, carrega em si uma dose de loucura e uma paixão imensa pela vida!

Entre o descanso de duas ultras quase seguidas começou a preparação para o que viria a ser uma experiência única. Nos estágios acabei por conhecer parte dos homens e das mulheres que, na luta das suas vidas, têm tempo para pensar em sonhos. Eles não são feitos de uma massa diferente dos restantes, carregam em si a mesma consistência feita de um desejo grande de superação, dispostos a tudo um pouco, por um autoflagelo que os levara a um caminho de alegria própria.

 

Os estágios são locais de partilha, onde de forma simples e divertida acordamos, seguimos para o nosso primeiro reconhecimento, seriam trinta quilómetros: os primeiros dois são feitos de forma tímida – como um casal de apaixonados quando saem pela primeira vez, sem saber até onde podem levar a sua brincadeira –, os trilhos foram feitos com aquela agilidade do costume, as subidas eram feitas de forma ordeira, como formigas, estudava cada recanto da serra, cada pedra, cada ramo, imaginava-me no dia “D” a percorrer aqueles trilhos, estradões e single tracks, o melhor que o corpo o permitisse.

Já em Braga para o que se antevia ser um momento alto para o trail nacional, o Bom Jesus era um palco único. Nos hotéis os idiomas eram em demasia para uma comunicação com todos, o restaurante era um encontro de nações onde podíamos partilhar com os que só tínhamos oportunidade de seguir nos media pelos seus resultados gigantes. Alguém passa por mim e diz: “A namorada do Kilian anda por aí… “ Não pela beleza, mas sim que na ilusão de um olhar meu pudesse ver o próprio ao lado dela. Quando o dialeto mais próximo do nosso soava, olhava para a mesa e via com olhos incrédulos a imagem que se estendia, era ele, Luís Alberto, com uma serenidade típica destas “bestas”, comia o que todos os outros comiam, ria com os seus companheiros, circulava a sua postura altiva entre nós sem perder o sono com o que se passa em seu redor. Voltei para o quarto com esta imagem na cabeça, o meu colega de quarto pergunta-me se podia desligar a luz, são vinte e uma horas, falta menos do que nada para a partida.

 

Eu não dormi, simplesmente deixei parte de mim a deambular pela serra. Seguimos para o que seria uma refeição confusa. Na sala do pequeno-almoço reinava uma calma confusa, podia ver no olhar de todos aquela pequena chama de desejo, aquele nervosismo, aquele bom dia pouco audível. À medida que o elevador chegava ao meu andar, tentava recapitular tudo o que foi feito e como deveria ser feito hoje. Fomos os primeiros a chegar à linha de partida, faltavam quarenta minutos. Podia ver caras amigas que queriam partilhar a caminhada, o sonho, e deixavam no cruzar de olhos aquele sentimento de “está tudo bem, estaremos aqui”.

 

No cruzar da madrugada, poucas são as figuras que consigo distinguir, procuro entre as várias bandeiras que percorrem este comboio humano e nada vejo, há muito que cada um de nós segue o seu rumo, deixo de pensar na envolvente, sei que há uns minutos saímos da vila, e a humidade sufoca-me, penso em líquidos, olho para o alto e a única coisa que percebo é o conjunto de luzes que mais parece um comboio luxuoso com tantas luzes, vejo ao longe outra vila, vejo uma dezena de apoiantes que gritam aos seus heróis:

– “Vamos Portugal!” Mas vai já ecoando como algo longínquo.

A ideia ainda não faz sentido. Num salto encontro-me entre trilhos fechados, seguimos numa linha única, eles são ágeis e o meu receio é uma raiz, um tronco, um pé que não pisa terreno, as descidas vertiginosas guiadas por uma única luz. À minha volta não vislumbro mais nada, uma escuridão imensa, não sei o que acontece na frente do comboio luxuoso, mais uma aldeia, mais um eco, ao fundo “vai Portugal”.

 

Amanheceu e passou tudo como um pequeno sonho, desta vez os gritos são mais fortes, posso ouvir mais alto o eco que fui ouvindo pela madrugada nas pequenas vilas e aldeias, no alto dos penhascos, nos lugares mais impróprios, mas apropriados, desta vez posso distinguir uma cara familiar aqui e ali, rapidamente me despeço e abraço a serra, desta feita, sinto o cheiro, distingo o castanho da terra que contrasta com o verdejante do arvoredo que me torna pequeno e, ao mesmo tempo, me acompanha como se fosse a guarda de honra composta pelos soldadinhos de chumbo. Já subo há algum tempo, uma curva à esquerda, uma pequena recta íngreme, outra curva à direita. À medida que subo, a vegetação vai mudando de forma – sinal de que começo a ascender ao ponto mais alto –, sinto os primeiros raios de sol sobre a pele, penso comigo, olho para trás e da vila sobram as vozes, penso comigo, sozinho outra vez! O silêncio é quebrado por uma imagem colossal, como se alguém descontente com o facto de incomodarmos a natureza com os nossos passos apressados, tivesse decidido barrar-nos a única passagem que existia para o outro lado da vila com o maior pedregulho. E esse alguém retirou todos os trilhos, meteu todo o tipo de combinações bizarras no mesmo percurso, e como se não bastasse sentou-se no seu alto e foi observando todos os atrevidos que, curvados, numa fila indiana seguiam enquanto o sol desprendia os seus raios. Como castigo maior, cada vez que ao fundo olhava com esperança de ver o outro lado da vila, o pedregulho de forma mágica crescia e dobrava-me. Quando pensas que tudo tem o seu fim, começa o desespero, quando tentas tirar uma lição de cada quilómetro, quando o sentimento é sentires-te único com as paisagens, com a oportunidade, com o calor humano, quando os quilómetros te transformam numa panóplia de sentimentos controversos, quando a montanha te faz duvidar de todas as tuas capacidades, quando ela grita bem alto ao ponto de cada músculo teu se rasgar, quando a natureza e todos os seus elementos te tornam pequeno, e te chegam a confessar pequenas histórias dos homens que como tu foram arrogantes, e te vais cruzando com eles como que cuspidos pela montanha, com algum bom senso, algumas horas a caminhar, acabas por vislumbrar num musgo ou mesmo no correr do riacho, que ela não está contra ti, ela quer que sejas ela.

 

Ao fundo posso ouvir gritos, aplausos, vozes que conheço, foi tudo substituído pelo betão, luzes artificiais, cores que confundem tudo, olho para o lado e lembro que a serra ali está e sinto uma saudade imensa.

Hélio Fumo,

Atletu