“É com as dificuldades que nos tornamos campeões”

MárioLeal
O coração que sustenta a máquina
4 December, 2015
crunchcrossprocess
Espirulina: Uma espiral de proteína, vitaminas e minerais
7 December, 2015
Manuela-Machado-020

“Gotemburgo, 17h40, uma jovem mulher trigueira de baixa estatura, mas de porte elegante e adelgaçado empunha uma bandeira de Portugal em pleno Estádio Ullevi.” Assim arranca “Manuela Machado, 20 anos de Campeã”, o livro publicado em Agosto para que não se esqueçam as 2h25m39s que tornaram a atleta de Cardielos a melhor do mundo na maratona. Aos 53 anos, o “porte elegante” mantém-se, não corresse Manuela todos os dias com crianças de 5 anos ou sozinha pelo verde Minho.

Rute Barbedo / Paulo Jorge Magalhães

Manuela Machado sempre treinou em terra batida para dar cartas na estrada. Não deixou Viana do Castelo por nenhuma medalha, nem mesmo Cardielos, a aldeia onde nasceu, há 53 anos. “Quem gosta vem, quem ama fica”, lê-se à entrada da cidade que também sempre levou a maratonista aos ombros. Passaram 20 anos sobre o título de campeã do mundo, conquistado na Suécia, e a autarquia celebrou o tempo com um livro escrito por Luís Lopes – “o homem que sabe tudo sobre atletismo” – e uma renovada pista de tartan no Estádio Municipal Manuela Machado, onde conversámos com a atleta. Entre as histórias com “a Sameirinho”, a treinadora do SC Braga, e as bolas de Berlim que nunca comeu – mesmo em terras da família Natário – Manuela fundou um clube – Os Ciclones –, há 18 anos, e é, desde 2013, o principal rosto do projecto “Atletismo nas Escolas”, uma iniciativa da autarquia vianense, onde trabalha há 12 anos.

O trabalho na Câmara de Viana do Castelo veio a seguir a ter abandonado a competição. Foi uma maneira de ficar ligada ao atletismo?

Eu decidi abandonar a alta competição nunca abandonando o atletismo. Não consigo tirá-lo da minha vida, nem viver sem fazer actividade física. Queria ser mãe e achei que era a altura ideal para isso, o que não veio a acontecer, e estive três anos sem fazer nada. Ao fim desse tempo, embora fizesse coisas com o meu clube [Os Ciclones], queria algo mais. Vi que a Câmara tinha aberto um concurso para o Desporto e concorri como qualquer cidadão.

O que começou por fazer?

Estive nas piscinas, nos pavilhões, mas sempre ligada às escolas, embora não ao atletismo. O atletismo foi difícil de instalar nas escolas. E nenhuma outra câmara tem um projecto como este, que funciona no horário escolar normal. Todo os miúdos saem da sala de aula e vêm fazer 45 minutos de atletismo, natação ou patinagem. No ano passado, tínhamos entre 700 e 800 crianças, dos 5 aos 9 anos; agora temos 1 400.

Como foi a receptividade das escolas?

Não foi fácil. Alguns professores diziam que não teriam tempo para dar a matéria e nós dizíamos que se calhar estavam errados e talvez fossem muitas horas de matéria dentro de uma sala de aulas. Se tivessem 45 minutos de actividade física, teriam outra motivação nas aulas. Depois de várias conversas, os professores aceitaram e tem sido um sucesso.

Para uma criança, treinar com uma campeã é uma motivação extra?

[Sorri] Tenho outros colegas que vão às escolas e mesmo fazendo eles um trabalho muito bom, acho que quando vou eu as crianças gostam muito mais.

Como aprendeu a desempenhar o papel de treinadora?

Sempre gostei de crianças e da parte da formação. Elas têm cada vez menos regras e disciplina e é muito complicado… Quando chego a este estádio, digo: “Meninos, ali fora eu sou a Manuela Machado, mas aqui já não. Sou uma pessoa que está cá para vos ensinar e para vos dizer que precisamos de fazer exercício físico.” Não quero que sejam campeões, mas sim mulheres e homens com formação ligada à prática desportiva.

Não está a incentivá-los à competição mas acha que com este projecto Viana vai ter futuros atletas?

Temos muitos atletas com grandes qualidades em juniores, mas depois vêm as universidades e outros caminhos, que eu acho muito importantes. Desporto, sim, mas primeiro a escola. É o que lhes digo. Os pais querem que eles sejam campeões, mas calma… Eu estive dez anos a trabalhar para ser campeã e sempre fui um segundo plano. Ao fim desses dez anos é que a minha treinadora achou que eu tinha qualidades para trabalhar mais e para ser uma campeã. É essa mensagem de calma  que eu passo aos miúdos. Têm tempo. Mas é claro que Portugal está a precisar de campeões.

Sobretudo ao nível do meio fundo e fundo.

Sim. Temos a Sara [Moreira], a Dulce [Félix], a Jéssica [Augusto]… Mas no meu tempo íamos para uma competição, éramos um grupo de dez e não sabíamos quem ia ganhar, porque éramos muito equivalentes. Agora não. Portanto, há que ensinar que é preciso trabalhar muito e, a partir dos 16 anos, trabalhá-los para seguirem a competição.

Defende-se muito que a falta de campeões está relacionada com a escassez de apoios. Mas na sua altura não era ainda mais difícil?

Tudo mudou. Eles não têm culpa de terem mais condições. Na nossa altura não havia, mas eu não me queixo disso. Sou de Viana e saía muitas vezes às seis da manhã para apanhar o autocarro e o comboio para chegar às nove horas ao treino [em Braga]. E chegava a casa às duas da tarde [sendo que tinha um emprego a tempo completo para conciliar com a actividade desportiva]. Acho que é com as dificuldades que aprendemos e que nos tornamos campeões. Podes ter condições e qualidades, mas se não as trabalhares, nunca serás campeão.

Mas o atletismo está pior?

A nível de atletas está, mas não é por falta de condições.

É porquê?

É uma modalidade individual, que requer muito trabalho, muitas regras, muita disciplina e se calhar os mais jovens não estão motivados para isso, porque têm outras coisas, como computadores e telemóveis sofisticados, que nós, na altura, não tínhamos. Depois, o atletismo é duro. Para seres campeão tens de treinar uns 200 km por semana.

Mas se o atletismo está pior em termos de campeões, foi das modalidades que mais subiu ao nível de participantes. Quando comecei no atletismo aqui em Viana quase não havia mulheres a correr. Neste momento, há centenas, e aquelas que caminhavam estão a correr.

O que é que a motivava a acordar às seis da manhã e a correr 200 km todas as semanas?

Primeiro, era o gosto pela modalidade e, depois, o incentivo da família. Foi através do meu irmão [que também corre] que fui para o atletismo. Além disso, tinha na treinadora uma amiga, uma mãe, uma pessoa da família, que sempre me dizia: “Além de teres qualidades, tu vais ser uma campeã.” E isso motivou-me a continuar.

Como foi treinar com a Sameiro Araújo?

Eu comecei no atletismo sem ser com a Sameiro. Estive dois anos em Viana [no clube Montinho Meadela], mesmo aqui nesta aldeia [Meadela] onde está o Estádio [Municipal Manuela Machado]. Depois, fui correr uma São Silvestre a Braga e ganhei às melhores atletas do SC Braga. Ninguém sabia quem eu era e, no dia seguinte, a Sameiro apareceu aqui em Viana a convidar-me para ir para o clube. Durante dez anos, fui um segundo plano, porque o Braga tinha grandes atletas [como Albertina Machado ou Conceição Ferreira].

Ser a terceira ou quarta alternativa num clube nunca a desmotivou?

Não, nunca. A Sameiro sempre foi uma pessoa que me disse: “Não tenhas pressa. Tu, na hora certa, vais ser…” E eu vi nela uma pessoa que acreditava em mim, e sempre acreditei nela. Valeu a pena.

A maior recompensa chegou em 1995, com a medalha de ouro em Gotemburgo?

Fui pela primeira vez representar a Selecção em 1991 a um Campeonato do Mundo, a Tóquio. Foi a primeira vez que corri com a Rosa Mota e a Aurora Cunha numa maratona. Para mim, foi uma motivação enorme, mas sentia-me tão pequenina na partida – recordo-me como se fosse hoje – ao lado de duas grandes campeãs, dois nomes do atletismo nacional, e eu era a terceira para fazer equipa com elas. À meia maratona, apanhei a Aurora Cunha; aos 27 km, apanhei a Rosa Mota; cheguei ao grupo da frente e depois fui sétima [Aurora Cunha e Rosa Mota desistiram]. Foi aí que começou… No ano seguinte, em 92, fiz os mínimos para os Jogos Olímpicos de Barcelona, onde fui sétima novamente. Então a Sameiro disse-me: “Manela, tens de deixar de trabalhar, porque tens de apostar no atletismo.” Eu tive muito medo, porque estava há dez anos na mesma empresa [de agroturismo, onde fazia “recepção, casamentos, bar, tudo”] e tinha o meu ordenado, enquanto o atletismo era incerto e não dava dinheiro. Muitas vezes ganhava frigoríficos, ferros [de engomar], jogos de louça, o que me encantava bastante… [sorri]

Na Suécia ganhou um Mercedes.

Pois ganhei [mas reza a história que continuou a conduzir o seu Opel Corsa]… Em 92 lá deixei de trabalhar; em 93 fui vice-campeã do mundo, em Estugarda; em 94 fui campeã da Europa, em Helsínquia; em 95 fui campeã do mundo [em Gotemburgo]; e em 96 fui sétima… Tenho cinco medalhas e é engraçado que na minha carreira, de 1991 a 2000, ou sou sétima ou ganho medalha.

Publica-se agora o livro que relembra a medalha de ouro nos Campeonatos do Mundo de Gotemburgo. Parece-lhe que passaram 20 anos?

Parece que foi há pouco tempo, mas tenho muitas saudades. Nos primeiros anos, quando decidi abandonar a competição, foi difícil. Nem conseguia ver os campeonatos na televisão, por causa das saudades e da vontade de competir; ainda me sentia apta para lá estar. As viagens, os convites, as novas amizades, tudo parou.

Quem foram os seus grandes amigos no atletismo?  

Eu dava-me bem com todos. A Aurora Cunha, a Fernanda Ribeiro, a Carla Sacramento… Mas, no geral, as minhas grandes amigas, nos momentos bons e nos difíceis, estavam, sem dúvida, no SC Braga, embora tenha passado um ano pelo Sporting CP.

Mas a experiência não foi tão positiva quanto no Braga…

Fui vice-campeã do mundo no Sporting, mas pensei [pausa no discurso] que iria ser mais bem recebida. Talvez fosse demasiado bem acompanhada em Braga… E acabei por regressar.

Qual é o momento da sua carreira que recorda com mais orgulho?

1997, Campeonato do Mundo de Atenas. Não ganhei, fui segunda. Os meses anteriores foram atribulados porque tive um acidente de automóvel que me debilitou. Estive em risco de não ir, mas sempre fui muito forte e mesmo com dores treinei e trabalhei, embora a Sameiro e os médicos da Federação não quisessem que eu fosse. Corri no dia dos meus anos e a minha mãe diz que cortei a meta à hora que em nasci.

Uma medalha de prata consegue superar uma de ouro…

Consegue, sem dúvida.