“É impossível não sofrer numa ultra maratona”

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Carla André tem a natureza bucólica da Serra de Sintra entranhada no coração. Foi ali que esta gerente bancária, 37 anos, convenceu o corpo de que era possível correr 250 km no deserto do Sara, durante seis dias. Às costas levou uma mochila onde cabiam todos os sonhos do mundo. Dormiu debaixo das estrelas, comeu como os astronautas, rezou quando ficou sem música e chorou de emoção.

Texto: Inês Melo    

Fotos: Luciano Reis

Antes de partires para a Marathon des Sables (MDS), publicaste no Facebook uma carta de despedida à Serra de Sintra. Porque é que este sítio é especial?

Porque foi onde tudo começou. A minha grande ligação à corrida surgiu com a descoberta da montanha. Há uma magia no ambiente, no nevoeiro, nas cores, nas pedras. A corrida é uma paixão e a minha cumplicidade com a Serra de Sintra é como um namoro.

Estás a passar os quilómetros da MDS para as páginas de um diário. Que título teria o livro sobre a tua aventura no deserto?

“O caminho que segui até ao meu sonho.” No início do treino, quando recebi a mochila para a MDS [em Novembro], comecei a escrever sobre as dificuldades, as dúvidas e os receios. Há pouco tempo reli tudo e foi uma sensação espectacular. Tenho passagens como: “Espero que daqui a três meses haja um motivo para tudo o que tenho escrito.” Tinha muito medo de não ter forças para acabar. Medo de dormir ao relento. Medo do frio. Medo dos escorpiões [risos].

Qual é o aspecto mais desafiante desta prova?

Não termos mais nada connosco além de uma mochila.

A auto-suficiência também dá medo?

Não, é um desafio. Nunca tive medo no deserto. Antes da partida tive alguns receios, porque ia para o desconhecido. Mesmo assim, estava muito confiante. Genuinamente confiante, mas ciente de que as coisas podiam não correr bem. Até tenho vergonha de dizer que só tive duas bolhas pequeninas nos pés.

Por ser uma corrida com um formato tão especial, a preparação foi muito diferente de outras ultramaratonas?

Foi completamente diferente. Passei a correr com uma mochila de 8, 9, 10 kg às costas e a vestir muita roupa durante os treinos para simular o calor. Imagino que tenha sido divertido para as pessoas que, a certa altura, viram uma maluca a andar de um lado para o outro na praia de Carcavelos. Num desses treinos, cheguei a correr cinco horas num espaço de 700 metros. Custou-me mais do que a maior parte das etapas na MDS. Psicologicamente foi aterrador.

O que levaste na mochila? Existiam luxos?

Confesso: levei uma amostra de gel de banho e uma esponjinha [gargalhada]. Além do material obrigatório (como o saco-cama, a panela ou a bomba aspiradora de veneno), tinha comida liofilizada, uma camisola e uns collants que acabei por deitar fora para libertar peso na mochila. Apesar do apoio médico, também levei um kit para tratar os pés: luvas, anti-séptico, agulha, linha. Foi um preciosismo, mas era a primeira coisa que fazia quando chegava ao acampamento. As bolhas são a maior causa de desistência nesta prova.

Tiveste de improvisar porque alguma coisa não correu como planeado?

O único percalço foi na etapa maior (91,7 km), em que fiz os últimos seis quilómetros com muita fome. Tinha barras de comida para o dia seguinte, mas decidi não arriscar. Tirando isso, a etapa correu muito bem. Não sei como.  A 20 km da meta fiquei sem os dois MP3 – logo a música, que é tão importante para mim. Só resisti porque fui a rezar o terço até ao final da etapa.

É a pior memória que guardas?

Não, é a melhor. Senti que tinha todas as forças comigo. Foi a minha etapa preferida, fiz todo o percurso a correr. A verdade é que não guardo memórias más. Na minha cabeça estava sempre à espera de pior. Chorei muitas vezes, mas de agradecimento.

E como foi partilhar esta aventura com o Carlos Sá?

Foi espectacular. Deixou-me tão à vontade que tive a sensação de estar ali com um irmão mais velho. Era ele que me ajudava a arrumar a tenda, a tirar as pedras do sítio onde ia dormir, aquecia-me a água… É uma pessoa muito humilde, um verdadeiro atleta. Mostrou-o quando decidiu não desistir numa etapa que lhe correu menos bem. E melhor, foi ele que me fez ganhar a etapa solidária.

Como assim?

Na última etapa, como não há competição, muita gente faz o percurso a caminhar. Mas eu estava bem e só queria correr. Entretanto, o Carlos, que tinha ficado para trás, conseguiu alcançar-me e foi comigo até ao final. Estava tão embalada que não me recordo sequer de ter passado por outras mulheres. Lembro-me só de pegar na mão de uma criança que estava nas dunas, dar-lhe a bandeira de Portugal e pedir-lhe para correr connosco. Quando cheguei ouvi: “The first woman!” Não queria acreditar.

Antes de ires para o deserto disseste várias vezes que estavas preparada para o sofrimento. Já estiveste em alguma situação em que a dor fosse insuportável?

Sim, nas 100 milhas do “Oh Meu Deus”, na Serra da Estrela [2014]. Foi um sofrimento desesperante – 40 horas a correr, duas noites sem dormir e dores insuportáveis –, mas nunca me passou pela cabeça desistir. Já tinha desistido uma vez, numa prova de 100 quilómetros, e é das maiores aprendizagens que uma pessoa pode ter. Desisti por causa de uma bolha, foi uma questão de “cabeça”.

Sempre foste uma pessoa resiliente ou ganhaste essa força depois do acidente?

O acidente de automóvel, em 2005, foi uma página na minha vida. Fracturei uma vértebra e estive duas semanas internada sem saber como seria o meu futuro. Estava totalmente dependente de outras pessoas. Foi um sofrimento incomparável. Depois disso, passei a ver a vida de outra forma.

Começaste a correr poucos anos depois.

Sim, quando deixei de ter dores. O clique deu-se numa viagem ao México, em que me senti muito bem a caminhar. Depois, experimentei correr cinco minutos e nunca mais parei. A corrida também me ajudou a ser resiliente. Quem faz ultramaratonas tem de ter essa característica, porque é impossível não sofrer numa ultramaratona. A maior lição que tiro desta aventura [na MDS] é que uma preparação focada é uma grande ajuda para sofrermos menos. As pessoas têm muita tendência para dispersar. Eu própria, no ano passado, fiz provas em tudo quanto era sítio…

Só no ano passado fizeste 22 ultramaratonas. No teu percurso aconteceu tudo muito rápido. Tens essa noção?

Quando páro para pensar, sim. Pouco depois daquela prova em que desisti [em 2013], já estava a fazer 146 quilómetros. Disseram-me que era louca, mas consegui acabar. Era uma prova que terminava em Fátima [Ultra Maratona Caminhos do Tejo]. Não estava a contar fazer tantos quilómetros, mas chegar a Fátima aumentou esta vontade de superação. A fé ajuda-me muito nestas aventuras. E foi essa emoção que senti na etapa mais longa da MDS. Planeio regressar ao deserto ainda este ano.


 Memórias do deserto

“O espírito no acampamento foi espectacular. Ainda assim, era um convívio comedido, porque precisávamos todos de descansar. Falávamos, sobretudo, das provas em que já tínhamos participado. Havia pessoas que nunca tinham corrido mais do que uma maratona…”

“Uma das melhores memórias é da segunda etapa, quando chego ao topo de uma montanha e vejo um carreiro com milhares de pessoas a correr. Comecei a chorar compulsivamente. E o MP3 também não ajudou. Estava a tocar uma música da banda sonora do Gladiador: ‘Now We Are Free’.”