EGT 2017: O calor brilhou na Estrela

Por Vanessa Pais

A terceira edição do Estrela Grande Trail (EGT) cumpriu-se entre 19 e 21 de Maio, este ano com a novidade de uma distância mais longa, de 109 km, e com mais desnível positivo acumulado (6300 metros) na prova principal. O calor não deu tréguas e terá contribuído para o facto de terem terminado esta distância apenas 90 atletas dos cerca de 160 que alinharam na partida.

Depois de lideJoãoRodriguesrar a prova durante mais de 90 quilómetros, Jérôme Rodrigues viu-se vencido pela dureza do desafio e João Rodrigues não desperdiçou a oportunidade de cortar a meta em primeiro lugar, 14h03m47s depois do tiro de partida. O atleta dos Amigos da Montanha disse, numa chegada emotiva, que conseguiu atingir o seu principal objectivo, que era terminar, e não escondeu a dificuldade que, afirmou, foi superior à sentida no MIUT . “Com o imenso calor que estava tinha que me refrescar em todos os sítios que podia (ribeiros, bicas de água, etc) e mesmo assim tive que parar na subida do Vale da Amoreira”, referiu.

 

 

(Foto: Cortesia da Organização)

Foram necessários mais 20 minutos para o segundo classificado e um dos favoritos, o suíço Curmer Gregoire, se apresentar em Manteigas. Favorito era também o atleta da Salomon/Suunto Internacional Tom Wagner, que acabou por desistir. Em terceiro lugar ficou o atleta do EDV-Viana Trail, Gabriel Meira.

No sector feminino, nem a maior distância e desnível nem o calor impediram Natércia Silvestre de carimbar a vitória pela terceira vez consecutiva no EGT, que cumpriu o percurso em 18h34m45s, quase quatro horas antes da segunda classificada, Mariana Ballester (22h15m45s). O pódio ficou completo com Ana Miranda, que terminou a prova em 23h02m51s.

Carlos Sá e Lucinda Sousa vencem os 49 km

O percurso Orion Belt, que também passou dos 46 km para os 49, contou com nomes de peso no firmamento do trail. O ultramaratonista Carlos Sá venceu ex-aequo com Guilherme Lourenço, numa demonstração de desportivismo de ambos, e não poupou elogios à organização, nesta que foi a sua primeira participação no EGT . “A organização é excelente, todos os pormenores foram pensados, por isso, mereçe a presença de todos os atletas nacionais e internacionais. Esta serra tem muito para dar e para se afirmar no trail internacional”, afirmou à RUNning.

(Vídeo: Vanessa Pais)

Apesar da vitória, o ultramaratonista referiu que a sua participação teve um carácter de treino, numa altura em que se prepara para competições como o Ultra Trail du Mont-Blanc ou o Tor de Geants. “Aproveitei para treinar, meter quilómetros e desnível e mais para a frente vejo em que prova apostar forte”, disse. Este ano, sem a “pressão” da organização do mundial de trail, como aconteceu em 2016, Carlos Sá pôde planear a época de uma forma mais prolongada no tempo, bem como, aproveitando a experiência vivida em Outubro, “fazer grandes mudanças” em algumas das provas que organiza, como é o caso do Grande Trail da Serra D’Arga, que acontece em Setembro, e este ano “terá a prova-raínha, de 53 quilómetros, no Sábado, para permitir que os participantes nas provas de Domingo possam assistir e apoiar os atletas”. A poucos dias de uma nova edição do Campeonato Mundial de Trail, Carlos Sá defende que os resultados serão “muito imprevisíveis”, pela curta distância e pela participação de atletas “muito rápidos”. De qualqer modo, o ultramaratonista acredita que a selecção nacional “vai dar o seu melhor”.

VoltandIMG_9280o ao EGT 2017, o pódio masculino nesta distância ficou completo com a chegada de André Duarte da equipa Algarve Trail Running. No sector feminino, Lucinda Sousa, do Gondomar Futsal Clube, precisou de 6h26m11s para assegurar a vitória, tendo liderado a prova desde o início, sem dar hipótese à segunda e terceira classificadas, Isabel Boavida (6h5511s) e Albertina Valada (6h58m24s). A atleta destacou à chegada a dureza da prova agravada pelo calor e fez questão de dar os parabéns a Armando Teixeira pela organização do evento.

 

 

(Foto: Vanessa Pais)

 

Miguel Reis e Silva impõe velocidade no Estrela Taurus

Ainda com um volume de treino longe do ideal, como afirmou, o atleta da Salomon/Suunto Portugal, Miguel Reis e Silva, nesta fase de regresso após uma maior dedicação à família e à profissão, venceu os 26 km do EGT conseguindo imprimir a velocidade necessária para deixar para trás Pedro Ribeiro e Nélson Graça. Após 2h13m46s, o também médico da Selecção Nacional de Trail fez o raio-X à sua prestação: “Neste momento os meus volumes de treino são metade do que eram no ano passado e estas provas são sempre uma incógnita, pois nunca sabemos como o corpo reage. Desde o início que tentei manter um ritmo certo e foi a melhor estratégia.”

Do lado das senhoras, as mais rápidas foram Daniela Russo, da Oralklass – Amigos do Trail, Inês Jordão, da Monsanto Running Team, e Nádia Casteleiro.

Com a presença de cerca de 1200 atletas, a edição de 2017 do Estrela Grande Trail afirmou a prova como incontornável no calendário nacional, indo ao encontro das expectativas da organização encabeçada por Armando Teixeira, ultramaratonista e capitão da Selecção Nacional de Trail, que aposta também na vertente familiar e de promoção da região. “Mais do que um evento de superação física, o EGT continua a ser um evento agregador, um ponto de encontro de famílias e amigos, que se unem no desporto e o associam à experiência turística do destino Serra da Estrela. Nós permitimos a quem participa no EGT ver uma serra como quase ninguém a viu. Esta é uma prova feita por atletas e para atletas. É uma prova feita para amigos e por amigos. Só assim é possível”, concluiu Armando Teixeira durante a cerimónia de entrega de prémios.

Se ainda não foi EGT2017desta que aceitou o desafio de “ver uma serra como quase ninguém a viu”, a RUNning assegura, porque já participa desde a segunda edição, que depois deste fim-de-semana não são as dores nas pernas que ficam para contar a história, mas os locais percorridos com os olhos e com o coração. A beleza compensa a dureza e as paisagens tiram o fôlego mais vezes do que o cansaço.

 

 

 

(Foto: Miro Cerqueira/Prozis)