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“Zá-to-pek! Zá-to-pek! Zá-to-pek!” O ruído da multidão lembra uma locomotiva a vapor a arrastar-se pelas bancadas do Estádio Olímpico de Helsínquia. Na pista, uma locomotiva humana deixa para trás um rasto de adversários vencidos. Em 1952, Emil Zátopek consegue o impossível: a vitória nas três provas mais desgastantes do atletismo.

Texto: Inês Melo

Em 1952, Emil Zátopek já não era apenas um oficial do exército checoslovaco. A fama que lhe precedia tinha cruzado a Cortina de Ferro, de braço dado com um estilo de corrida pouco convencional. Sobre a postura desajeitada e o rosto contorcido pelo esforço, o então campeão olímpico dos 10 000 metros trazia a resposta na ponta da língua: “Não sou suficientemente talentoso para correr e rir ao mesmo tempo.” Debaixo da agonia escondia-se uma máquina de devorar quilómetros, cuja imprudência poderia ter custado as linhas desta história.

Dois meses antes dos Jogos de Helsínquia, Zátopek corre com uma virose e a sua saúde agrava-se. Os médicos recomendam a interrupção dos treinos, mas o atleta não está disposto a abdicar do sonho. Sem uma actuação excepcional durante a temporada, faz o impensável e recupera a tempo da partida para a Finlândia. No entanto, pouco antes de embarcar, vacila ao descobrir que o governo comunista não quer levar o jovem Stanislav Jungwirth (que viria a ser recordista mundial nos 1500 metros em 1957), filho de um preso político: “Se ele não for, eu também não irei.” No dia da viagem, os dois ficam em Praga, para desespero da multidão que esperava o ídolo no aeroporto.

Os jornais europeus escrevem sobre a ausência da estrela checoslovaca e os dirigentes da comitiva, com receio de uma repercussão negativa, explicam que houve um engano. Dois dias depois, Zátopek e Jungwirth apanham o primeiro avião para os Jogos de Helsínquia, onde a admiração corre mais depressa do que as pernas do atleta. Na noite antes da final dos 10 000 metros, um jornalista inglês bate à porta do quarto dele. Zátopek responde pacientemente a todas as perguntas e, na despedida, percebe que o jornalista não tem onde dormir. Nessa noite os dois dividem a mesma cama.

Fazer o impossível
Na final dos 10 000 metros, Zátopek corre imortal. Em sinal de respeito, os atletas que ficam para trás dão-lhe passagem por dentro. Corta a fita em 29 minutos e 17 segundos e estabelece um novo recorde olímpico. É então que o checoslovaco deixa o mundo atónito: “Afinal, tenho muito tempo entre os 10 000 metros e a maratona. Preciso de arranjar alguma coisa para fazer.” Apura-se com facilidade para os 5 000 metros, mas no dia da prova as bancadas gelam quando perde a liderança a 300 metros da meta. Vai em quarto quando a multidão começa: “Zá-to-pek!” Na última volta enche o peito – as feições contorcidas – e corre mais depressa do que todos. Termina em 14 minutos e 6 segundos: novo recorde olímpico.
A maratona chega dois dias depois. Zátopek, que nunca tinha participado numa prova da distância, apresenta-se a Jim Peters e deseja-lhe boa sorte na linha de partida. Corre com o britânico durante uma hora, mas sem saber se estaria a fazer bem, pergunta-lhe se não vai depressa demais. “Não, vais muito devagar”, devolve Peters. Nesse instante, Zátopek aumenta o ritmo e deixa o favorito para trás. O vento, a solidão da prova e a inexperiência começam a ameaçar as forças do atleta, que recusa beber e comer, com receio de ter de pagar. Pensa em desistir mas, com a proximidade do estádio, a multidão encoraja-o a prosseguir. Cruza a meta com 2h23m32s e volta a estabelecer um recorde olímpico. Anos mais tarde, o maior corredor checoslovaco de todos os tempos confessaria: “Foi muito triste. Sabia que uma actuação daquelas só acontece uma vez na vida!”