SAMUEL BARATA: “Estive dois, três anos a bater com a cabeça na parede, pois estudava e treinava muito e não conseguia correr”

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De Lausana para a encosta sul da Serra da Estrela, do clube local de Bouça, na Covilhã, para a formação do Sport Lisboa e Benfica, Samuel Barata, estudante universitário de Química, com apenas 23 anos, já se faz notar no atletismo português. Flautista na filarmónica da terra, o campeão dos 10 000 metros e de corta-mato curto, melhor português na Meia Maratona de Lisboa, em Março, tende a fixar-se nas longas distâncias e pretende começar a ensaiar para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

 

T: Carlos Branco   F: Miguel Quesada

 

A cabeça de um estudante universitário nem sempre está na sala de aula, tantas são as distracções geradas pela fraternidade estudantil. E quando a elas se juntam os muitos quilómetros de treino e competição, então a carência de descanso pode fazer das suas. Samuel Barata, mestrando de Química em Lisboa, não sucumbiu às primeiras e aceitou a exigência dos treinos para se juntar à elite. Sem descansar à sombra do destaque, iniciou no final de Abril três semanas de estágio em altitude, em Font-Romeu, nos Pirenéus franceses, para afinar a forma e preparar a época de pista.

 

Nota-se que estás atento ao método científico. Que importância lhe atribuis e que benefícios daí podem advir?

Os atletas africanos correm a distância em menos de uma hora. Eu faço-o em 1h03m. [Na Meia Maratona de Lisboa] Venceu um neozelandês [Jake Robertson, 1h00m01s], que é praticamente queniano. Com este estágio, ao aumentar os níveis de hemoglobina no sangue, o organismo adapta-se à menor quantidade de oxigénio e transporta essa habituação para a competição ao nível do mar. Se eles parecem máquinas, no fundo são humanos, e se queres ser como eles tens de fazer como eles fazem. É o que vou experimentar.

 

Para anular essa diferença…

Para chegar ao pódio teria de estar ao nível do top mundial. Mas se após 600 treinos [pressupõe duas sessões diárias] conseguir superar a marca pessoal isso já seria uma grande vitória.

 

Crosse, pista ou estrada? Começa a chegar a altura de fazer a opção?

O crosse dá-me força e contribuo para o esforço da equipa do Benfica e se sentir que os meus tempos em pista são bons, mas que ainda podem melhorar, daqui a dois, três anos, vou dedicar- -me à maratona. Os resultados, se aparecerem, ajudarão depois a tomar qualquer outra decisão. É que o atletismo só dá sustento se formos do top. A Química será sempre o futuro.

 

Sofrimento a dobrar. Por apetência, ou sentes que é o curso natural da tua carreira?

Sofremos sempre, mas o que verdadeiramente custa é o treino. Se estivermos preparados faz-se naturalmente. Sinto que tenho apetência para as longas distâncias e vou treinar muito e bem para ver se consigo ir à maratona dos próximos Jogos [Olímpicos, em Tóquio], em 2020. Até lá, empenhar-me-ei a fundo na competição. ´

 

Muito e bem… Como é isso?

Acabo de fazer um footing de 12 quilómetros a um ritmo mediano, para recuperar do treino forte da véspera. Nos dias de actividade intensiva realizo séries de 1000 a 2000 metros na pista para simular o ritmo de competição, dependendo dos objectivos a médio prazo. Já ao domingo tenho uma sessão longa, entre 20 a 30 quilómetros. Ontem foi duro, fiz 25.

 

Partilhas da opinião de que o sector masculino está a passar por uma “idade de trevas”?

Quando a malta vai para a faculdade, as exigências do estudo são muitas e é complicado dizer a um jovem que terá de treinar duas vezes por dia, durante três ou quatro anos. Um treinador disse-me um dia que um atleta demora dez anos a fazer-se, desde os 15 e até aos 25, altura em que podem começar a surgir os resultados internacionais.

 

Uma questão geracional? Mas a anterior destacou-se…

Encontrou no atletismo uma saída. Muitos desses atletas eram oriundos de zonas rurais e viram no atletismo uma forma de emancipação do ambiente que os rodeava. Agora, a vida está mais facilitada, toda a gente vai para a faculdade.

Um mestrado em Química também não deve ser tarefa fácil, particularmente se se sonha com um voo olímpico.

Estive dois, três anos a bater com a cabeça na parede, pois estudava e treinava muito e não conseguia correr. Logo no primeiro ano, ainda júnior, fui campeão nacional de corta-mato e consegui lugar para o Mundial, mas ainda a faculdade era uma novidade. Depois, já como sub-23, estudava, treinava e não descansava, entrei mesmo em overtraining. Só nos últimos dois anos é que comecei a gerir melhor as cadeiras, o descanso e o treino.

 

Se correr está na moda, mesmo que a maioria o faça informalmente, isso não poderá estimular o aparecimento de novos e mais valores?

Ajuda, pois. Mas há um senão: as organizações das provas preocupam-se mais com a quantidade de atletas, à partida, do que com a qualidade competitiva. Antes, privilegiava-se e pagava-se melhor a qualidade dos tempos de prova.

 

E ainda há a música…

Há dez anos que toco flauta transversal e flautim na Filarmónica Cortense. Agora é só mais nas festas religiosas de verão.

 

 

FACTOS

Idade: 23 anos

Naturalidade: Lausana, Suíça. Regressou com os pais a Portugal, à freguesia de Bouça, no concelho da Covilhã, com apenas 4 anos. Começou no futsal antes de se iniciar no atletismo (GDAC Bouça, de 2006 a 2011)

Clube: Sport Lisboa e Benfica (desde 2012)

Treinador: Pedro Rocha

Títulos: Campeão nacional de 10 000 metros (2015) e de corta-mato curto (2017); campeão nacional de corta-mato júnior (2012) e de sub-23 (2015); campeão nacional de estrada sub-23 (2014 e 2015)

Melhores marcas pessoais: 800 metros – 1m55s35’; 1500 metros – 3m50s61’; 3000 metros – 8m03s52’; 5000 metros – 13m56s43’; 10 000 metros – 28m40s19’; meia maratona – 1h03m52s

Orgulho pessoal: Mundial Juniores (Barcelona 2012) – 17.º da geral e 4.º melhor europeu