Grândola: Chegou a técnica à terra da fraternidade

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T: Rute Barbedo F: Celestino Santos

No mais recente centro de marcha e corrida do país, o calor alentejano não é entrave à prática de desporto. A RUNning foi ao “regresso às aulas” que têm dado corda aos pés de Grândola.

Grândola tem perto de 6800 habitantes. “Todos se conhecem”, comenta João Maia, técnico do mais recente centro do Programa Nacional de Marcha e Corrida, inaugurado a 18 de Maio na vila alentejana. Desde então, vêm praticar exercício físico em família ou por fraternidade, como na canção de Zeca Afonso e da revolução, às segundas, quartas e sextas-feiras.

11“Esta é a dona Lucrécia, ali à frente vai a filha, a Judite, o outro senhor é o marido e também costumam vir as filhas, gémeas – uma corre e a outra está no grupo da marcha; é mais preguiçosa”, conta o aveirense que trocou o Norte pela sombra da azinheira há nove anos. Há também o guarda prisional, de suor a abrilhantar o rosto; Gabriel, que perdeu 14 kg em seis meses; ou Rui Raposo, que vestia o 50 e agora vai no 38. “A médica disse o mesmo à minha mulher e à minha filha, que também são obesas. Mas só eu mudei o chip”, conta à RUNning Rui Raposo.

O que a Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano, parceira do Centro Municipal de Marcha e Corrida de Grândola, tem aconselhado a muitos dos seus utentes é tentar equilibrar a balança entre o exercício físico e a medicação, retirando o protagonismo aos químicos. No caso de Rui Raposo, a primeira volta ao quintal foi um suplício, mas agora já participa em competições de 25 km. Sente-se muito melhor. O único inconveniente é ter de renovar o cartão do cidadão ainda antes do prazo de validade, por estar “irreconhecível”, como lhe disseram.

Histórias como esta são hoje mais frequentes em Grândola, onde “há muitas pessoas a caminhar e cada vez mais correr”, refere Hugo Patrício, técnico do centro e presidente do clube Amiciclo – Amigos do Ciclismo de Grândola (parceiro do centro de marcha e corrida), que, apesar de ter sido fundado em 1994, só recentemente consagrou uma secção ao atletismo.

Não é “como na tropa”

Ainda assim, a caminhada tem mais força na localidade. A 31 de Julho, praticamente 80% dos então 101 utentes inscritos no centro investiam na marcha. “Houve dias em que chegaram a ser 60 só nesse grupo”, precisa João Maia. Mas jogos e exercícios em que entram séries de velocidade, treinos de força nas bancadas do estádio do complexo desportivo, incentivos para participar em provas e a própria dinâmica do grupo têm conduzido muitos praticantes à corrida. “Estas quatro senhoras, por exemplo, estão connosco desde o início. Começaram por caminhar e agora já correm”,
relata João Maia.

dfdO sexo feminino é também o que domina no grupo grandolense – 79% são mulheres e a faixa etária mais representada vai dos 36 aos 60 anos. “A utente mais velha tem 75 anos”, indica o técnico desportivo, antes de dizer: “Dona Lucrécia, pode ir fazer o seu treininho.” Lucrécia Gonçalves caminha num mundo e ritmo condizentes com a idade e a condição física, mas a autonomia de que goza não a aparta do grupo. Chega sempre à hora marcada, é acompanhada de perto pelos técnicos e pontua o espaço como quem diz: “Vou devagar, mas estou aqui.” João Maia explica que “muitos [praticantes] pensavam que isto era como na tropa, mas ninguém obriga ninguém a nada”. É caso para dizer que, mesmo que tentassem, aqui, “o povo é quem mais ordena”. E o centro de marcha e corrida é “um serviço público”, salienta o técnico.

Mudar mentalidades

Depois do obrigatório aquecimento e de algumas voltas ao complexo, grande parte do treino desenrola-se na pista de terra.
“Hoje há caras novas. Pelo menos quatro não conhecemos”, nota João Maia.
Mas se em Julho, o Centro Municipal de Marcha e Corrida de Grândola tinha 101 utilizadores, com a quebra de Agosto (altura em que todos os centros do país encerram, embora, em Grândola, dado o entusiasmo pela novidade, alguns treinos informais tenham pontuado o “mês das férias”), a nova época arrancou com 40 a 45 inscritos. “Custa mudar a mentalidade
das pessoas sedentárias, mas a nossa luta é essa. Até agora temos tido resultados, mas vamos ver como será no Inverno”, adianta-se o técnico.