“Havia a ideia de que quem fazia triatlo não era bom em nenhuma das modalidades”

Fernanda-Ribeiro-009
“O médico veio ter comigo e disse: ‘Acabaste a tua carreira’”
18 October, 2015
IMG_9363
Gelado de açaí
18 October, 2015
joao-silva-4359

João Silva nadou, pedalou e correu para a história quando conquistou a primeira medalha lusa de sempre nos recém-inaugurados Jogos Europeus, em Junho. Da Benedita para o mundo, o triatleta de 26 anos está a dar cartas. Nunca um português tinha chegado tão longe no circuito internacional da modalidade.

Texto: Inês Melo      

Fotos: Luciano Reis

“Outra coisa de que gosto é poder correr em vários sítios do mundo. Sou bastante privilegiado por ter a vida que tenho.” Que vida tem João Silva? A de um triatleta internacional, o primeiro homem português a vencer uma etapa do Campeonato do Mundo de Triatlo (em Yokohama, Japão, 2011); o atleta nacional com a melhor classificação masculina de sempre num triatlo em Jogos Olímpicos (foi 9.º em Londres, 2012).

Encontramos João Silva num fim de tarde morno, na praia de Carcavelos, em Cascais. O areal continua à pinha, mas o atleta natural da Benedita (Alcobaça) passa incógnito entre a multidão. Em 2005, quando começou a praticar triatlo, estava longe de imaginar que se tornaria numa referência nacional da modalidade. Mas sobre o que se faz por cá sabe pouco. A vida que escolheu leva-o para longe praticamente todos os meses. Aos 26 anos, vive nos palcos do mundo. “Jovem, persistente, paciente e absolutamente apaixonado pelo triatlo, João Silva é um nome que será recordado.” Não somos nós que afirmamos, mas aplaudimos de pé o auspício da Federação Internacional de Triatlo.

Quando venceste a medalha de prata nos I Jogos Europeus, em Baku (Azerbaijão), escreveste nas redes sociais “Silver Silva”. Achas que daria um bom nome para super-herói?

A única parecença com um super-herói são os fatos apertadíssimos [risos]. Na verdade, foi muito gratificante conseguir o segundo lugar em Baku, sobretudo por ter sido uma prova com alguma cobertura [mediática]. Embora a este nível os atletas não precisem de motivação extra, acaba por ser bastante compensador o facto de as pessoas compreenderem melhor o que é o triatlo. Nesse aspecto, penso que a medalha foi muito importante.

Uma medalha que esteve a 20 adversários de distância…

Ou mais! Mas esse é um dos atractivos dos triatlos. São provas muito dinâmicas, em que tudo pode acontecer. Todas as competições são diferentes: os percursos, o clima, os adversários e, claro, as tácticas. Em Baku começou por existir uma tentativa de fuga logo à saída da natação. O grupo principal ainda conseguiu recuperar, mas depois gerou-se uma certa apatia. No ciclismo houve um novo ataque e desta vez o grupo já não foi capaz de se organizar. Os primeiros chegaram à corrida com quase dois minutos de vantagem, o que é impensável.

Foi na corrida que começou a tua escalada épica na tabela.

Eu sabia que estava muito calor e que os fugitivos estariam um pouco mais cansados, porque também se tinham desgastado mais. Tinha de dar tudo por tudo, já não havia grande ciência [terminou a 11 segundos do vencedor, Gordon Benson].

E a ciência do triatlo, quando é que entrou na tua vida?

Tinha apenas 3 anos quando entrei na natação. Entretanto, também joguei futebol durante imenso tempo, mas quando cheguei ao 10.º ano (e as notas passaram a contar para entrar na faculdade) decidi que tinha de optar. Escolhi a natação, mas chegou uma altura em que já estava cansado de contar os azulejos da piscina. Essa fase coincidiu com a realização de um programa de detecção de talentos, em Rio Maior. Como eu era relativamente bom nos corta-matos escolares, o professor de Educação Física incentivou-me a participar. Na altura, acharam que eu tinha algumas qualidades e convidaram-me para integrar o Centro de Alto Rendimento do Jamor. Como já ambicionava vir para Lisboa estudar, aproveitei e fiz a viagem um pouco mais cedo, em Setembro de 2005.

Entretanto entraste em Medicina.

Sim, ainda tentei conciliar durante algum tempo. O problema é que eu queria fazer as coisas a sério, e não estava a conseguir fazer nenhuma das duas bem. Decidi que ia dedicar-me a cem porcento ao triatlo, mas uma vez terminada esta fase da minha vida o objectivo é concluir o curso. Também tenho a felicidade de contar com o apoio do SL Benfica. Para já, estou concentrado nos treinos, que são bastante exigentes. Afinal, são três modalidades, todas no âmbito da resistência. Acresce a dificuldade de estar constantemente em viagem.

Descreve-nos o teu dia de treino mais difícil.

É muito complicado falar sobre um dia-tipo, porque todos são diferentes. Por norma, implicam sempre nadar, pedalar e correr. Quando não faço uma das três actividades, corro ou nado duas vezes. Por exemplo, há dois dias foi difícil… Acordei às 7h30, corri durante 30 minutos, nadei 1h20m na piscina, andei 1h30 de bicicleta e ainda trabalhei na pista de atletismo cerca de 1h30. Pode parecer fácil, mas exige uma boa gestão do tempo, até porque implica bastante logística.

Há algum dia em que não nades, pedales ou corras?

Não. Treino 365 dias por ano. Normalmente, as minhas férias significam fazer apenas dois treinos diários, mais ligeiros.

Qual é a tua modalidade preferida?

Tenho fases. Por exemplo, não gosto tanto de andar de bicicleta no Inverno e detesto água fria. A minha sorte são os tais fatos de super-herói, que são isotérmicos. Também não gosto de nadar quando há muitas sombras na água, sobretudo em países como a Austrália, penso logo nos tubarões [risos]. No Verão, como treino mais no exterior, adoro nadar em águas abertas e correr em trilhos (que são superfícies menos duras). O mais complicado é a bicicleta, porque o pessoal da estrada não respeita muito os ciclistas.

Voltemos à Austrália. No ano passado mudaste-te para o Hemisfério Sul, porquê?

Sim, estive cinco meses na Nova Zelândia. Não só eram lá as primeiras competições, como me tenho apercebido de que trabalho melhor com o clima de Verão. Também foi fácil porque o meu grupo de treino tomou a mesma decisão.

Como é o teu calendário de provas?

Só no Campeonato do Mundo – que acaba por ser a prova principal – temos dez etapas para disputar. Como a época se desenrola entre Março e Setembro, já dá mais do que uma competição por mês. Depois, temos as Taças do Mundo, que também se dividem por cerca de dez eventos, os Campeonatos da Europa e agora estes novos Jogos Europeus. É um calendário exigente, numa modalidade que requer uma recuperação mais prolongada, e que não deixa muito espaço para competir em provas nacionais. Felizmente, no próximo ano o Europeu vai ser em Lisboa.

O que é que as pessoas ainda não sabem sobre triatlo?

Que é uma actividade dinâmica, acessível a toda a gente e muito divertida. Depois, também é óptimo para quem gosta de comer muito (eu, por exemplo). São tantas horas de exercício que depois de um triatlo sinto-me muito menos culpado por ter comido tanto [risos]. Na verdade, acho que agora há mais conhecimento sobre a modalidade. Costumo dizer que depois da Vanessa [Fernandes] as pessoas deixaram de confundir “triatlo” com “teatro”; já não perguntam que peça estamos a ensaiar.

Por outro lado, antes havia a ideia de que quem fazia triatlo era porque não conseguia ser bom em nenhuma das três modalidades. Actualmente, o nível está bastante alto. Por exemplo, nos Jogos Olímpicos de Londres, o melhor tempo na corrida foi 29m07s, isto depois de nadar 1 500 metros e de pedalar durante dez quilómetros [Alistair Brownlee, triatleta britânico, foi apenas 97 segundos mais lento que Mo Farah, o vencedor do ouro nos 10 000 metros]. Hoje, se pedíssemos a um triatleta para se dedicar apenas à natação, ao ciclismo ou à corrida acredito que ele não faria assim tão má figura.

Já estás focado nos Jogos Olímpicos de 2016?

Faço triatlo essencialmente porque me divirto muito. Claro que nesta altura, a pouco mais de um ano, é tempo de começar a pensar mais seriamente nisso. No entanto, o meu maior objectivo é sempre melhorar os tempos – e ainda bem que isso é conciliável com a vontade de fazer o melhor possível nos Jogos Olímpicos. No início de Agosto tenho um test event no Rio de Janeiro [Brasil], em que os três primeiros lugares dão acesso directo à competição. Também vai ser importante para recolher informação sobre o percurso e as infra-estruturas disponíveis.


Best of

  • Campeão Europeu de Sub-23 (2008, 2010 e 2011)
  • Melhor posição de sempre de um atleta luso no ranking mundial da Federação Internacional de Triatlo (2010 e 2013)
  • Primeiro atleta masculino português a vencer uma etapa do Campeonato do Mundo de Triatlo (2011)
  • Melhor classificação masculina alcançada por um triatleta nacional em Jogos Olímpicos (2012)