Hiponatremia: Consequências da ingestão excessiva de líquidos

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Hiponatremia

Por Dr. Marcos Miranda, Especialista em Medicina Desportiva

Os eventos desportivos de longa duração são cada vez mais populares e com elevadas taxas de participação, estimando-se que a necessidade de apoio à saúde após a conclusão do evento ou etapa afecte 2,5% dos participantes. A maioria sofre um colapso, ou seja, o atleta consciente não consegue manter-se em pé ou andar sem ajuda devido a tonturas, fraqueza ou síncope (perda do estado de consciência transitória e perda do tónus postural, o que em linguagem comum se designa como “desmaio”).

O colapso associado ao exercício é, na maioria das vezes, benigno e resultado de uma perturbação dos sistemas fisiológicos de controlo da pressão arterial, ocasionando a sua queda brusca – hipotensão – e o seu tratamento resume-se à colocação do atleta numa posição deitada com elevação dos membros inferiores. Existem, no entanto, outras situações potencialmente mais graves, das quais se destaca uma entidade apenas caracterizada nos últimos 20-30 anos e que está associada ao excessivo consumo de água durante as provas longas: a hiponatremia associada ao exercício (HAE).

Identificar, prevenir, controlar

A HAE ocorre durante ou até 24h após o exercício, define-se por um valor de sódio no plasma abaixo dos valores laboratoriais de referência e deve-se a perdas excessivas daquele sal ou à sua diluição por excessivo consumo de água (ou ambos). Pode ser suspeitada através da constatação do aumento do peso corporal no final da prova.

A afirmação de que, em determinadas situações, o mecanismo da sede não seria suficiente para prevenir desidratação levou à generalização do conceito de que se deveria ingerir uma abundante quantidade de líquidos nas provas longas, tendo então começado a surgir situações clínicas de colapso após o exercício, por vezes acompanhadas de manifestações neurológicas que indiciavam gravidade. Sabemos hoje que um grau de desidratação que pode ir até 5% não interfere no desempenho nem desencadeia cãibras.

Na maioria das vezes, a HAE é ligeira ou moderada e resolve-se sem recurso a cuidados que não sejam a ingestão oral de uma solução salina hipertónica e restrição hídrica até o atleta (re)começar a urinar. As situações de maior gravidade, em que o atleta está inconsciente e poderá ter outras manifestações, como convulsões, têm de ser tratadas mais agressivamente e, eventualmente, encaminhadas para uma urgência hospitalar.

Dependendo do tipo de apoios existentes ou das distâncias envolvidas, este cenário poderá não ser necessário e a administração preventiva de sódio hipertónico não irá agravar uma situação de outra causa podendo salvar o atleta. O segredo reside na suspeita clínica da HAE entre as possíveis causas do colapso.

A prevenção da HAE passa pela educação de todos os agentes para a moderação do consumo de água em prova, deixando ao critério do atleta a necessidade de ingestão, regulada pela sede. A redução do número de casos tem passado por estratégias tão simples como um menor número de estações de abastecimento.

 

Saiba como agir

Causa: perda excessiva de sódio; excesso de ingestão de água.

Sinais: aumento do peso corporal no final das provas.

Sintomas: colapso após o exercício acompanhado ou não de manifestações neurológicas.

Tratamento: ingestão de solução salina e restrição hídrica, podendo exigir tratamento hospitalar.

Prevenção: ingerir líquidos durante a prova apenas quando há sensação de sede.