Importância da corrida na saúde mental

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Dr.ª Rita Tomás, Médica Especialista em Medicina Física e de Reabilitação e Medicina Desportiva, Clínica CUF Alvalade

A actividade física pode melhorar o humor, a auto-estima, a função cognitiva e tem um efeito anti-depressivo e ansiolítico. O exercício parece também diminuir a reactividade do nosso organismo ao stresse. Estes benefícios não são exclusivos do exercício aeróbio como é o caso da corrida, mas também podem ocorrer com o treino de força. Este efeito positivo parece ser transversal entre géneros, escalões etários, pessoas activas e sedentárias, indivíduos saudáveis ou com doença psiquiátrica.

Uma revisão recente de vários estudos com doentes com depressão revelou que o exercício físico tem um efeito moderado na diminuição da sintomatologia, comparável ao da psicoterapia e ao dos psicofármacos. O exercício é hoje considerado uma abordagem de primeira linha para o tratamento da depressão ligeira a moderada e um importante coadjuvante do tratamento farmacológico.

Por que é que correr nos faz “sentir bem”?

Existem várias teorias que tentam explicar o efeito positivo do exercício agudo e crónico na saúde mental. A prática continuada de actividade física leva a uma sensação de “mestria”, domínio de uma nova habilidade e a uma consequente melhoria da auto-eficácia e da auto-estima. No caso de ser praticado em grupo, a interacção social também pode ser benéfica.

É conhecido que pessoas com depressão têm níveis circulantes de serotonina diminuídos no sistema nervoso central. Vários estudos revelaram que o exercício aumenta a libertação de serotonina, de forma semelhante ao mecanismo de acção dos medicamentos utilizados para tratar a depressão e a ansiedade, como a fluoxetina, a sertralina ou o escitalopram. Com o exercício aeróbio de intensidade moderada a elevada, há também a libertação de opióides (ex.: β-endorfinas) e canabinóides endógenos, (ex.: anandamida), que levam a um efeito analgésico e tranquilizante após a actividade física.

Muitos dos estudos experimentais que permitem explorar estes mecanismos de acção resultam curiosamente de experiências com a corrida em modelos animais. Estes “ratinhos corredores” têm uma libertação aumentada de uma substância (factor de crescimento neurotrófico derivado do cérebro) que tem um efeito protector nos neurónios, promove a formação de novas células nervosas e tem um efeito anti-depressivo.

A prática continuada de exercício leva também a uma menor activação do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e a uma menor produção das hormonas do stresse, como o cortisol, moderando a resposta fisiológica perante uma situação stressante.

Qual é a “dose” necessária de exercício para produzir um efeito positivo na saúde mental?

Não existem muitos estudos de dose-resposta, no entanto, um trabalho revelou que 150 minutos de exercício moderado ou 75 minutos de exercício intenso por semana (as recomendações actuais para a saúde) eram suficientes para se obter uma redução significativa da sintomatologia depressiva. Não se verificou efeito positivo com exercício com menor intensidade/duração ou apenas com treino de flexibilidade.

A prática de corrida de forma regular pode contribuir para a manutenção de uma boa saúde mental, sendo uma opção para o tratamento de patologias do foro psiquiátrico, como a depressão ou a ansiedade. Este “medicamento alternativo” tem um perfil de segurança muito favorável e os seus “efeitos secundários” são muito desejáveis, tais como a diminuição dos riscos cardiovascular e de alguns tipos de neoplasia e facilitar o controlo do peso.

 

*Referências

Barbour KA et al. J Exercise as a treatment for depression and other psychiatric disorders: a review. Cardiopulm Rehabil Prev. 2007 Nov-Dec;27(6):359-67.

Biddle SJH, Mutrie N, (2008) Psychology of Physical Activity: Determinants, Well-Being and Interventions, Second Edition, Routledge, New York, NY, USA.

Cooney GM et al Exercise for depression. Cochrane Database Syst Rev. 2013 Sep (2013), Issue 9.

Dunn AL et al. Exercise treatment for depression: efficacy and dose response.  Am J Prev Med. 2005 Jan;28(1):1-8.

Landers, D. M. and Arent, S. M. (2007) Physical Activity and Mental Health, in Handbook of Sport Psychology, Third Edition (eds G. Tenenbaum and R. C. Eklund), John Wiley & Sons, Inc., Hoboken, NJ, USA.