Importância da prevenção cardiovascular primária na corrida

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Por Paulo Teixeira, Técnico de exercício físico e responsável pelo “Programa Mais Coração” do O2 Life Center

Foto O2A prática regular da corrida origina um conjunto de adaptações fisiológicas no organismo, nomeadamente cardiovasculares, promovendo uma melhoria da saúde e do bem-estar. No entanto, embora seja benéfica para a maioria dos indivíduos, é importante avaliar os riscos inerentes à sua prática. Nesse sentido, preconiza-se a realização de uma avaliação médica rigorosa, em função da qual o indivíduo é ou não aconselhado a iniciar esta actividade.

Sobre este assunto, as recomendações da European Society of Cardiology (ESC) corroboram as directrizes emitidas pelo International Olympic Committe (IOC), aconselhando a realização de exames completos a todos os desportistas de forma sistemática e com uma frequência a cada dois anos. Alguns estudos referem que uma avaliação inicial rigorosa é a estratégia mais eficiente para prevenir episódios de morte súbita (MS). Isto quando se sabe que a maioria das vítimas são portadoras de cardiopatias não diagnosticadas ou já conhecidas anteriormente.

A referida avaliação deverá ter como principal objectivo detectar as condições, principalmente cardiovasculares, que possam colocar o indivíduo em risco, caso não sejam atempadamente identificadas. A presença de patologias pré-existentes, mesmo que assintomáticas, pode ser suficiente para que a corrida actue como um “gatilho”, levando ao desencadeamento de acontecimentos graves, nomeadamente a MS.

Prevenir é a melhor estratégia

A avaliação médica deverá ser constituída por anamnese e exame clínico. O intuito é pesquisar a existência de casos de cardiopatias congénitas e de MS na família do indivíduo, identificar a existência de factores de risco cardiovasculares e detectar sinais e sintomas sugestivos de doenças cardiovasculares, metabólicas ou do aparelho locomotor. A avaliação deve ser complementada com análises laboratoriais e exames cardiovasculares (electrocardiograma, teste ergométrico, teste ergoespirométrico, ecocardiograma e outros), não existindo a obrigatoriedade da realização de todos, dependendo do parecer do médico.

Em termos internacionais, não existe consenso relativamente aos exames que devem complementar a avaliação médica. A American Heart Association (AHA) e o American College of Sports Medicine (ACSM) defendem apenas a aplicação de um questionário e a realização de um exame físico. No entanto, a ESC e o IOC referem a necessidade de exames complementares para todos os indivíduos que pretendam iniciar uma actividade física, numa vertente de lazer ou de competição. A principal razão da divergência prende-se com a relação custo/benefício de uma avaliação mais completa, devido à baixa frequência de eventos de MS (1:100 000-1:300 000/ano).

Nos últimos anos, os casos de MS durante a prática desportiva ganharam maior relevância devido à morte de atletas de alta competição, tornando esta problemática mais mediática, mas não necessariamente mais frequente. No entanto, continua a ser fundamental minimizar os factores de risco que lhe estão associados. Visto que a maior prevalência de MS está relacionada com desportos que exigem melhor capacidade aeróbia – nos quais se enquadra a corrida –, torna-se ainda mais relevante que atletas, desportistas regulares ou ocasionais desta actividade façam um controlo rigoroso antes e após iniciarem a prática da mesma.

 


 

Sabia que…?

Vários estudos referem a miocardiopatia hipertrófica como a principal causa de MS em atletas/desportistas com idade inferior a 35 anos e doença arterial coronária naqueles cuja idade era superior a 35 anos.


 

Grupos de risco

Apesar de os atletas estarem teoricamente mais sujeitos a esforços que os obrigam a atingir os seus limites – pela busca constante de melhores resultados –, geralmente, este grupo específico é bem controlado em termos físicos e apresenta uma boa aptidão cardio–respiratória. Pelo contrário, os desportistas regulares e sobretudo os ocasionais evidenciam, normalmente, uma menor condição física e não controlam de forma tão regular e rigorosa a sua saúde, o que os torna um grupo de alto risco.

O início da prática regular da corrida deverá ter como principais objectivos a melhoria da aptidão cardio-respiratória e, consequentemente, da qualidade de vida e do bem-estar. No entanto, caso não seja feita uma avaliação inicial rigorosa, os resultados obtidos podem não ser os esperados, podendo originar complicações na saúde do praticante.

Inicie ou mantenha a prática da corrida, mas faça-o em segurança, consultando um médico e um especialista em exercício físico, que o irá auxiliar na definição do seu programa de treino.