Inês Henriques: “O mundo inteiro estava comigo”

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Na escola sentia algumas dificuldades e tinha de estudar muito, mas na marcha Inês Henriques sentia-se “realmente boa”. Talvez por isso, admite, agarrou tanto todas as oportunidades. Este ano, a atleta, que gosta de ir às suas origens, foi campeã do Torneio das Freguesias de Rio Maior e fez história no atletismo mundial ao ganhar o ouro (com recorde) na primeira edição dos 50 km marcha em Londres, superando a sua melhor marca.

T: Teresa Mendes F: Celestino Santos

 

Se tivesse de se apresentar, o que diria sobre si?

É difícil separar a Inês Henriques pessoa e profissional. A minha vida, o que eu sou e as minhas opções foram sempre em função do atletismo. Defino-me como teimosa, persistente e trabalhadora e faço o que realmente gosto. Continuo a sentir o prazer de marchar, de treinar. São os meus colegas mais novos que me põem um travão porque às vezes treino demais. Sempre fui um bocadinho obcecada pelo treino. Mas nunca descurei a parte dos estudos, pois queria ter ferramentas para poder terminar a minha carreira em segurança.

 Foi por isso que tirou a licenciatura em Enfermagem?

Queria tirar Fisioterapia, mas como era em Lisboa tornava-se mais difícil de conciliar com os treinos. Optei por Enfermagem e fiz a licenciatura três meses por ano, durante 10 anos, para conseguir continuar [risos]. Entretanto, fiz o curso de Quiromassagem e agora estou a tirar outro de Massagem terapêutica desportiva.

Como era a Inês Henriques em pequena? O que queria ser?

Ainda pensei em ser cabeleireira, mas como não me permitia treinar, coloquei logo essa hipótese de lado. Comecei na marcha em 1992 e envolvi-me muito. Sem dar por isso, quatro anos depois estava no campeonato do mundo de juniores. Não olhei mais para trás. Na escola sentia algumas dificuldades e tinha de estudar muito, mas na marcha eu sentia-me realmente boa, sentia que era melhor do que os outros. E foi, talvez por isso, que agarrei tanto esta oportunidade.

 Mas como é que aconteceu a marcha na sua vida?

Comecei no atletismo através do Torneio das Freguesias de Rio Maior. Ainda hoje esse torneio existe e faço questão de participar, porque nós, os atletas de alta competição, temos de ser figuras de referência para os miúdos e eu gosto de estar próxima deles, gosto de ir à minha origem. Mesmo quando estava a treinar para os 50 km, em Janeiro, participei na prova de Rio Maior, pois é onde o meu público está, e fui campeã do Torneio das Freguesias de Rio Maior este ano.

 Nada que se compare a ser campeã do mundo…

[risos]

 

 “Chinesas são chinesas”

 Em que é que se pensa numa prova de 50 km de marcha?

Aquilo até passou rápido [risos] porque estive concentrada a gerir a prova. O Jorge Miguel, o meu treinador, disse-me: “Tens 14 minutos de diferença da atleta chinesa Hang Yin, mas não penses que vais estar sozinha. Chinesas são chinesas, têm 20 anos, têm de ser respeitadas.” E assim foi até aos 30 km, com Hang Yin sempre no meu encalce. Sem querer tentava fugir, mas ele dizia-me para ter calma, manter o ritmo e, apesar de não ser fácil, foi o que fiz. Já estava em stresse porque não queria olhar para trás para não dar parte fraca. “Não podes baixar dos 9m45s’” – marca que tínhamos estipulado –, dizia-me, mas eu tanto fazia 9m53s’, como 9m40s’. E quando íamos para os 30 quilómetros, Hang Yin ficou para trás. A partir daí, quase que desliguei do mundo e ia muito concentrada para não cometer erros. O mais duro foram os últimos quatro quilómetros. Já estava a ficar muito débil em termos musculares, mas a verdade é que eu não queria apenas bater o recorde do mundo, queria fazer menos do que 4h06m, que era o tempo que a IAAF [Federação Internacional de Associações de Atletismo] tinha pedido inicialmente.

 O que sentiu quando chegou?

Quando faltava um quilómetro pensei: “Será que vou chegar lá?” Senti uma ansiedade muito grande ao ver o meu objectivo tão perto. Depois, nos últimos 200 metros, foi uma sensação fantástica ver toda a gente a aplaudir-me. O mundo inteiro estava comigo. Lembro-me de ir ao público buscar uma bandeira. Queria esticá-la, mas já não tinha força, por isso levei-a na mão. Ainda não tenho a noção do que conquistei. É algo fabuloso! Foi, sem dúvida, uma conquista minha e do meu treinador ao fim destes 25 anos de trabalho conjunto, e uma vitória de Rio Maior e de todos os que trabalham comigo. Todos fazem parte desta medalha, inclusive o Complexo Desportivo de Rio Maior, porque só consigo ser a atleta que sou porque tenho todas as condições e infra-estruturas para treinar ao mais elevado nível (ver “Complexo desportivo recebe atletas de todo o mundo”).

 Qual o panorama da disciplina da marcha actualmente em Portugal?

Estamos a passar por uma crise em termos de novos valores. Temos alguns jovens, mas ainda são muito novos. Isso resulta do facto de haver apenas dois treinadores em Portugal que investem na marcha, o Jorge Miguel e o Paulo Murta, pois se as camadas jovens fizessem todas as disciplinas do atletismo haveria mais hipóteses de aparecer alguém que gostasse da marcha e que quisesse evoluir. Por outro lado, também a Federação [Portuguesa de Atletismo] deveria motivar mais estes jovens e dar-lhes mais oportunidades.

Poderemos esperar ver a Inês Henriques como treinadora?

O Jorge Miguel quer que eu continue o trabalho dele, mas eu também gosto da área da recuperação física dos atletas. Aliás, já vou dando apoio no complexo desportivo e já fiz a dupla função de atleta e massagista. Vamos ver o que o futuro reserva.

 

Curtas

Objectivo profissional: Ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio e terminar a carreira em 2021 no Grande Prémio de Rio Maior

Objectivo pessoal: Ser mãe

Atleta feminina: Naíde Gomes e Susana Feitor

Atleta masculino: Nelson Évora

Sapatilhas ideais: Da Adidas

Local de eleição para treinar: Rio Maior

Local onde mais gostou de competir: Saint-Maurice, na Suíça

 

Complexo desportivo recebe atletas de todo o mundo

Perfeitamente integrado na paisagem da cidade, o Complexo Desportivo de Rio Maior permite distâncias de deslocação mínimas entre todos os equipamentos que disponibiliza aos atletas que ali chegam de todo o mundo.

O Centro de Estágios e Formação Desportiva dispõe de duas alas independentes de alojamento com vários quartos, refeições preparadas por profissionais qualificados, tendo em conta as especificidades de alimentação de cada equipa em estágio.

Os serviços contam com o apoio de especialistas em Medicina Desportiva, fisioterapeuta e massagistas, que trabalham com a mais recente tecnologia de terapia e recuperação.

O Centro dispõe também de uma zona de recuperação com ginásio, jacuzzi, sauna, banho turco e área para tratamentos de crioterapia, um auditório multimédia com capacidade para 90 pessoas, salas de reuniões e salas de equipamentos.

O complexo integra igualmente o estádio municipal de Rio Maior, uma pista envolvente, vários relvados de treino certificados pela FIFA e ainda um parque desportivo, um pavilhão polidesportivo e uma piscina olímpica.