Inês Marques: 24 anos no mundo, 18 no atletismo

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Inês Marques queria começar a correr antes de lhe ser permitido. Aos 6 anos, um clube da Torre da Marinha admitiu-a e assim conheceu o cheiro do tartan. Dezoito anos depois, a atleta desencantou do corpo franzino a melhor prestação feminina nacional do Campeonato do Mundo de Trail.

T: Rute Barbedo  F: Celestino Santos

 

Dizem de Inês Marques que é muito organizada, disciplinada, concentrada. Dizem o mesmo dos atletas de alta competição. É daqui que Inês vem: das pistas, dos treinos de horários rígidos, de correr pela camisola do clube, neste caso, o Independente Futebol Clube Torrense, onde tudo começou. Aos 24 anos, depois de centenas de competições de 200, 400 e 600 metros planos, foi a melhor portuguesa no sobe e desce do Campeonato do Mundo de Trail (32.ª no sector feminino e 125.ª da classificação geral, com o tempo de 5h54m56s), a 10 de Junho, em Itália. E isto são apenas os primeiros anos no trail e os primeiros passos na ultra-distância. A preparação para os 49 km na Toscânia (com 2700 metros de desnível acumulado) foram os 40 km de Vila de Rei (etapa do Território Circuito Centro). Fora isso, as competições variavam entre 10 e 30 km.

“Quero continuar a correr até ser velhinha”, diz Inês, por isso, “estar já a aumentar a distância talvez seja um passo maior do que o que deveria”. Mais uma característica da também mestranda em Ciências Atuariais: a prudência. “Sempre tive muito cuidado com as quantidades. Muitas pessoas aliciavam-me para experimentar provas longas e eu sempre fiquei ali nos 20, 30 km”, relata à RUNning. Arriscou tudo no Campeonato do Mundo, que ainda assim se distinguiu, este ano, pela brevidade do trajecto. Fossem os mais de 80 km do ano anterior, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, e provavelmente não teríamos esta história para contar.

Mas a história também tem percalços. Apesar do feito, Inês Marques regressou de Itália de cabisbaixo. “Não tinha noção do nível a que se corre num mundial de trail. Numa prova de pista, por exemplo, sabemos mais ou menos os tempos dos adversários por antecipação. E a minha prestação poderia ter sido bastante melhor, principalmente na gestão do esforço e na alimentação”, lamenta, entretanto já refeita e recuperada. Além da prudência e da disciplina, Inês Marques tem outro nome do meio: exigência.

Depois de uma recuperação lenta e inédita em 18 anos de atletismo, a atleta seixalense já consegue colocar Itália na lista das experiências de vida. Guarda a imagem de uma fotografia que lhe tiraram junto à meta: “Sou eu com um ramo de flores, que simboliza todo aquele momento e o apoio da minha família”, o seu grande pilar, pessoal e desportivo, já que mãe, pai e irmão também são praticantes de corrida e de outras modalidades.

  O que vem a seguir?

Grande parte da vida atlética de Inês Marques, que começou aos 6 anos, foi dedicada à pista e à estrada. Conheceu o trail fora da terra e da gravilha – os Urban Trail marcaram a sua estreia no segmento, dando-lhe reconhecimento imediato, com as vitórias em Lisboa e em Lyon. Mas a floresta, os declives e a serra gritaram mais alto. “Sempre gostei do contacto com a natureza. Depois, mesmo quando era mais nova, a minha prova preferida eram os 3000 metros obstáculos e, nas provas de estrada, gostava daquelas com mais subidas”, explica. “Foi um pouco isso que me fez experimentar o trail”, conclui a atleta sobre o mundo que a fez descobrir uma nova Inês: a resiliente.

Não é por isso que Inês Marques abandonou a estrada – “são as minhas bases” – mas é no trail que se quer focar. A decisão está tomada. E esta é uma fase de decisões. Concluído o ano lectivo e, com ele, as duas vezes por semana em que dava aulas no Instituto Superior de Engenharia e Gestão, em Lisboa, vem a procura de um emprego estável, ligado à área de que mais gosta: a Matemática.

A concretizarem-se os planos, daqui a algum tempo, veremos Inês Marques passear-se de pasta ao ombro, livro debaixo do braço e lápis na mão, vinda de uma companhia de seguros. É ali que quer crescer, profissionalmente, mas sempre com um segredo na mochila: o equipamento de trail, pronto a gastar-se por esses trilhos. “Espero que a corrida faça sempre parte da minha vida”, afirma.

 

Cronologia de uma atleta

  •  Federou-se aos 6 anos, quando competia pelo Independente Futebol Clube Torrense (Torre da Marinha)
  •  Ganhou várias provas do circuito Urban Trail, em Portugal e em França, em 2014
  •  Alcançou o segundo lugar na Marató Pirineu (na Salomon Ultra Pirineu), no ano passado
  •  Ganhou a etapa de Vila de Rei do Território Circuito Centro, em Março
  •  Venceu os 50 km do Ultra Trail Geira Romana, em Abril
  •  Foi a melhor portuguesa da Selecção Nacional de Trail, no Campeonato do Mundo, a 10 de Junho, em Itália
  •  Corre pelo clube U.F. Comércio e Indústria Atletismo
  •  Está a concluir o mestrado em Ciências Atuariais

 

Na primeira pessoa

“Toda a gente sonha fazer provas internacionais, como o Ultra Trail du Mont-Blanc. Este ano, vou a Mont-Blanc fazer o OCC, de 50 km”

“Sempre fui boa aluna e gostei de estudar. Matemática e Educação Física eram as minhas disciplinas preferidas”

“A corrida é um escape. Passo muitas horas sentada a estudar”

“Gostava que um dia houvesse a possibilidade de se ser profissional no trail”

“Sempre tive o desejo de praticar triatlo [como o pai], mas a natação é o meu handicap”

“No primeiro ano de faculdade pensei em desistir da corrida. Chegava a despender quatro horas por dia em transportes, entre o Seixal e Lisboa. Ainda parei umas semanas, mas depois percebi que não conseguia viver sem correr”

“Nunca fui muito nervosa para os exames. Às vezes, ia mais nervosa para uma prova de atletismo”