Inês Marques e Hélio Fumo relatam a experiência no Campeonato do Mundo de Trail

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Apenas três dias depois de participarem no Campeonato de Mundo de Trail, em Itália, Hélio Fumo e Inês Marques, os atletas da selecção nacional de trail melhor classificados nesta competição, em masculinos e femininos, respectivamente, reflectem sobre esta experiência. À RUNning contaram como é que se prepararam para dar o melhor de si em 50 km, como é que ultrapassaram cada desafio imposto pela “floresta sagrada” e relataram o ambiente de festa que se viveu entre a comitiva portuguesa.

Por Vanessa Pais

 

Atendendo ao andar do Hélio [na zona do Cais do Sodré, em Lisboa, onde nos encontrámos com os atletas, a exigência dos 50 km com 3000 metros de desnível positivo da prova ainda era visível a cada passo], imaginamos que a experiência tenha sido… intensa?

Hélio Fumo (HF): [risos] O objectivo não foi totalmente cumprido, mas retirei algumas aprendizagens importantes. Talvez pudesse ter arriscado mais porque era uma prova de 50 km e não de 80 ou 90. Tive algumas cãibras, mas é normal, com a intensidade que se impõe numa prova como esta, que o corpo dê de si e isso aconteceu. Mas durante a preparação tentei antever o que poderia acontecer e já estava à espera, por isso, nos momentos de pânico tentei resolver da melhor forma. Os últimos 15 km foram os mais complicados. Tive de parar e receber uma massagem do nosso osteopata, o Carlos. No final, foi frustrante ficar a 55 segundos de entrar no top ten. Mas não posso ser mal-agradecido, porque comparativamente com o ano passado, o resultado foi positivo e deixou-me com mais vontade de trabalhar.

“O objectivo não foi totalmente cumprido, mas retirei algumas aprendizagens importantes.” Hélio Fumo

Inês Marques (IM): A minha prestação ficou um pouco aquém das minhas expectativas, não no que diz respeito à classificação, mas porque não tinha noção do nível a que se iria competir. Embora soubesse que se iria correr rápido não tinha a noção de quantas pessoas estavam lá a valer muito mais do que eu. Fiquei um pouco triste com a forma como geri a prova. Tinha como estratégia controlar-me até aos 25 km, até à barragem, porque sabia que a segunda parte iria ser muito mais difícil pelo desnível e pelo cansaço acumulado. Cheguei bem à barragem, mas depois não sei o que aconteceu, cansei-me muito nas subidas ingremes e senti dores de barriga. Quebrei bastante, mas também foi uma aprendizagem. Foi a terceira vez que fiz 50 km.

HF: [Sobre a prestação da Inês] Também poderia ter cedido à pressão de estar correr pela primeira vez pela selecção e não cedeu.

IM: Sim, até estava demasiado calma.

HF: Tinhas lá os teus pais.

IM: Sim, é verdade [sorri].

“A minha prestação ficou um pouco aquém das minhas expectativas, não no que diz respeito à classificação, mas porque não tinha noção do nível a que se iria competir.” Inês Marques

A prova foi apenas o culminar de meses de trabalho. Como é que prepararam a vossa participação individual?

IM: O treino que fiz para a prova de Vila de Rei [na qual garantiu o lugar na selecção] já foi uma preparação. Depois foi sempre com a ajuda do Hélio. Aumentámos muito o volume de treinos semanal e treinamos pelo menos 22 dias juntos, o que foi uma bela jornada. Tivemos a ajuda do Rui Agapito na parte do trabalho de força e de reforço muscular. E também tivemos os conselhos do Miguel Reis e Silva [médico da selecção], que nos orientou quando estivemos na sala de treino em altitude do Jamor. Também houve uma preocupação com a alimentação. Acabaram-se os snacks, principalmente as bolachas à noite [risos] e isso fez diferença.

HF: O trabalho começou com mudanças drásticas aquando da preparação para a Transgrancanária [o atleta classificou-se em 2.º lugar na distância de 80 km desta competição do Ultra-Trail World Tour, em Fevereiro]. Foram alterações efectuadas com a ajuda do Rui [Agapito] que passaram, por exemplo, por eliminar o trabalho de força e focar mais o reforço muscular, do core, mais direccionado para o esforço exigido pela prova.

Como foi o desafio de, no caso da Inês, habituada a distâncias na casa dos 20 quilómetros, aumentar a distância; e, no caso do Hélio, mais focado nas distâncias de 80, 90 quilómetros, diminuir esse número?

IM: No início foi difícil, porque comecei a sentir-me muito cansada, mas depois de Vila de Rei o corpo foi-se habituando e já não pareciam tantos quilómetros. Fizemos também uma preparação específica, com séries e rampas, mas foi o aumento dos quilómetros semanais que, no início, causou maior cansaço.

HF: Acabei por manter o treino longo, porque é o mais difícil para mim. Não dei tanta importância ao trabalho curto. No caso da Inês, o foco foi o trabalho longo, mas o longo para ela são os 50 km. Por isso, fizemos muito trabalho curto específico, mas o treino de corrida foi com mais foco no longo, imprimindo sempre velocidade, sendo que, neste contexto, o trabalho na estrada era o longo/intermédio e o de serra servia para fazer horas.

No que diz respeito à preparação integrados na selecção nacional, como é que descrevem a experiência?

IM: Como foi a primeira participação num campeonato do mundo não sabia muito bem o que esperar em termos de ambiente, de estágio. Mas em geral correu bem, foi uma experiência espectacular. Os dois estágios foram bastante importantes. O de Itália para conhecer o percurso e ter a noção da gestão do esforço; o da Madeira, porque já foi muito perto do mundial, para a aproximação da equipa.

HF: Tivemos um ambiente brutal e muito apoio de toda a equipa, do seleccionador aos técnicos e ao staff, sem esquecer a Associação de Trail Running de Portugal (ATRP). O Rui Pinho, como presidente, soube estar presente. O José Carlos Santos, como seleccionador, soube encontrar e promover sinergias, soube ler as características individuais e criar harmonia.

“Tivemos um ambiente brutal e muito apoio de toda a equipa, do seleccionador aos técnicos e ao staff, sem esquecer a Associação de Trail Running de Portugal (ATRP).” Hélio Fumo

Podemos então dizer que houve uma evolução positiva individual e colectiva por comparação com a participação no campeonato de 2016, no Gerês?

HF: No meu caso foi gerir emoções e expectativas, porque no ano passado as coisas não correram de feição. Isto também resulta de não ter ainda um ano e meio de trail, por isso, ainda tudo é novo. Não queria que corresse tão mal quanto no ano passado. Por isso, esta experiência serviu para rever os treinos e os colegas. A ATRP tem estado a fazer um trabalho brutal. Não nos limitámos a fazer estágios em Portugal, o que foi um trabalho excelente para uma entidade que não é uma federação, mas uma associação. Acredito que os estágios fizeram realmente diferença para os atletas que não se dedicam apenas à modalidade, mas que estudam e trabalham, porque tiveram oportunidade de durante aqueles dias estarem apenas focados na preparação para a prova. Poder reconhecer o percurso em Itália e fazer testes com treinos exigentes, como fizemos, foi muito importante. No final, a familiaridade com o percurso fez toda a diferença para as coisas correrem melhor.

Como é que classificam a organização do campeonato?

IM: Gostei imenso. As cerimónias de abertura e de encerramento foram muito giras, foram cumpridos os horários tanto do evento como das refeições, o que foi muito bom para podermos descansar. No encerramento estavam todos muito animados e mais descontraídos, dançamos e até fizemos o comboio à maneira portuguesa. Foi a Raquel Campos que iniciou o comboio na cerimónia de encerramento [risos]. E havia um ucraniano que fazia uma dança [exemplifica], que não sei como é que tinha força nas pernas. Até os franceses, que eram mais introvertidos, já dançavam e faziam coreografias. Foi muito bom.

Em termos da prova em si, as marcações do percurso estavam muito bem-feitas e tivemos mais postos de abastecimentos do que o previsto devido ao calor.

O evento em si estava bem distribuído pelo dia, com várias provas, sendo que não houve qualquer constrangimento com a participação simultânea. Toda a vila esteve animada. O mais difícil foi o acesso de carro das pessoas aos vários pontos do percurso para acompanhar os atletas. No ano passado fui acompanhar o mundial ao Gerês e era mais fácil fazer esse acompanhamento.

HF: Acho que a organização fez o trabalho de casa, soube ver o que o Carlos Sá fez de bom em Portugal e limaram algumas arestas. O que é de realçar é que se sentia que a vila toda estava no evento. Foi uma grande festa. Sentimo-nos muito em casa. Até o próprio hotel tinha connosco um trato muito familiar.

“No encerramento estavam todos muito animados e mais descontraídos, dançamos e até fizemos o comboio à maneira portuguesa. Foi a Raquel Campos que iniciou o comboio.” Inês Marques

Conseguiram prestar atenção às paisagens durante o percurso? São tão idílicas como as apresentadas nas fotografias de divulgação da prova?

IM: São. É mesmo como dizem, uma floresta sagrada. Havia uma parte em que passámos num ermo onde costumavam estar monges a rezar. 70% do percurso é como mostram os vídeos e as fotografias, com árvores muito grandes. É uma zona bastante húmida e quase sempre corremos à sombra, o que favoreceu todos os atletas, porque estava muito calor. A barragem foi uma zona um pouco diferente, bem como a subida mais ingreme, que fazia uma crista. Dessa parte não há muitas fotografias, porque o acesso de carro era mais difícil.

E como é que estiveram as emoções nos momentos da partida e da chegada?

IM: Dois dias antes da prova já só queria partir, mas acho que consegui controlar o nervosismo. Até arriscaria dizer que, dentro da equipa feminina, era a que aparentava estar mais calma. Os momentos partilhados com a equipa também ajudaram a estar menos nervosa. Se fosse sozinha para uma prova internacional provavelmente estaria mais nervosa do que no ambiente desta prova, no qual tive a possibilidade de partilhar as ansiedades com as minhas companheiras. O facto de os meus pais estarem lá também fez com que estivesse mais descansada. Na chegada emocionei-me. Cortar a meta no mundial era algo que eu nunca tinha pensado quando comecei a praticar trail. Foi muito bom ter toda a gente à minha espera. Gostava de ter desdobrado a bandeira de Portugal, mas disseram-me que era muito grande e que poderia tropeçar e como ia a fugir de uma atleta, achei melhor não o fazer.

HF: Nas semanas antes da prova, exceptuando as pequenas preocupações com a alimentação e com a necessidade de ir descansar um pouco mais cedo do que o normal, sou a pessoa mais descontraída que podes encontrar.

[A Inês diz que não é verdade. Gargalhada geral.]

Acho que a descontracção é a grande diferença do trail para as provas de pista e de estrada. Há cumprimentos e o desejo de boa sorte na partida e o ambiente é espectacular. Depois no final é aquela sensação de felicidade por chegar à meta. Não é o ganhei, é o cheguei à meta, embora, claro, todos tenham objectivos competitivos, porque ninguém vai para um campeonato do mundo brincar. São horas e horas de trabalho.

E este ano choraste [tanto no Campeonato do Mundo de 2016, como em provas como o Estrela Grande Trail, também em 2016, o atleta mostrou-se emocionado no final]?

HF: Por acaso desta vez chorei um bocadinho de raiva e de tristeza [risos]. O Miguel [Reis e Silva] depois chamou-me à razão e disse que havia ali muitos atletas que ficaram à minha frente e atrás de mim, com muito mais anos de preparação. Mas eu quero sempre mais, claro.

O que é que têm planeado para o resto da época?

IM: Quero terminar o Campeonato Nacional de Ultra Trail. Já fiz duas provas e faltam mais duas. Depois tenho o OCC em Chamonix. Já estive lá a apoiar e fiquei muito entusiasmada por poder este ano participar.

HF: Agora vou descansar um bocadinho. Depois tenho o Andorra Ultra Trail, em Julho, e quero fazer outra prova internacional. Quero também ajudar o meu clube – o EDV Viana Trail – nas várias provas que ainda estão previstas este ano. É com o seu apoio que consigo participar nas provas e treinar ao longo do ano.