“Isto já não é sobre desporto adaptado, é sobre atletismo de grande qualidade”

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Em Março de 2016, David Weir voltou a pôr Portugal no mapa dos recordes do mundo. No dia antes da Meia Maratona de Lisboa, o atleta britânico explicou à RUNning como é que o atletismo em cadeira de rodas está a conquistar o seu espaço.

Texto: Inês Melo

Fotos: Celestino Santos

David Weir não é apenas um atleta que dá recordes do mundo a Lisboa – em 2012 (43m41s) e 2016 (42m23s), na distância da meia maratona. É a elite do atletismo em cadeira de rodas. Aos 36 anos, seis medalhas paralímpicas empurram-no para um patamar que é só dele. Cruzámo-nos no Estádio de Honra do Jamor, entre os pingos da chuva de Março, antes da 26.ª Meia Maratona de Lisboa. Reservado, modesto, David é um tipo que adora competir – e que é fantástico naquilo que faz.

Voltamos a encontrá-lo em Lisboa.

É verdade. Acho que já fiz esta prova umas setes vezes e é sempre bom regressar.

Tem um sítio preferido na cidade?

Não costumo sair muito do hotel, porque tento sempre descansar o máximo. Mas houve um ano, depois da prova, em que fui para o Algarve. Estive duas semanas em Monte Gordo.

 Costuma ser muito exigente nas provas que escolhe para competir. Porquê a Meia Maratona de Lisboa?

Porque é o início da temporada. Costuma ser um bom teste para perceber o que fiz durante o Inverno e também para avaliar como os treinos estão a correr – se é preciso fazer mais ou menos. Lisboa é uma boa oportunidade para me “lançar” na nova temporada.

 O atletismo permite-lhe correr em vários sítios do mundo. Como é o panorama do desporto paralímpico?

Na Grã-Bretanha é muito bom. Se fores um atleta nacional, as pessoas conhecem-te. Aliás, depois de Londres 2012 que tem vindo a tornar-se cada vez melhor. No resto do mundo também creio que houve um grande desenvolvimento, especialmente desde que as grandes maratonas passaram a incluir provas em cadeira de rodas: Londres, Boston, Nova Iorque, Berlim, Tóquio… São cidades que começaram a olhar para o atletismo adaptado de outra forma.

Como?

Há mais respeito pelo trabalho que fazemos. Isto já não é sobre desporto adaptado, é sobre atletismo de grande qualidade. Londres foi, em certa medida, um ponto de viragem. Penso que em 2012 as pessoas foram surpreendidas pelo desempenho dos atletas paralímpicos. Foi impressionante ver o número [de espectadores] no estádio.

Foi esse entusiasmo que o motivou a abrir uma escola (Weir Archer Academy) para ajudar a descobrir futuros medalhistas paralímpicos?

A academia era um sonho que já tinha alguns anos, desde Pequim [Jogos de 2008]. O número de praticantes estava a cair cada vez mais, e eu senti que precisava de fazer alguma coisa pela corrida em cadeira de rodas na GB [assim mesmo, abreviado, e com sotaque britânico]. Ainda tivemos alguns jovens a treinar connosco depois de Pequim, mas Londres absorveu a minha vida durante muito tempo… Abri a academia logo depois, em 2013.

Quais são os próximos desafios para o “Weirwolf”?

Vencer no Domingo [risos]! Também quero muito voltar a ganhar a Maratona de Londres [no dia 24 de Abril]. Não venço há quatro anos.

E tem contas para ajustar com a ex-atleta Tanni Grey-Thompson.

Preciso de quebrar esse empate e tornar-me na única pessoa a vencer sete vezes a prova, antes de ficar muito velho [risos]. Seis dias antes vou correr a Maratona da Boston [18 de Abril], por isso vai ser muito difícil. Mas, definitivamente, preciso de voltar a vencer.

Quais são as suas expectativas para os Jogos no Rio?

Será um grande desafio para a organização. Espero – estou a rezar para isso – que seja melhor do que em Londres. Só queremos que o movimento paralímpico melhore cada vez mais. Não queremos voltar para trás, que foi algo que eu já vi acontecer. Espero que absorvam muito do que foi feito em Londres e que respondam às necessidades dos atletas nacionais.

Como imagina a sua vida daqui a dez anos?

A viver em Portugal, no Algarve [risos]? É difícil responder, mas os planos passam por ajudar mais a academia. Também quero manter-me por mais alguns anos na pista e, provavelmente, a fazer provas de estrada. Por isso, vou continuar a vir a Portugal, apoiar o João [Correia]. Sinto que ele não tem assim tanto apoio, e isso precisa de melhorar. Ele pergunta-me todos os anos se posso vir. Também faço isto por ele.

Então e a música?

Ah, right! Os portugueses também gostam de house music, não é? Sempre me interessei por estilos mais underground. É um hobby que tenho há alguns anos: ser DJ. Não tenho muito tempo, mas é uma das minhas paixões. Já estive algumas vezes em Ibiza – depois de 2012 passei lá uma semana a festejar. Quando se tem família e filhos pequenos é difícil, mas quero dedicar-me mais depois da competição.

 

BEST OF

2004 Jogos Paralímpicos, Atenas – prata e bronze

2006 Campeonato do Mundo de Atletismo IPC – ouro (3) e prata

2008 Jogos Paralímpicos, Pequim – ouro (2), prata e bronze

2011 Campeonato do Mundo de Atletismo IPC – ouro (3)

2012 Jogos Paralímpicos – ouro (4)

2015 Campeonato do Mundo Atletismo IPC – prata