Jéssica Augusto: “Força é o que mais tenho”

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Disciplina, abdicação, sacrifício. Jéssica Augusto – 32 anos, 16 de carreira – repete as palavras com determinação, como se não pudesse esquecê-las. São as notas que carrega no corpo de 44 kg quando treina e corre uma maratona. Acabada de conquistar o bronze em Zurique, o próximo grande objectivo é trazer para Portugal uma medalha nos Jogos Olímpicos de 2016.

Texto: Rute Barbedo
Fotografia: Luciano Reis

Dizem que responde a todas as dúvidas e questões que lhe colocam, e publicou recentemente o livro Do Primeiro Quilómetro À Maratona com o intuito de apoiar os principiantes na corrida. É uma atleta com tendência para teorizar, pensar muito sobre o que faz?
Sim, reflicto bastante. Desde o momento em que assumi fazer vida de atleta, foi tudo pensado ao pormenor e está a ser tudo planeado até ao meu grande objectivo de carreira.

Que é…?
Eu gostava e estou a trabalhar para um dia conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos. Acho que é o objectivo de todos os atletas que acordam para ir treinar, que abdicam de estar com a família e com os amigos e de levar uma vida social normal. É para isso que trabalhamos diariamente. Este ano que vem, por exemplo, tenho planeado não fazer nenhuma maratona, para me preparar a 200% para os Jogos.

Quando começou a planificar o seu percurso?
Desde muito cedo aprendi a ter objectivos a longo prazo, já com a minha primeira treinadora, a professora Sameiro Araújo [do Sporting Clube de Braga]. Ela desafia-me e diz: “Vamos traçar um grande objectivo para daqui a três anos, que é uma medalha no Campeonato da Europa Júnior de Corta-Mato…” Nós estipulámos no primeiro ano entrar nas 20 primeiras – fui 12.ª; no segundo ano, entrar nas 10 primeiras – fui oitava; e no terceiro ano, ser medalhada e felizmente venci [ganhou a medalha de Ouro em Malmo, no ano 2000]. Por isso, desde cedo me habituei a traçar objectivos e a acreditar neles. Foi assim que percebi que conseguia conquistar medalhas e que podia sonhar alto.

Fala em abdicar como parte de uma filosofia de disciplina. Como sabe até onde levar esse sacrifício, medir o que compensa?
Compensa sempre se atingirmos o objectivo que traçámos. Para esta última maratona [em Agosto, no Campeonato Europeu de Atletismo], passei semanas e semanas fora de casa [os estágios são de 12 a 14 semanas. Em cada uma, chega-se a correr 200 km]. Fazia três semanas de estágio e vinha uma semana a casa. Temos horários a cumprir, refeições em grupo, trabalho duro. E temos também descanso obrigatório, que é muito importante…

Nunca podemos acordar e dizer: “Não me apetece correr, estou sem vontade ou chateada com alguma coisa que me disseram.” Temos de esquecer tudo, ir felizes e quanto menos pensarmos melhor. Correndo bem, vemos que valeu a pena todo o sacrifício e a disciplina. Mas mesmo que corra mal, faz-se uma análise. Às vezes só corre mal porque aquele não era o dia ou porque os outros foram superiores. Felizmente, neste último campeonato, não foi o caso.

A que se agarrou e agarra numa maratona, para continuar a acreditar?
Agarro-me ao que o meu treinador [António Nogueira da Costa] me diz; aos bons treinos que fiz; à família, quando já vai a doer bastante. E depois há estratégias, para não ser tão doloroso: ir reduzindo as etapas, por exemplo, pensar que uma maratona são duas meias-maratonas; pensar que os últimos minutos são só uma prova de 10 km…

Ou seja, tenta enganar o cérebro em relação à dor.

Sim. Às vezes sentimos uma dor num pé e se formos focados na dor, ela nunca mais passa. E o que eu penso é: “Esta dorzita, daqui a mil metros, passa.” E não é que passa mesmo?

Os próximos Jogos Olímpicos são em 2016. Imaginemos que traz uma medalha para Portugal. Fica sem objectivos?
Não. Preparo-me para o Jogos seguintes. O Carlos Lopes foi campeão com 38 anos. Eu tenho 32. E temos outros exemplos, como a [mais recente] campeã da Europa da Maratona (a francesa Christelle Daunay), que tem 39 anos, e a que ficou atrás dela [Valeria Straneo, de Itália], que tem 38 anos e dois filhos. Na conferência de imprensa, elas disseram que se sentiam com forças e que, enquanto fosse assim, iriam continuar. E eu, força é o que mais tenho.

Se tivesse de entrevistar uma atleta, quem escolheria?
A Paula Radcliffe [recordista do mundo de maratona].

E o que lhe perguntava?
Perguntava-lhe como preparou a maratona em que fez 2h15m – não é para todos –, a outra em que fez 2h17m, a que intensidades treinou, do que teve de abdicar, com quem treinou… Também gostava de lhe perguntar o que é que se passou naqueles Jogos Olímpicos [Atenas, 2004] em que ela parou e desatou a chorar, e que me fez chorar em casa também. Tenho uma série de perguntas para lhe fazer.

Vai fazê-las?
Sim. Um dia em que esteja frente a frente com ela e que eu tenha coragem.

Qual é o grande objectivo de tudo isto, para além das medalhas?
Um dia, vi a Fernanda [Ribeiro] ser campeã olímpica [em 1996, em Atlanta] e foi isso que me levou a querer ser atleta, a dar o primeiro passo, a ter coragem de correr pelo [Sporting Clube de] Braga e a procurar um treinador. Quis estar no lugar dela. Acho que é o que todos os atletas querem.