KILIAN JORNET: “Não gosto de viver no passado. O melhor momento é sempre amanhã”

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Quando correr na montanha é tão essencial como o ar que se respira, o resultado é alguém como Kilian Jornet. O director executivo da International Skyrunning Federation já lhe chamou “Deus na Terra”. A mãe declarou que a sua missão, até agora sem sucesso, seria “fazê-lo ficar cansado”. Mas à RUNning Jornet garantiu que é “apenas alguém que gosta de estar lá fora, nas montanhas.”

 

T: Vanessa Pais   F: Oriol Batista

 

És feliz?

Sim. Fiz uma escolha que foi ter a vida que tenho e isso faz com que seja muito feliz.

Quais as primeiras memórias que tens da montanha?

Eu e a minha família sempre vivemos na montanha, a 2000 metros de altitude, por isso ela faz parte do dia-a-dia. Lembro-me de brincar lá fora com a minha irmã [Naila Jornet Burgada, também ela atleta de esqui de montanha e de skyrunning], mas não tenho uma primeira memória.

O que é que te fez transformar esta paixão pela montanha em prática desportiva e, mais tarde, profissão?

Quando fui para a escola comecei a gostar de participar nas competições. Por volta dos 13 anos entrei para o Centre de Tecnificació d’Esquí de Muntanya de Catalunya (CTEMC), através do qual comecei a participar em competições de esqui de montanha mais a sério e de forma mais organizada.

Quando decidi, aos 17 anos, depois de terminar o ensino secundário, ir viver para Font-Romeu [nos Pirenéus franceses] para continuar a estudar e a poder treinar, a corrida começou a assumir a continuação da competição também na época de verão. Diria que continuar a competir é um modo fácil de ganhar motivação para treinar de forma tão exigente e intensa como tenho de fazer para melhorar o rendimento.

Estavas à espera de ganhar esta importância quase idílica no trail running, que começou por ser um complemento para a época de esqui de montanha?

Não me vejo como um ídolo. Penso que a popularidade veio com a coincidência de ter começado a participar em provas quando a modalidade começou a crescer e a ganhar visibilidade. É óptimo poder inspirar e motivar as pessoas, mas não gosto de pensar muito sobre isso.

Ainda assim é frequente ver-te partilhar experiências nas redes sociais ou através de livros e documentários com um carácter mais educativo ou de consciencialização para temas associados ao desporto, ao ambiente ou a causas solidárias.

Gosto da montanha e da natureza, por isso é normal usar a minha voz activa para transmitir uma mensagem ou falar sobre aquilo com que nos deparamos na prática desportiva.

Para que outros possam estar alerta e/ou saber como ultrapassar maus momentos como o que passaste com o Stéphane Bross [uma quebra de gelo tirou-lhe a vida quando atingiam o maciço central do Mont-Blanc em 2012]?

Não acho que haja maus momentos. Há momentos mais duros, mas que nos permitem ganhar conhecimento, evoluir, aprender. São momentos que nos mostram que as coisas acontecem muito rapidamente e nos fazem questionar o que andamos a fazer, porque é que não fomos nós. Mas depois percebemos que é assim mesmo, que faz parte, e continuamos, eventualmente com mais preocupação ou com uma atitude mais cuidadosa, mas não deixamos de fazer o que gostamos, porque temos os bons momentos e esses acontecem todos os dias. Não gosto muito de viver no passado, por isso, costumo dizer que o melhor momento é sempre amanhã.

Tens medo, quando estás na montanha?

Sim, claro. E é importante referir isso. Apesar de gostar da montanha e de a minha vida ser a montanha, é normal sentir medo. É muito importante reconhecer esse sentimento e utilizá-lo para analisar a situação. Por vezes, é preciso reconhecer que ainda não somos bons o suficiente ou que as condições climatéricas não são propícias. É o medo que nos mantem a salvo e despertos. Se não andávamos todos a atirar-nos em queda-livre de 10 mil metros [risos].

Falemos do teu projecto pessoal “Summits of My Life”. O que aconteceu no Nepal não estava certamente no plano inicial de bater recordes. Que impacto teve essa experiência em ti?

O Nepal foi diferente. Normalmente vamos para um local, preparamos a subida ao cume, subimos, fazemos turismo e vamos embora. Mas quando encontramos um local devastado, com amigos que já viajaram por lá várias vezes e fizeram amigos, quando vês o desespero das pessoas, é impossível não ajudar. Isto desperta-te e faz-te ver que todos nós podemos ajudar alguém de alguma forma em algum momento. Foi isto que aprendemos no Nepal.

E no Evereste, podemos dizer que aprendeste a lidar com a frustração?

O Evereste é um grande projecto, para o qual estou muito motivado e entusiasmado, pela altitude e por saber que vamos ter de responder a questões para as quais não temos resposta. Temos de ir lá para responder a essas questões. Ter de recuar é algo muito comum na montanha, pelo que é importante sabermos esperar pelas condições meteorológicas perfeitas para atingirmos o nosso objectivo.

Por um lado, é uma frustração, sim, porque tudo o que controlas está preparado e não podes tentar atingir o objectivo por uma questão que não controlas; mas, por outro, não o é, porque quando vais tens sempre muitas actividades que te dão imenso prazer. Não conseguimos tentar o cume da última vez, mas fizemos muitas coisas e aprendemos imenso. Nestes projectos sabemos que vamos e que se as condições não estiverem boas não podemos fazer o que estava planeado. É isto que torna as montanhas e este desporto tão atractivos.

 


Após esta entrevista, na madrugada de 22 de Maio, Kilian Jornet cumpriu finalmente o objectivo de subir ao topo do Evereste, pelo lado Norte, desde o Campo Base, a 5100 metros, até aos 8848 metros, de uma só vez, sem oxigénio ou a ajuda de cordas fixas. Foram precisas 26 horas (normalmente as expedições levam quatro dias desde este ponto) para subir e 38 horas para regressar ao Campo Base Avançado, a 6500 metros. Estava estabelecido o recorde, e a RUNning voltou à carga.

À segunda tentativa, a montanha finalmente deu tréguas. Como é que foi completar o desafio de uma vida?

Até aos 7700 metros estava a sentir-me muito bem e tudo corria conforme o previsto, mas a partir desse ponto comecei a sentir-me mal, suponho que devido a um vírus estomacal. A partir daí fui avançando muito lentamente e tive de parar várias vezes para recuperar. Finalmente atingi o cume à meia-noite. Estava sozinho e via as luzes dos frontais das expedições que começavam a subida. Depois comecei a descer para chegar o mais rapidamente possível ao Campo de Base Avançado. Devido à indisposição terminei o desafio aqui em vez de descer ao Campo Base a 5100 metros, como previsto.

Na preparação para esta nova tentativa utilizaste uma técnica a que chamaste “aclimatização express”. Em que consistiu?

Passei duas semanas em Cho Oyu [na cordilheira do Himalaia, 20 km a Oeste do Evereste] a 8200 metros. Em quatro semanas fizemos dois cumes de 8000 metros. Estivemos a treinar em hipoxia umas semanas antes e fomos fazer a aclimatização aos Alpes antes de vir. Este tipo de aclimatização express parece funcionar e o corpo cansa-se menos, pelo que chegamos mais fortes ao dia do desafio.

O Evereste passo a passo

Campo Base (5100 metros) > Campo Base Avançado (6500 metros): 4h35m

Descanso de 2h no Campo Base Avançado

Campo Base Avançado (6500 metros) > Cume (8848 metros): 26h (Descanso de 15 minutos no Campo 3 da subida e de 1 hora na descida)

Campo base (5100 metros) > Cume (8848 metros) > Campo de Base Avançado (6500 metros): 38h


 

Por falar em recordes, o norte-americano Jim Walmsley acabou de passar para o topo da lista da International Trail Running Association. Isso desperta algum sentimento em ti?

Não percebo muito bem este tipo de classificações. Noutros desportos, como o esqui de montanha, todos os atletas competem juntos, por isso, há uma competição real. Na corrida, principalmente no ultra trail, não há grandes corridas em que todos os atletas compitam juntos. Cada um participa numa prova diferente, por isso, normalmente não temos os atletas de topo a competir uns contra os outros.

Mas este ano teremos a oportunidade de ver os grandes nomes do ultra trail a competir no Mont-Blanc, uma prova que vai integrar a tua época de verão, num regresso às clássicas, como a Hardrock ou a Ultra Pririneu. O que te motivou a voltar a estas provas?

Não tenho participado em muitas competições nos últimos anos, porque a época coincide com a melhor altura para o desenvolvimento do projecto “Summits of My Life”, mas este ano, depois de uma época exigente de esqui, vou poder voltar a algumas de que gosto muito. Estou, por isso, ansioso pelo Mont-Blanc, porque me vai permitir rever amigos como o Miguel Heras, o Tòfol Castanyer, o Luis Alberto Hernando ou o François D’Haene.

Uma época exigente de inverno seguida de uma época de verão igualmente exigente só é possível com o apoio da família, dos amigos e de alguém como a Emelie Forsberg [Kilian e a atleta sueca de esqui de montanha e skyrunning namoram há cinco anos]?

Quando se é criança dependemos muito dos pais, do estilo de vida para o qual nos conduzem. Mais tarde tudo depende das nossas escolhas, daquilo que decidimos fazer, de quem são os nossos amigos e parceiros. É muito bonito ver hoje que as pessoas à minha volta estão em perfeita sintonia comigo e que posso partilhar o mesmo tipo de experiências com a Emelie. Temos de estar com alguém que nos perceba.

Como é que te vês daqui a muitos anos?

Sei que já não vou conseguir correr na montanha, mas poderei caminhar ou continuar a ter esta ligação partilhando a minha experiência e conhecimento. Admiro muito as pessoas que com 60, 70 anos continuam a sair para a montanha todos os fins-de-semana. É muito inspirador ver o seu entusiasmo e é assim que quero ser.

E como gostarias de ser recordado?

Não sei se quero ser recordado [risos]. Faço as coisas porque gosto e penso que não devemos fazer as coisas pelos outros, mas por nós.

 

  • 58-59 kg | 1,71 m | FC max: 205 | FC repouso: 34 | VO2 max: 85-90 ml/min/kg | Gordura: 8% | Capacidade pulmonar: 5,3 litros | Horas diárias de sono: 8
  • Nasceu a 27 de Outubro de 1987, em Sabadell, Espanha
  • Cresceu no refúgio de Cap de Rec, nos Pirenéus
  • É nómada e vive entre Font-Romeu, nos Pirenéus franceses, Tromsø, na Noruega, e Chamonix, nos Alpes franceses.
  • Escalou o Tuc de Molières, a 3000 metros, nos Pirenéus, aos 3 anos; aos 4 o Aneto, o pico mais alto dos Pirenéus, a 3404 metros. Aos 6 anos escalou o Breithorn, a 4164 metros, na Suíça.
  • Estreou-se no esqui de montanha em 1999 e completou a sua primeira prova no ano seguinte, a La Molina, em Espanha.
  • Sagrou-se campeão do mundo de Skyrunning em 2007 e 2008; venceu a Taça do Mundo de Skyrunning em 2008, 2009, 2012 e 2013; foi tricampeão europeu (Skyrunning, Ultra Running e Km Vertical) em 2013 e campeão europeu de Skyrunning em 2008 e 2011; ganhou a Taça do Mundo de Ultra Running em 2012 e 2013; e a Taça do Mundo de Km Vertical em 2015, 2016 e 2017.
  • Já venceu, entre outras competições, o Ultra Trail du Mont-Blanc (2008, 2009 e 2011), o Grand Raid de la Réunion (2010 e 2012), o The North Face 100 (2011), o Western States Endurance Run (2011), a Transvulcania (2013), a Zegama-Aizkorri (2013, 2014 e 2016), a Marathon du Mont Blanc (2013), o Dolomites Vertical Kilometer e o Dolomites SkyRace (2013), a Hardrock Hundred Mile Endurance Run (2014, 2015 e 2016) e a Ultra Pirineu (2015).
  • Em 2013 estabeleceu o recorde de subida (5h23m50s) e de subida e descida (7h14m00s) do Kilimanjaro.
  • No âmbito do projecto “Summits of My Life” bateu o recorde de travessia do Mont-Blanc (8h42m) a 4810 metros, em 2012; de subida do Mont-Blanc (4h57m), a 4810 metros, em 2013; de subida da Matterhorn (2h52m), a 4478 metros, também em 2013; de subida do McKinley (11h48m), a 6186 metros, em 2014; de subida do Aconcagua (12h49m), a 6695 metros, em 2014; e de subida do Evereste (26 horas), a 8848 metros, em 2017.
  • Alguns destes feitos foram acompanhados pelos documentários “Summits of My Life – A Fine Line (2012)”; “Summits of My Life – Déjame Vivir (2014)”; e “Summits of My Life – Langtang (2015)”.
  • Publicou dois livros: Correr ou Morrer, em 2011; e A Barreira Invisível, em 2013.´

  • > Acordo às 7h00
  • > Tomo um pequeno-almoço ligeiro
  • > Saio para um primeiro treino que pode durar entre duas e quatro horas, que consiste em esquiar, se for inverno, ou correr, se estivermos na época de verão.
  • > Volto para casa e almoço normalmente um prato de massa, arroz ou algo do género.
  • > Depois da refeição trabalho um pouco, respondendo a e-mails ou no desenvolvimento de algum projecto em curso.
  • > À tarde faço o segundo treino do dia, que consiste numa hora de corrida, excepto se o treino da manhã tiver sido longo (mais de seis horas), nesse caso não faço o segundo treino e aproveito para descansar.
  • > Quando volto para casa trabalho mais um pouco.
  • > Segue-se o jantar.
  • > No final do dia aproveito para relaxar, por exemplo, através da leitura.
  • > Siga o Kilian no Strava: https://www.strava.com/pros/5452411

Um ídolo: “Não sou um fanático, mas diria Stéphane Bross, porque foi ele que me motivou quando comecei a dar os primeiros passos neste desporto.”

Um livro: “Qualquer um de Milan Kundera.”

Um filme: “Dersou Ouzala”, de Akira Kurosawa.

Um prato: “Gosto de comida italiana. Qualquer uma! [risos]”

Uma música: “Nina de Miraguano. Gosto de diferentes tipos de música, de Led Zeppelin a Bach e Tchaikovsky.”

Um dia perfeito: “Não dormir. Estar o dia todo fora. Esquiar de manhã, subir um bom cume e ver o sol a nascer lá. Descer e sair para uma corrida longa à tarde. Estar na montanha com amigos e no final do dia continuar em movimento.”

Amor: “Por todas as pessoas com quem partilho a vida, a Emelie, os meus amigos e a família. Pelas pessoas.”

Montanha: “É a vida. É onde sou.”

Corrida: “A forma mais rápida de nos transportarmos.”

Uma viagem: “A regiões como o Alasca ou o Norte da Rússia. Algo relacionado com a natureza e com a solidão do ser humano.”

Uma competição: “Zegama, porque faz parte do meu início e da história da competição também. É uma prova que adoro por tudo.”

Kilian Jornet: “Apenas alguém que gosta de estar lá fora nas montanhas.”

Depois do Evereste: “Há muitas montanhas. Quando planeias um cume descobres muitos outros que deixas para trás, mas aos quais queres ir. É muito difícil decidir a qual queremos ir. A lista de sonhos está sempre a crescer.”

 

 

O equipamento

  • de Kilian Jornet