Luis Fernandes “Os resultados vêm por acréscimo”

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Luis Fernandes

Aos 29 anos, o madeirense Luís Fernandes soma desfechos invejáveis no trail e no skyrunning. Todos lhe saíram do corpo, dos treinos longos e da exigência militar. Em Agosto, termina o contrato com o Exército Português e, porque “o desporto não é fácil em Portugal”, o futuro na modalidade é um grande ponto de interrogação.

 

Texto: Rute Barbedo

 

Tens dito que a vitória no MIUT [Madeira Island Ultra Trail], em 2015, foi o teu ponto de viragem no trail. Porquê?

Foi a minha segunda prova de 85 km, e a primeira não tinha corrido lá muito bem. O facto de ter ganhado uma corrida com algum nome e alguma dimensão deu-me outra confiança. E foi um grande reconhecimento a nível internacional.

Qual é o factor que mais contribui para que te sintas melhor nas grandes distâncias?

São percursos mais longos, que não obrigam a um ritmo inicial muito intenso. Mas quando chegamos a meio de uma prova de 100 quilómetros, é preciso ter uma boa cabeça, saber gerir, e eu tenho-me dado muito bem com isso. Por exemplo, entre fazer novamente o Epic BUFF [BUFF Epic Trail Ultraskymarathon, que determina os campeões do mundo de skyrunning e onde Luís Fernandes alcançou o oitavo lugar em Julho deste ano] ou a prova do Campeonato do Mundo de Trail [que decorreu em Outubro, no Parque Nacional da Peneda-Gerês], prefiro fazer a primeira, porque o Mundial torna-se uma prova muito rápida. Eu estou habituado a treinar na orografia cá da ilha [da Madeira, de onde é natural] e o meu corpo está preparado para subidas e descidas mais íngremes, e também mais técnicas.

Foste o quarto português a cortar a meta do Campeonato do Mundo. O resultado foi satisfatório?

Não foi. Nós estávamos ali para tentar um pódio para a equipa portuguesa e eu achava que tínhamos capacidades para isso. Não correu da melhor forma e foi uma prova diferente, porque pensámos mais por equipa do que individualmente. Eu ia com o Jérôme [Rodrigues], mas a uma dada altura ele foi ficando para trás e eu tentei progredir. Na última subida, encontrei o Hélio Fumo, que estava a ter algumas dificuldades, e eu não tive coragem de seguir em frente. Aguardei um bocado… Ou seja, no fundo, não foi aquele tipo de prova com garra do início ao fim, porque estávamos ali em conjunto. O resultado não foi muito mau [quinto lugar por equipas], mas ficámos com um sabor amargo.

O que correu pior? As prestações individuais ou o trabalho de equipa?

São provas longas e nos 85 quilómetros era preciso que uma estrelinha estivesse do nosso lado. Infelizmente isso não aconteceu. Não foi pela prestação de um ou de outro. Mas se esta já está feita, agora é pensar na próxima época.

Pensas prova a prova ou tens objectivos de longo prazo?

O que tento é evoluir ao máximo em cada prova; os resultados vêm por acréscimo. E também temos de ter a humildade de verificar a qualidade dos outros atletas.

Começaste a correr depois de teres entrado para o Exército. Como foi essa fase?

Entrei para o Exército em 2011 e até lá nunca tinha feito nenhuma prova, nem sabia como funcionava. No trail, estreei-me com um segundo lugar e logo ganhei o gosto pelas corridas, até porque percebi que tinha algum potencial. Também foi o ano em que começaram a surgir mais corridas de trail na Madeira. Aos poucos, fui tentando melhorar e, em 2014, conseguir ganhar os 85 km do MIUT; a seguir fiz os 109 km do UTAX [Ultra Trail Aldeias do Xisto] e fiquei em segundo. Comecei então a fazer provas lá fora, como a [Salomon] Ultra Pirineu ou, este ano, o Campeonato do Mundo [de Skyrunning].

E o objectivo de entrar para o Exército? Era antigo?

Andava a pensar em ir para as forças de segurança, mas acabei por entrar para o Exército e hoje sou militar contratado, até ao final de Agosto (o máximo que podemos cá ficar são seis anos). Agora vamos lá ver como será o meu percurso. Como tenho muito treino físico, é um trabalho que dá para conciliar bem com esta actividade extra [da corrida]. Mas para o ano será muito complicado continuar.

Estás a dizer que poderás deixar de correr?

Eu sei que nestes dez meses vou competir. Mas a partir daí, surgindo outro trabalho, dificilmente dará para dar continuidade ao que tenho vindo a fazer. Estar a correr ao nível que estou… Por exemplo, no Epic BUFF fiquei em oitavo lugar e dificilmente os que ficaram à minha frente não tinham empregos flexíveis.

Nem sempre é assim; muitos atletas têm um horário regular de trabalho. Dos membros da selecção de trail, por exemplo, eras o elemento que treinava mais horas. Não equacionas a hipótese de um novo método de treino?

Com um trabalho até às seis ou sete da tarde, todos os dias, o mais difícil é a parte psicológica. O problema disto, às vezes, nem é chegar a um bom resultado, mas manter a competitividade lá em cima.

Apenas te interessa manter no trail se continuares no alto nível?

Mesmo não tendo a parte competitiva, o trail continua a ter piada. Aliás, agora fala-se muito em provas com prémios monetários, que é algo com que eu não concordo, porque assim perde-se o espírito da montanha. Mas o desporto em Portugal não é fácil, e portanto tenho de pensar no meu futuro e tentar estabilizar a minha vida.

Foi o trail que tornou mais próximo da natureza ou já eras uma pessoa da montanha?

A montanha foi sempre algo de que gostei. É uma zona de conforto. Faço os meus treinos sempre sozinho, com aquela curiosidade dos locais que encontramos, a calma que temos, no meio da natureza. Já fazia caminhadas e tive carta de caçador. Mas o trail ainda me cativou mais porque conseguimos conhecer zonas enormes em menos tempo. Atravessar a ilha de uma ponta à outra era algo que nunca me tinha passado pela cabeça. Ter este mar, a vegetação, passar por tudo completamente verde, a parte entre os picos, a parte em que chove… Tudo isto me fascina bastante.

 

Antes da corrida

Nasceu em Jardim da Serra, na Madeira, a 25 de Março de 1987

Começou a praticar Muay Thai aos 23 anos

Aos 24 anos entrou para o Exército Português

Aos 25 anos, estreou-se no trail