Luis Landa: “Em Espanha são os atletas nacionalizados que salvam o meio fundo e o fundo”

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Por: Rute Barbedo

É um dos convidados do Congresso Internacional da Corrida, que acontece em Lisboa a 3 e 4 de Dezembro. No mundo de Luis Miguel Landa – campeão da maratona em Espanha há 43 anos, seleccionador de atletismo, referência da corrida de fundo e meio fundo – cabem a disciplina, a infância em que as brincadeiras eram treino, a travessia do desporto pelo franquismo. Nele, é possível vencer os africanos, porque o músculo mais forte chama-se “mentalidade”.

Vamos até 1973, quando foi campeão da maratona. Como se vivia o atletismo?

A maratona passava despercebida. Participávamos entre 15 e 40 atletas e apenas chegava, em termos de repercussão, ao Campeonato de Espanha. O atletismo era um desporto que se praticava nas escolas, na universidade e por pouca gente do mundo profissional.

Reflexos do franquismo?

O regime via no desporto apenas um escaparate. O futebol era importante; o resto, só se houvesse algum êxito. Por exemplo: todos os anos, o regime oferecia três prémios ao desporto da Frente de Juventudes, ao universitário e ao profissional. Chamavam-se “El Víctor”, e eram um diploma e uma medalha com um escudo da vitória de Franco. Houve um ano em que “El Víctor” de ouro foi dado ao governador civil de Zaragoza, que não sei que méritos teve; o de prata foi para o reitor da Universidad Complutense de Madrid, que fez alguns campos desportivos; e o de bronze foi para mim, porque ganhei todas as corridas universitárias em que participei. Era assim que tratavam os desportistas.

Nessa altura, correr era uma forma de “fazer” liberdade?

No atletismo de fundo, para correr reuníamos um grupo de amigos com quem treinávamos. Na pista falávamos de ecologia, de contestação, do que significava a repressão, da definição de liberdade. Em Espanha, os fundistas foram bastante progressistas.

Espanha mudou, o tempo passou e Luis Miguel Landa tornou-se treinador. Era um objectivo de longo prazo?

Tudo começou de uma maneira natural. Quando eu treinava, havia atletas que vinham correr comigo e faziam o mesmo do que eu. Em 1968, tornei-me professor de Educação Física. Então comecei a treinar pessoas, sabendo o que fazia. Em 1969, fui treinador da Selecção de Ski de Fundo.

Sempre deu preferência às longas distâncias, tanto enquanto atleta como no papel de treinador?

Sempre fui fundista, apesar de ter começado a correr no meio fundo. Com os esquiadores de fundo, em 1972, passei a ser seleccionador e responsável pelos treinos. Estive lá até 1983, ano em que a Federação Espanhola de Atletismo me quis como responsável pelo fundo, em pista e em estrada. Aqui, tanto treinei meio fundistas como fundistas – sempre com a palavra fundo pelo meio.

É autor de oito livros relacionados com o atletismo. Um treinador deve também ser um teórico?

Um treinador deve ter o máximo de conhecimentos. Sempre digo que quantos mais conhecimentos temos, mais se pode ajudar o atleta. São necessárias duas qualidades: saber aplicar os conhecimentos e saber plasmar a ciência no papel.

Como se aprende atletismo pelos livros?

Hoje há muitas maneiras de aprender, não só através de livros, como de revistas e de material audiovisual. O problema é saber aplicar os conhecimentos adquiridos. Como já referi, o treinador deve ser dinâmico, deve ter boas bases, muitos conhecimentos, intuir, ensaiar, experimentar, criar, investigar, não ter limites.

O tema que trará a Lisboa, ao Congresso Internacional da Corrida, centra-se no papel da força, da flexibilidade, da velocidade e da técnica para um melhor rendimento. Como se abordam estes conceitos fora da pista?

Estas qualidades sempre foram importantes, mas há uns anos podia triunfar um treinador com poucos conhecimentos sobre elas, porque os atletas tinham uma condição física de base muito boa. Desde crianças, estavam o dia inteiro na rua, a brincar, saltar, correr, etc.. Hoje, às crianças que vêm treinar quase é preciso ensinar a andar. Por isso, o treinador que não souber desenvolver estas qualidades estará perdido.

Foi quando conheceu Dong Liu*, hoje sua esposa, que começou a interessar-se mais pela corrida no feminino?

Conheci a Dong em Estugarda, em 1993 [no Mundial de Atletismo em que se sagrou campeã dos 1500 metros, aos 19 anos]. Estava a treinar connosco devido aos problemas que tinha com o seu treinador [o chinês Ma Junren, líder do denominado “exército de Ma”, envolvido este ano numa polémica motivada pela denúncia do recurso a doping em competições internacionais]. Ela tornou-se responsável pelo fundo feminino e tinha grandes atletas. No Mundial de Lisboa, em 2001, Dong Yanmei ficou em quinto lugar com 8m41s Eu sempre treinei mulheres… E o que fiz com a Dong foi passar para um livro [Treino de fundo para mulheres, publicado em 2014 pela Libros Cúpula] como é que elas devem treinar.

As diferenças de treino na mulher e no homem são tantas que se deva reflectir sobre elas especificamente?

É certo que uma mulher que vá correr uma maratona tem de treinar tanto como um homem, mas na aplicação desse treino há algumas diferenças. Dois exemplos: a mulher tem cerca de 25% menos de volume máximo de oxigénio do que o homem, o que vai corresponder a uma diferença substancial no treino de resistência; e o homem alcança o seu máximo de força entre os 26 e os 28 anos, enquanto a mulher atinge-o entre os 23 e os 25, logo há que ter em conta esta diferença no treino da força. Há muitos treinadores que treinam mulheres como treinariam um homem de uma categoria mais abaixo. Mas se se agir assim, perdem-se muitos talentos.

Como descreve o estado do atletismo em Espanha, sobretudo ao nível do meio fundo e fundo?

Temos o problema do mundo ocidental: os nossos jovens não querem sacrificar-se, não são partidários de suar, sofrer. Não temos vocações e a isto alia-se o facto de haver menos treinadores, porque não vêem um futuro claro. Salvam-nos, um pouco, os atletas nacionalizados.

Não há novos talentos e inspirações na modalidade?

Não. Os meio fundistas e fundistas que temos hoje não treinam nem metade daquilo que se treinava antes. Gostam de divertir-se e cuidam-se menos. Só nos 1500 metros temos um talento, o David Bustos, mas mesmo assim está condicionado.

Então, para um treinador, trazer medalhas de competições internacionais é cada vez mais um trabalho de resistência?

Nestes últimos anos sim. Mas desde que começaram a controlar os africanos, o nível baixou um pouco e penso que continuará a baixar mais. Os exemplos de Galen Rup e de Evan Jager, bem como os de muitas mulheres, estão a marcar essa mudança, de que se pode ganhar aos africanos.

Última pergunta: como tem afectado o fenómeno do running o desporto profissional?

Beneficia-o. No meu país, alguns dos corredores a que chamamos “populares” acabaram na selecção. Se superarem o problema de crerem que “são os que mais sabem no mundo” e deixarem-se dirigir, podem resultar. O problema é a mentalidade.

 

Luis-Landa

Luis-Landa

Ficha técnica

Tem 74 anos, começados em Valladolid, Espanha

Foi responsável nacional da Federação Espanhola de Atletismo pelo fundo, crosse, maratona e corrida de estrada entre 1983 e 2012

Foi campeão de Espanha da maratona em 1973

Tornou-se seleccionador espanhol de atletismo em 1973

Em 1993, conheceu Dong Liu, atleta chinesa com quem se casou

Em 2006, recebeu o prémio Juseppe Volpi pela sua contribuição para o desenvolvimento do fundo europeu

Em 2014, foi distinguido na categoria “Treinador” pela Federação Europeia de Atletismo

Participou em dez Jogos Olímpicos, desde Munique (1972) ao Rio de Janeiro (2016)

Escreveu sobre o esqui de fundo, o equilíbrio, a maratona, o treino, a corrida de resistência e o treino no feminino. É autor e co-autor de dez publicações.

 

* Na próxima edição, a RUNning entrevista Dong Liu, campeã mundial dos 1500 metros e ex- -atleta do “exército de Ma”.