Manuel Martins: O médico que concretizou o sonho de correr 100 km

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Miguel Quesada Photo - http://miguelquesadaphoto.weebly.com

T: Teresa Mendes F: Miguel Quesada

Depois de se conhecer Manuel Martins percebemos que o facto de ter corrido 100 km, sem ser atleta profissional, é apenas um pequeno exemplo do seu temperamento apaixonado, emotivo e cativante. O médico fisiatra, que nunca levou “um tostão” a qualquer doente, e que agora está proibido de correr, tem no corpo 172 meias maratonas, 36 maratonas, 3 ultra-maratonas e mais de 500 provas acima dos 15 km.

Ainda é difícil para Manuel Martins falar sobre não poder correr mais. Uma fibrilhação auricular, diagnosticada em 2012, já não permite que o faça. “Fui há tempos a Tróia ver os treinos dos Jogos Médicos Nacionais, os quais organizei durante mais de 20 anos, e as lágrimas correram-me pela cara abaixo. Aquela coisa do ‘não podes correr mais’… custa”, diz, emocionado.

Mas, como quem não pode correr, anda, o ano passado fez a maratona de Lisboa a caminhar. “Não posso fazer esforço isométrico. Por isso, andei nas subidas e nas descidas deixei o passo rolar. Apenas queria garantir que conseguia terminar a prova”. Fez melhor. “Só se ouviam ambulâncias a socorrer pessoas estropiadas pelo calor, agarradas às pernas,e eu na boa. O Mário Machado pôs uma cunha para segurar a polícia, para ver se eu conseguia passar antes da reabertura ao trânsito, mas não foi preciso. Cheguei à meta em 5h37m18s’, em 3410.º lugar”, conta à RUNning. Esta mesma perseverança está plasmada no livro Um desejo chamado 100 km, que escreveu após ter conseguido alcançar o seu sonho, em 2004, já com 50 anos e muitas provas nas pernas.

Miguel Quesada Photo - http://miguelquesadaphoto.weebly.comManuel Martins é do tempo em que surgiram as primeiras meias maratonas, na altura mal vistas por pessoas como o Prof. Moniz Pereira. “Atletismo, para aquela gente, era tudo o que fosse pista. Os atletas do Sporting, entre os quais o Carlos Lopes, estavam proibidos de correr provas de estrada, daí ter sido campeão olímpico aos 37 anos. E quem sabe de fisiologia do desporto pergunta o que é que este homem não teria sido aos 27,26 anos…”, revive o especialista em Fisiatria e Medicina Desportiva, que foi chefe de serviço dos Hospitais Civis de Lisboa e assistente convidado da Faculdade de Ciências Médicas.

Se não tivesse ido para a guerra, na Guiné, se calhar não tinha experimentado o prazer da corrida. Quando de lá veio estava mais gordo –“cheguei aos 96 kg” – e com a ajuda de um colega endocrinologista perdeu 27 kg num ano. “O meu alfaiate, o Sr. Silva, que também fazia os fatos para o Vasco Gonçalves e para o Spínola, tirava-me a medida da cintura e cada vez era menor.”

A partir daí, começou a correr e fez a sua primeira aposta: “No ano em que acabar o curso [de Medicina] vou fazer a minha primeira maratona.” E assim foi, em 1979 fez a Maratona de Bordéus, em 3h30m59s, e,quando terminou, “era o homem mais importante do mundo”. “Percebi que não há impossíveis”,salienta, apontando para um dos imensos diplomas pendurados na parede do seu consultório. No ano seguinte correu a de Beja e, depois,começou a frequentar maratonas com regularidade. “Eu nunca fui atleta de competição,mas gostava de correr”, diz a sorrir.

 

Compra umas sapatilhas, um bilhete de avião e voa para a Bélgica

A história dos 100 km nasce espontaneamente, em 1984, na véspera da Maratona de Londres, numa pizzaria, na companhia de José Abreu (ex-atleta do Benfica) e de Luís Horta (ex-presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal) e do seu treinador, António Campos. “Um dia hei-de fazer os 100 km”, lançou para o ar. Vinte anos depois, o desejo foi concretizado. Mas não sem antes ter passado por muitos percalços e “as passas do Algarve”.

Consultou a Internet para encontrar um treinador de ultra-fundo [na altura não havia muitos]. O contemplado foi o francês Bruno Heubi, que lhe enviou online um programa de preparação para cumprir durante 12 semanas. Contratou Luís Horta, o primeiro doutorado em Medicina Desportiva em Portugal, para o plano alimentar; o cardiologista Teles Martins; e ainda a psicóloga Maria dos Anjos. No mesmo ano fez quatro maratonas: a de Lisboa, a Carlos Lopes, a de Sevilha e a de Viena.Nesta última, recorda, “sempre com aquela ideia de que fui comando na Guiné e orientação é comigo [risos], perdi-me. Já ia com 6h30m de corrida e não sabia onde estava”.

Miguel Quesada Photo - http://miguelquesadaphoto.weebly.comApós um ano de treino, a prova na qual se inscreveu, em Viana do Castelo, é cancelada. Mas Manuel Martins não desiste e, “aflito” à procura de provas, descobre o Campeonato do Mundo em Torhout, na Bélgica. A decisão é tomada: compra umas sapatilhas, compra o bilhete de avião “à pressa” e voa para a Bélgica, sozinho, para participar na “Nuit des Flandres”. Os atletas teriam que correr todos juntos até à maratona, entrando depois os atletas dos 100 km num circuito de 9,5 km.

Tudo estava programado. “Tinha de comer uma banana a cada 25 km e beber água a cada 5 km”, enumera. Mas as T-shirts, às quais cortou as mangas, porque faziam 36º C em Lisboa, não estavam adequadas às temperaturas negativas que se faziam sentir na Bélgica.

Com o passar do tempo, as dificuldades foram-se agravando. “Era de noite, o frio era muito e, acerta altura, já nem sabemos o que andamos ali afazer”, confessa. Manuel Martins lembra-se de um senhor numa varanda que o saudava a cada 9,5 km: “Eu agarrava-me àquilo para chegar outra vez à varanda, mas depois, aos 70 km, faço uma lesão e chego completamente roto.”

Como o seu forte nunca foi a orientação, mesmo depois da prova feita, a aventura continuou, perdeu-se e foi parar a um cemitério. Foi “salvo”, quando chorava, completamente extenuado, por umas pessoas que pararam e o levaram para o gimnodesportivo, que, afinal, “ficava mesmo ao virar da esquina”. “Chegado ao quarto, lembro-me de ter tirado os sapatos e de acordar a desfazer-me em água, pensei que ia morrer!”, conta.

Esta não foi a última das suas façanhas. Conheceu o mundo inteiro a correr. Rosa Mota liga-lhe todos os anos no seu aniversário a dizer que “há uma prova de 100 km na lua”, perguntando se ele se quer inscrever.

O médico, que fez parte do grupo que lutou para que houvesse em Portugal a especialidade de Medicina Desportiva e lançou um grupo decorrida no Hospital de Santa Marta, fez também parte de um grupo de forcados. Actualmente é escritor, escultor, joga golfe e colecciona automóveis antigos. Dedica-se também à investigação de literatura, estando, neste momento, a trabalhar na obra de Luiz Pacheco.

 

Os 100 km deviam ser introduzidos nos jogos olímpicos
Manuel Martins não tem dúvidas de que “em termos fisiológicos há uma certa desigualdade de critérios entre velocistas e fundistas”.
Segundo o médico,“um velocista pode correr os 100 metros,os 200 metros, 4 x 100 metros, fazer salto em comprimento e ganhar quatro medalhas. Já o fundista tem apenas os 10 000 metros e a maratona”. Por isso,considera que “os 100 km deviam ser introduzidos como competição nos Jogos Olímpicos”, dando assim “oportunidade aos atletas que tenham
características aeróbicas”.