Mare Dibaba: História de uma campeã nascida no planalto do atletismo

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Mare-Dibaba-CS©

 Na edição com “a melhor elite feminina de sempre”, a etíope Mare Dibaba conseguiu vencer as adversárias de peso da EDP Meia Maratona de Lisboa, a 19 de Março. A RUNning foi saber como se fez Dibaba, do planalto de Sululta à experiência falhada de uma cidadania azerbaijana.

 

T: Rute Barbedo       F:Celestino Santos

 

As apostas recaíam sobre a queniana Vivian Jepkemoi Cheruiyot, campeã olímpica de 5000 metros e vice- -campeã de 10 000 metros, até porque em 26 edições da Meia Maratona de Lisboa, 16 tinham sido dominadas pelo Quénia, no plano feminino. Mesmo Carlos Moia, director da prova, chegou a soprar o nome de Cheruiyot para as voltas da roleta. Mas, na recta final da mítica prova alfacinha, Mare Dibaba, de 27 anos, fez lembrar a todos o que já há muito circula na gíria portuguesa: “Prognósticos, só no final do jogo.” O arranque da atleta junto à meta conferiu-lhe um segundo de avanço em relação a Vivian Cheruiyot e tornou Dibaba na quinta etíope a vencer esta competição, com o tempo de 01h09m43s.

Mare Dibaba tem estado sob os holofotes da modalidade mais antiga da História desde 2015, ano em que, após várias participações em competições internacionais, conseguiu o ouro na maratona do Campeonato Mundial de Atletismo, em Pequim. Foi aí que, no pico de forma, a atleta que começou a dedicar-se à distância de 42,195 quilómetros aos 21 anos, sob o comando do reconhecido treinador Haji Adillo, percebeu que o sonho olímpico poderia estar mais próximo do que esperava. Apostou todas as fichas nos Jogos de 2016, mesmo sabendo que o grau de humidade e a linha ao nível do mar da “cidade maravilhosa” representavam os antípodas dos 2700 metros de altitude do planalto onde cresceu e aprendeu a correr. No entanto, a etíope voltou para casa com o bronze, numa maratona em que a queniana (mais um trago ácido na rivalidade desportiva entre os dois países) Jemima Jelagat Sumgong não deu tréguas às adversárias.

Jemima esteve para correr a Meia Maratona de Lisboa, mas cerca de uma semana antes cancelou a participação. Um ponto a favor para a vitória de Dibaba? É possível. Mas dois dias antes da competição, a maratonista confessava à RUNning que não lhe interessavam as outras atletas. “Estou pronta. Treinei muito para esta corrida e sinto-me bem, portanto, vou dar o meu melhor.”

 

Quem é Dibaba?

Esqueçam-se as indagações sobre eventuais parentescos com a campeã olímpica e recordista mundial dos 5000 metros Tirunesh Dibaba ou com outras Dibaba habituadas a “fazer faísca” no tartan. O apelido é comum na Etiópia, e até na região onde Mare nasceu e cresceu – Sululta –, situada cerca de 30 quilómetros a norte da capital, Adis Abeba. Era neste woreda (divisão administrativa do país) – de onde provém uma larga parte dos atletas da elite etíope (presume-se que pelas condições desencadeadas por altitudes na ordem dos 3000 metros) – que a pequena Mare corria diariamente, conta-nos à mesa de um café, com a ajuda da tradução do seu treinador-adjunto.

“Via muitos estudantes correrem em frente à escola. Portanto, quis correr também”, relata a atleta olímpica. A história-cliché da criança que percorria o trajecto entre casa e a escola primária todos os dias, em passo de corrida, é real para Mare. E foi durante essas viagens que construiu um objectivo de vida. “Às vezes perguntam às crianças o que é que elas querem ser quando forem grandes. Umas querem ser médicas, outras astronautas. Eu queria ser atleta”, explica.

Em paralelo com as condições físicas de Mare e geográficas da região, o sistema etíope está montado de tal forma que é praticamente impossível um talento do atletismo escapar-lhe do radar. Durante os treinos escolares, assim que um estudante mostra resultados acima da média, é muito provável que seja abordado por um das dezenas de clubes de corrida próximos da capital. Foi o que aconteceu a Mare Dibaba, que, aos 15 anos, iniciou a competição em provas regionais de cinco e dez quilómetros e passou a ter direito a calçado de corrida, um pequeno ordenado e treinos especializados.

“Sentia algo dentro de mim que me dizia que tinha de correr”, conta Dibaba. Quando lhe perguntamos se esse sentimento era impulsionado por factores como a religião ou crença (na região da atleta, calcula-se que mais de 94% dos habitantes sejam cristãos ortodoxos), Dibaba balança a cabeça na horizontal. “Não, não há nenhuma relação com a religião, psicologia ou com a minha cultura; é apenas uma vontade pessoal.” Ao mesmo tempo, “a escola não interessava assim tanto”. Matemática e História não eram para ela. Mare queria correr.

 

De Dibaba a Ibrahimova

Aos 18 anos, Mare apanha pela primeira vez um avião em direcção à Europa. Destino: Holanda. Foi correr uma meia maratona; não se recorda exactamente qual, até porque sai com frequência da Etiópia para competições internacionais e o resultado de 2008 não terá sido impressivo.

No ano seguinte, uma comitiva azerbaijana voa em direcção à província de Oromia para observar os métodos de treino dos atletas locais. Detectam Mare Dibaba e vão ter com ela para lhe perguntar o que acha da ideia de competir por um país a cerca de seis mil quilómetros de casa. Sem grandes perguntas, Dibaba respondeu que sim e embarcou para o Azerbaijão desconhecido. “Não tinha nenhuma ideia de como seriam as pessoas de lá, o país ou a cultura, mas decidi ir”, conta.

Mudou o nome para Mare Ibrahimova, correu com as cores e com a cidadania do país, mas os tempos começaram a deteriorar-se e a atleta não se adaptou. Consta que, seis meses depois, quando descobriram que Dibaba já não tinha idade para participar nos Campeonatos Europeus de Juniores, a atleta regressou ao seu país natal.

Foi então que, na equipa do treinador Haji Adillo, começou a dedicar-se ao meio fundo e fundo, uma mudança que fez com que tudo se tornasse “muito confortável, tanto física como mentalmente”. Aos 21 anos, Mare Dibaba estreou-se na maratona (viria a ganhar a sua primeira prova nesta distância em 2014, em Xiamen, na China), o que poderá parecer cedo visto do prisma português, mas “é bastante normal na Etiópia”. A atleta esclarece: “Toda a minha vida andei a correr meias maratonas”, pelo que chegar aos 42 195 metros não seria nada de outro mundo.

Hoje, Dibaba vive em Adis Abeba e treina na região de Oromia (na qual se integra Sululta, onde ainda vivem os pais). O dia 19 de Março marcou a sua primeira competição em Lisboa. Quando a RUNning a questiona sobre o futuro, Mare solta o maior sorriso do dia. “A curto prazo, o próximo objectivo é a Maratona de Londres [a 23 de Abril]; no longo prazo, o objectivo é… correr.”

 

No pódio

Bronze na maratona dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro (Brasil)

Ouro na maratona do Campeonato do Mundo de Atletismo de 2015, em Pequim (China)

Ouro na meia maratona dos Jogos Pan-Africanos de 2011, em Maputo (Moçambique)