Mundiais tristes pela retirada de Bolt, radiosos por Inês Henriques

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T: Luís Lopes, jornalista e comentador de atletismo

Passado um mês e meio sobre a disputa dos Campeonatos Mundiais de Atletismo em Londres (4 a 13 de Agosto), este não poderia deixar de ser o tema desta nossa crónica periódica na RUNning. De facto, sobre os Mundiais poderia escrever-se todo um tratado, embora algumas provas tenham ficado aquém das expectativas. Mas isso acontece sempre, de uma maneira ou de outra. De qualquer modo, foi um certame marcado pela “morte” (despedida, adeus, ausência) e pelo seu contraponto, “nascimento” (novidade, aparição, presença).

Do lado triste fica a despedida de Usain Bolt. O maior fenómeno de sempre na velocidade já tinha dito que poria fim à carreira a seguir aos Mundiais londrinos, mas a maneira como tudo correu ficou longe do ideal e tornou o aparentemente
definitivo “goodbye” francamente triste. Primeiro porque Bolt perdeu nos 100 metros para Justin Gatlin, o que nunca antes tinha acontecido e, parecia, afinal, que nunca iria acontecer. Foi terceiro nessa final, ainda atrás de Christian Coleman. Depois, de forma ainda mais dramática, trazendo o testemunho do quarteto jamaicano dos 4x100m, no último percurso, Bolt lesionou-se e caiu na pista, deixando a Jamaica a zeros e a Grã-Bretanha a fugir para uma vitória mítica, saldada com o recorde da Europa.

A prova, em si, teve todo o drama e espectáculo do mundo, condensados em menos de um minuto, no atletismo no seu melhor, com uma moldura humana fabulosa, mas para Bolt foi amargo. E para os seus admiradores (terá detractores? Alguns nazis, decerto, mas somente), onde obviamente nos incluímos, ficou mesmo um certo sabor de tragédia.

A bela homenagem que lhe foi prestada no dia seguinte, esteticamente perfeita, incluindo a prenda de entrega de uma porção da pista dos Jogos Olímpicos de 2012, acentuou, porém, esta sensação de perda – “perda irremediável” julgamos ser o termo exacto. O atletismo não vai ser o mesmo sem Bolt, isso é certo. Wayde van Niekerk poderá num futuro imediato baixar dos 43 segundos aos 400 metros, e esse será um feito porventura superior a qualquer um dos que foram protagonizados por Usain Bolt. Mas a simpatia deste, a enorme empatia para com todos os públicos, a sucessão de vitórias por um pequeno país que adora o desporto-rei, o facto de as claques da Jamaica terem mais brancos do que negros (e menos jamaicanos do que oriundos de outros países), tudo isto, para não falar na sucessão de títulos olímpicos – um totalmente improvável triplo-duplo em 100 e 200 metros – e mundiais; tudo isto fará de Bolt insubstituível. E, claro,o mediatismo de hoje, que leva a simplificação ao paroxismo, dificilmente poderá encontrar, mesmo que o queira, figura igual. Resta uma esperança: não se costuma dizer que não há ninguém insubstituível? Pois…

Inês Henriques para a glória
Do lado do “nascimento”, nos Mundiais fica a saga de Inês Henriques nos 50 km marcha em femininos. A disciplina é totalmente nova no panorama dos grandes certames do atletismo e responde a uma “igualdade de género” que não pode ser o único critério de uma inclusão nos maiores campeonatos, sobretudo se se equacionar que no passado a prova dos 50 km marcha em masculinos esteve para sair desses programas e que, hoje em dia, tem muito menos praticantes em países-chave do que no passado.

Esta prova dos 50 km marcha dos Mundiais era experimental? Era. Não tem um passado significativo? Claro que não. Porém, o que Inês Henriques fez em Londres terá contribuído para que isso seja rapidamente ultrapassado. Uma exibição fabulosa em contra-relógio em metade da prova levou-a a uma vitória que deveria ter enchido de orgulho todos os portugueses, para além do que aconteceu com ela própria, com o seu treinador Jorge Miguel, e com a cidade de Rio Maior.
Para cumular a caminhada, em condições de tempo ainda assim distantes das ideais, Inês Henriques bateu o recorde mundial que estabelecera no início do ano em Porto de Mós, acabando em menos de 4h06m (4h05m56s), “mostrando” que as 4 horas não serão impossíveis para uma mulher. É de notar que nos 50 km marcha em masculinos, que existem nos Jogos Olímpicos desde 1932, uma marca de 4 horas ainda permitiu a primeira, e única, medalha norte-americana na disciplina por Larry Young, em Munique, em 1972.

Dizemos acima que a exibição de Inês Henriques deveria ter enchido de orgulho todos os portugueses. Mas, no entanto, não foi fácil assim acontecer, porque o único canal televisivo que transmitiu os Mundiais foi o Eurosport e, como se sabe, este canal está no cabo e não chega a toda a gente, longe disso. Para a generalidade dos portugueses, dependentes da televisão em sinal aberto, pareceu mesmo que não se disputaram quaisquer Mundiais de Atletismo em Agosto… A generalidade do público desportivo teve de se contentar com a Volta a Portugal em bicicleta e, com todo o respeito pelo honorável evento e pelo ciclismo, a Volta a Portugal em comparação com os Mundiais é ter, em termos musicais, Quim Barreiros a medir-se com a Nona Sinfonia de Beethoven.

Ficou, para os que puderam seguir, o trabalho digno e de qualidade dos dois enviados do Eurosport a Londres para uma cobertura efectivamente total do evento, António Lopes e Mário Aníbal – este último, sim, o eterno recordista nacional do decatlo.