Naide Gomes: “O meu sonho é terminar a carreira numa competição”

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Naide Gomes

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Voltará a dar o salto ou não? Esta é grande pergunta em torno de Naide Gomes, campeã mundial de salto em comprimento que tem visto no tendão de Aquiles o seu grande calcanhar. Operada em Abril, a atleta portuguesa espera regressar aos treinos no final do Verão e, aí sim, ouvir o que lhe diz o corpo sobre o futuro. Seja como for, há males que vêm por bem e, finalmente, há uma nova Naide nas pistas: a fisioterapeuta.

Texto: Rute Barbedo
Fotografia: Celestino Santos

“Tenho de pensar num dia de cada vez. Estou numa fase de recuperação, em que não posso fazer alguns exercícios dentro da minha modalidade mas sei que tudo o que estou a fazer agora serve, espero eu, para voltar a treinar.” Esta é a postura de Naide Gomes, 34 anos, cuja força de vontade se mede aos palmos no seu metro e oitenta de altura. Quando nos fala sentada num ginásio, percebemos o quanto anseia sair dali, vestir o equipamento e saltar para uma caixa onde possa remexer areias.

Ser-se campeã do mundo também tem disto. Não se trata apenas de muito treino e suor durante as épocas de ouro, onde “o convívio com a família é muito reduzido, perdem-se os amigos pelo caminho, tem de se ter um namorado que compreenda a nossa vida e ir de férias quando se quer é para esquecer”, como enumera a atleta. Estar no topo implica, igualmente, longos períodos longe das pistas, mas nunca perdendo a motivação e persistência. Como diz Naide, sem hesitações no discurso, “a vida de um atleta de alta competição tem essas fases más mas quase todos nós temos de saber lidar com isso”. Em suma, são muitas lesões para muitas medalhas [ler “Uma vida”].
Em tom ligeiro e com uma gargalhada a pontuá-lo, Naide Gomes afirma que talvez seja “a atleta que sofreu mais lesões em todo o Portugal”. Perguntamos, então, como não se deixa abater: “Quero ser eu a pôr fim à minha carreira e não que seja uma lesão a fazê-lo por mim. Porque o meu sonho é terminar numa competição internacional.”

A atleta do Sporting Clube de Portugal confessa que o seu objectivo seria terminar a carreira desportiva nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. “Era o meu sonho e era para isso que estava a treinar.” Na altura, seguia um plano diário de mais de três horas de fisioterapia e quatro horas de treino, com a finalidade de preparar o corpo inteiro e o tendão de Aquiles (direito) em particular para os saltos deste mundo. As dores eram muitas e “não foi nada fácil”, conta. A dois meses dos Jogos, o tendão não aguentou e este poderia ter sido o fim de Naide Gomes no panorama da competição internacional. “Mas sair dessa forma não seria meu, por isso é que sofri aquelas etapas todas, lutei, e consegui voltar. Se não der mais, encosto os sapatos dos saltos e faço outras coisas”, rompe a desportista.

Por agora, a atleta reforça os gémeos, trabalha a massa muscular e tenta recuperar a estrutura para que o tendão ganhe forças. “Tenho de trabalhar a dobrar, também com o objectivo de eliminar a dor. Se conseguir isso, posso trabalhar melhor. A forma ganho-a quando voltar a treinar”, explica. Embora a recuperação esteja a ser lenta e complexa (Naide foi operada três vezes consecutivas ao tendão), a luta continua, um dia de cada vez.

A fisioterapeuta
Ainda assim, como “existe uma vida para além do atletismo”, os receios da campeã mundial são nulos. Naide Gomes acaba de se licenciar em Fisioterapia, cumprindo um dos objectivos (seu e da mãe) que a trouxe aos 11 anos de São Tomé e Príncipe a Portugal: estudar. Por isso, a seguir ao desporto, a prioridade passa por “trabalhar na área do desporto e treinar os jovens, transmitindo os conhecimentos adquiridos ao longo destes anos”. A licenciatura foi uma outra luta, sobretudo porque conciliar os estudos com o desporto de alta competição “é muito complicado”. “Entrei na universidade numa fase em que estava a evoluir, a ganhar medalhas, e era impossível acompanhar tudo. Mas agora consegui acabar e isso é o importante”, nota a atleta.

Com um vasto historial de lesões e de medalhas (foram dez a nível internacional), Naide habituou-se a conviver com fisioterapeutas e a usufruir dos seus cuidados. O resultado foi um carinho especial pela profissão, que pensa eventualmente exercer em Angola, num hipotético futuro junto ao seu actual noivo. “Também já estou na idade de pensar noutros sonhos, como casar, ser mãe…”, confessa Naide Gomes, rematando: “A alta competição acaba e eu sabia disso.”