“Não estou numa corrida injusta, porque foi a vida que escolhi”

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Filomena Costa é Filó, a miúda que chegou ao SC Braga com 10 anos e ali se fez atleta, enquanto se fazia enfermeira. A maternidade tornou-a numa mulher mais confiante. Aos 30 anos, dá todos os dias o máximo para garantir os mínimos para os Jogos do Rio.

Começamos a entrevista pela Filomena ou pela Filó?

[Risos] Quando entrei para o atletismo começaram a tratar-me por Filó, Filozinha – era a mais nova do grupo – e ficou. Aqui [no Centro Médico da Universidade do Minho] sou a Filomena.

Porquê a Enfermagem?

Não foi a minha primeira opção, mas hoje sinto que foi o melhor. É uma área que me cativa bastante: a interacção com as pessoas, o poder ajudar, o cuidar. A Enfermagem está a perder um pouco essa essência, há muitas pessoas desmotivadas. Aqui é um ambiente académico, há menos pressão, mas o trabalho é muito interessante.

Atleta, enfermeira e, desde há três anos, mãe. Como concilias uma vida tão exigente?

Sempre quis ser mãe o mais cedo possível, para poder desfrutar de um filho, levá-lo às provas. Aconteceu em 2012, um ano que também não correu da melhor maneira [no atletismo], portanto foi o momento ideal. Conciliar tudo é muito difícil. O meu pilar é a família, estão sempre presentes e os resultados reflectem esse apoio. Depois tenho uma treinadora e amiga, a Sameiro [Araújo], que está comigo há mais de 20 anos.

As atletas sentem pressão para adiar a maternidade?

Creio que não. Antigamente penso que existia mais essa preocupação; talvez por isso houvesse outros resultados. As pessoas não queriam interromper as preparações, porque não sabiam como seria a recuperação. O meu objectivo sempre foi ser mãe cedo, sabendo que era preciso aprender a gerir tudo da melhor forma. Correu muito bem e, ultimamente, é o que também tem acontecido com outras atletas.

Foi um momento de viragem?

A minha gravidez foi vivida muito intensamente. Foi uma fase que me trouxe muita energia positiva e o nascimento da minha filha ainda mais. Todos os momentos que passo com ela dão-me muita força para continuar… [Emociona-se, sorri e prossegue] Mas o regresso custou um pouco, porque quando descobri que estava grávida parei quase na hora – fazia só caminhadas e corridas muito curtas. Queria aproveitar a gravidez e também descansar, porque já estou no atletismo há alguns anos. Agora penso que não tive cuidados em termos de reforço muscular, e quando voltei tive de parar novamente. Parecia que estava a começar do zero.

Como te cruzaste com o atletismo?

Quando entrei para o 5.º ano, a minha irmã mais velha já fazia atletismo. Eu gostava de tudo o que ela fazia, então comecei a acompanhá-la aos treinos, no Estádio 1.º de Maio. Foi aí que nasceu a paixão. Depois tive alguns resultados – fui campeã, vice-campeã e medalha de bronze em várias provas nacionais nos escalões mais jovens e sénior –, o que me motivou bastante.

Além disso, estava num clube que sempre teve muita história na modalidade. O SC Braga tinha uma equipa muito forte, estávamos quase sempre presentes em corta-matos e campeonatos de estrada e de pista. O próprio clube era uma inspiração. Treinei com a Manuela Machado, a Conceição Ferreira… Via-as correr e pensava que talvez também fosse capaz. Sinto que foi uma mais-valia estar próximo destas pessoas, que são referências.

Como foi a saída do SC Braga?

Saí do Braga quando engravidei, porque o clube não queria apostar na equipa sénior, mas mais na formação. Quando regressei, em 2013, não tive convites de nenhum clube. A Associação Cultural e Desportiva [ACD] Jardim da Serra era um clube de amigos e lançou-me o desafio. Gosto muito de estar lá, sinto-me apoiada e acarinhada. No ano seguinte, tive proposta do SC Braga e de mais alguns clubes. Pediram-me desculpa por não o terem feito antes.

Quando é que o atletismo ficou sério?

Quando entrei para a universidade a minha única prioridade era conciliar tudo. Essa fase foi complicada porque tinha os estágios do curso e os treinos. Para termos resultados é preciso trabalhar bastante e eu não tinha tempo nem para descansar. Depois dessa fase comecei a ver o atletismo de outra forma. Com o curso concluído decidi que podia dedicar-me totalmente. Mesmo assim, sentia que faltava alguma coisa (e os resultados também não apareciam). Foi quando recebi o convite para trabalhar na Universidade [em Outubro de 2010]. Depois veio a maternidade.

E as melhores marcas.

A primeira maratona depois de ser mãe foi em Hamburgo. A minha treinadora tinha planeado o regresso em Setembro, mas eu coloquei-lhe a possibilidade de fazermos uma prova na Primavera, já a pensar nos Europeus. Fiz 2h31m08s, consegui os mínimos e fui a Zurique. No ano seguinte [em 2015] já só pensava em fazer uma marca para entrar na preparação olímpica. Aconteceu na Maratona de Sevilha, no dia do meu aniversário [venceu a prova com o recorde pessoal de 2h28m00s].

Foi a inspiração dos 30?

Acho que é tudo. Sinto-me realizada, tanto pessoal como profissionalmente; é uma força que nos vai inspirando. Também é importante estarmos rodeados das pessoas certas.

Entretanto, deixaste o país agarrado à televisão nos Mundiais de Pequim, em Agosto.

Parece que ainda estou lá. Foi o meu primeiro mundial de pista, sentia-me bem, sabia o que estava a valer e não me entusiasmei demasiado na primeira fase. Aliás, muitas pessoas pensaram que eu ia ficar para trás – o meu pensamento nunca foi esse. Quando senti que era possível aproximei-me, sabendo que quando elas [atletas africanas] saem são muito fortes. Os dois últimos quilómetros foram mais sofridos, mas consegui passar várias atletas e chegar ao 12.º lugar foi mesmo muito bom. Quando se entra no túnel de acesso à pista… arrepia. Sente-se muita felicidade, corre-se mais rápido [risos].

Agora corres para um sonho maior.

Ir aos Jogos Olímpicos é o sonho de qualquer atleta. Já tinha pensado nisso em 2012, mas era difícil porque na maratona temos tido um leque de atletas muito forte. Este ano as marcas são novamente muito boas. Eu sou a terceira [depois de Sara Moreira e Dulce Félix], mas sei que vai ser muito difícil. Estamos todas na luta.

Comecei a preparação há pouco tempo, no início do ano, porque quando regressei de Pequim tive uma lesão. O Mundial tinha corrido bem, tive outra visibilidade e estava muito motivada. Quando voltei a treinar tinha algumas dores, mas fui deixando passar até ser obrigada a parar, o que atrasou a preparação.

É uma corrida injusta para a Filó atleta e enfermeira?

Não vejo como uma corrida injusta, porque foi a vida que escolhi e é assim que me sinto bem. Claro que quando estou dedicada totalmente é muito diferente. De segunda a sexta conjugo o atletismo com o trabalho – corro por volta das 7h10, trabalho das 9h às 14h e volto a treinar durante a tarde. No sábado faço treinos bi-diários e no domingo um treino longo.

Nesta fase preciso de investir mais no descanso e na recuperação, para conseguir voltar aos treinos no dia seguinte. Também tenho muito apoio das minhas colegas; ainda há pouco tempo tirei uma semana e fui para estágio. Em Fevereiro e Março volto a ter essa oportunidade, para preparar a próxima maratona. Em princípio será Hamburgo, porque é uma maratona que já conheço.

A poucos meses dos Jogos, como é que geres as emoções?

A Sara e a Dulce estão com marcas muito boas, sou eu que estou na posição mais instável, mas nada é impossível. Vou fazer tudo o que puder para estar nos Jogos. Se não for este ano será daqui a quatro ou a oito. Se as atletas tiveram uma boa gestão da carreira conseguem manter-se na modalidade até aos 40/42 anos. Essa gestão passa pela recuperação e por não competir tanto.

Imaginas-te atleta aos 40 anos?

Sim!

 

BI

Nome: Filomena Aurora Ribeiro da Costa

Idade: 30 anos (sopra as velas a 22 de Fevereiro)

Altura: 1,60m

Naturalidade: Braga

Clube: ACD Jardim da Serra

Melhores tempos

Meia-maratona: 1h12m46s (Viana do Castelo, em 2015)

Maratona: 2h28m00s (Sevilha, em 2015)