“Não me arrependo da vida que tive, aprendi a dar mais valor às coisas”

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Dulce Félix é o retrato da persistência. Tem 32 anos, está na alta competição há sete; tantos quantos passou atrás de uma máquina de costura automática. Colecciona quatro campeonatos nacionais de estrada e há seis anos que não dá hipótese no corta-mato. Em Abril, superou-se na Maratona de Londres e carimbou o passaporte para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. São dias felizes, os desta vimaranense.

Texto: Inês Melo  

Fotos: Luciano Reis

Primeiro foi na Maratona de Viena, depois em Nova Iorque (ambas em 2011) e agora em Londres. Ser a melhor não-africana é uma vitória ou uma derrota?

É uma vitória, nem que seja pela oportunidade de batalhar ao lado delas. As africanas são atletas de outro planeta. Talvez por viverem o ano todo em altitude, não se sabe bem. Apesar disso, também é importante sabermos que as agências antidoping estão mais atentas. Viu-se agora em Londres: elas costumavam correr para 2h19m/2h20m e este ano fizeram uma corrida diferente [a etíope Tigist Tufa venceu em 2h23m22s]. O controlo começa a assustá-las.

A queniana Rita Jeptoo, com quem já correste várias vezes, foi um dos últimos casos.

Acredito que algumas delas têm muito potencial; todas acho que não. É frustrante sabermos que, passados dois meses de uma prova, a pessoa que nos venceu teve um controlo positivo. Não vivemos o momento, não levantámos a nossa bandeira porque alguém que não devia foi ao pódio naquele dia. Agora, se estivermos a competir nas mesmas condições, então temos de admitir que podem existir atletas com mais potencial. Também acho que nos falta sair um pouco do nosso habitat e procurar outras condições de treino. Eu nunca fiz um estágio em altitude, mas estou a pensar fazer este ano.

Em Londres bateste o teu recorde pessoal na maratona. A Dulce de 2008 imaginava que podia correr essa distância em 2h25m15s?

A minha vida é conhecida: trabalhei numa fábrica têxtil durante sete anos, em São Martinho do Conde [Guimarães], até decidir dedicar-me a tempo inteiro ao atletismo, em 2008. Como só treinava uma vez por dia, muita gente dizia que tinha potencial para fazer melhores marcas. A minha treinadora [Sameiro Araújo] começou a insistir quando fiquei a poucos segundos dos mínimos para os Jogos Olímpicos.

Quais eram os sonhos dessa Dulce?

Via as minhas colegas dedicarem-se ao atletismo a tempo inteiro, representarem Portugal. Na altura era isso que eu desejava: ser como elas, poder ir a um campeonato com a camisola do meu país e, quem sabe, levantar a bandeira no lugar mais alto do pódio. Era isso que eu sonhava e foi isso que consegui. Agora, se me dissessem que ia correr uma maratona em 2h25m, se calhar dizia que não. Com o trabalho era óbvio que não tinha o mesmo rendimento. Entrava todos os dias às seis da manhã e saía às duas da tarde, mas ainda pedi ao meu patrão para mudar o horário…

Como foi isso?

Tinha medo de abandonar o trabalho. Não é que fosse assim tão bom, mas também não tinha verba para viver do atletismo. Comecei a entrar duas horas mais tarde, para treinar duas vezes por dia. Treinava às seis da manhã, trabalhava oito horas seguidas, comia qualquer coisa e saía para o segundo treino. Fiz isto durante um ano. Foi muito desgastante, não tinha vida própria.

Toda a gente apoiou a minha decisão, mas a figura principal foi a Sameiro. Ninguém melhor do que os treinadores conhece o nosso valor. Claro, também foi importante que o Braga me tivesse ido buscar ao Vizela, era a segurança de que eu precisava. Só tenho pena de não ter tomado esta decisão quando saí da escola, mas as coisas são assim. Não me arrependo da vida que tive. Fiz muitos sacrifícios, mas aprendi a dar mais valor às coisas. Acredito que isso também faz de nós campeões.

E não foi preciso um ano para provares que estavas certa.

Fui logo campeã nacional nos 10 000 metros e, no ano seguinte, campeã europeia. Sabia que os resultados iriam aparecer e tive a sorte de conseguir mostrar o meu valor. Só faltou que os Jogos Olímpicos fossem em 2009 [risos]. Mas é preciso dar tempo ao tempo. Sobretudo, dar tempo aos treinadores. Se não acreditamos no trabalho deles, começamos a desconfiar de tudo. Até de nós próprios.

Em 2012, tornaste-te na sexta portuguesa a vencer uma medalha de ouro nos Campeonatos da Europa. O que recordas daquele “passeio” em Helsínquia? 

Estava a treinar para a maratona olímpica e, como me sentia bem, aproveitei para fazer os 10 000 metros. Tinha as bases mais lentas, sabia que não podia deixar a fuga para o fim, então a estratégia era atacar aos sete quilómetros. Ninguém estava à espera que eu fosse sair tão cedo. Quando acordaram foi tarde, já estava a terminar a prova. Depois do que passei – o trabalho, o sonho de levar a bandeira ao pódio –, estava a precisar daquele momento.

Foi um momento de viragem?

Sim, no sentido em que passei a ter mais exposição. Também tive sorte com a comunicação social, porque a Selecção de Futebol tinha perdido um jogo. Caso contrário, a minha vitória não teria tido tanto destaque. Não critico o futebol, que é o desporto-rei no nosso país… Mas é importante termos mais apoio, e nesse dia viraram-se todos para mim. A Dulce era a maior.

Um mês depois já não…

Naquele ano, a aposta era nos Jogos de Londres. A preparação não correu como desejado, mesmo assim decidimos avançar. Até aos 30/35 quilómetros estava bem, depois começaram as dores musculares. Não queria desistir, só queria acabar. Afinal, eram os meus primeiros Jogos Olímpicos. Quando cortei a meta veio logo uma cadeira de rodas. Recusei, levantei-me devagarinho, mas acabei por precisar de ajuda porque não tinha força nas pernas. Quando cheguei à tenda só chorava. Não sei se de dor ou de tristeza, era uma mistura de muitas coisas.

É frustrante treinar tantos meses para ser tudo decidido num único momento?

Preparamos uma maratona durante três meses e só temos um dia para mostrar o que valemos. O mais importante é termos uma boa preparação, que nos permita ir confiantes para a linha de partida, como na Maratona de Londres. O Prof. Amândio Santos, o nosso fisiologista, faz uma avaliação e diz-nos o que estamos a valer. Se ele me disser que eu estou a valer 2h25m, é para esse tempo que eu corro.

Quanto é que estavas a valer para Londres?

[Sorriso] Acredito que se tivesse a companhia dos atletas masculinos teria feito melhor. Corri metade da prova sozinha, falhei o primeiro abastecimento, voltei para trás. A cabeça ainda não estava a pensar bem.

Preferes correr com homens?

Só com mulheres é interessante porque estamos a correr de igual para igual, mas com homens é mais fácil. Não temos de nos preocupar em impor o ritmo, só temos de ir atrás. Quando bati o recorde nacional da meia maratona foi com o Ribas [Ricardo Ribas, marido e maratonista]. Não tinha de me preocupar com nada, era ele que apanhava o abastecimento, que marcava o ritmo. Quando corro sozinha estou sempre a olhar para o relógio. A fadiga psicológica é maior.

Como é correr com o Ricardo Ribas?

Nesses momentos só podemos ser atletas. Mas acho que para ele é mais complicado. Além de ter de marcar o ritmo, ainda está preocupado comigo. Na minha primeira maratona, em Viena de Áustria, aos 15 quilómetros já lhe estava a pedir para abrandar. Só me recordo dele a gritar: “Vamos lá, amor, que a primeira não ganha!” Eu estava exausta e ele tentava animar-me de qualquer maneira. Realmente, a primeira não ganhou e as coisas até me correram bem. Fiquei em segundo. Bem, mas eu também o ajudo nos treinos, tenho é de ir de bicicleta [risos].

O que mudou com a camisola do Benfica?

O mediatismo. Quando estava no Maratona Clube de Portugal já tinha algum reconhecimento, mas nada como agora. Ainda assim, 2013 ficou marcado na minha vida por outros motivos. Foi um dos meus piores anos. Perdi o meu pai precisamente no fim-de-semana em que me estreei com a camisola do Benfica. Foi um ano doloroso. Consegui dar a volta com a ajuda do Ribas.

Este ano, conquistaste o terceiro campeonato nacional de estrada e tornaste-te na única portuguesa a vencer seis campeonatos consecutivos de corta-mato. Como é que concilias as duas disciplinas?

Já me chamaram “atleta todo-o-terreno”. A verdade é que se torna desgastante, sobretudo por causa das maratonas. Está a chegar a altura em que vou ter de decidir. O treino de estrada está mais próximo da maratona, mas começa a ser difícil conciliar o corta-mato. Acontece que já me disseram que também há um atleta que venceu seis títulos consecutivos [Manuel Dias, 1928 a 1934]… Já agora, queria tentar ser a única entre homens e mulheres [risos]. Quando não for capaz de cumprir os compromissos de um clube, começo a correr individualmente. É por isso que só tenho feito uma maratona em Abril e outra em Novembro/Dezembro.

 Jéssica, Sara, Marisa, Dulce. O atletismo está nas mãos das mulheres?

A crise afectou muito o desporto em Portugal. É possível que as mulheres tenham outro potencial porque, com a ajuda dos clubes e da Federação [Portuguesa de Atletismo], não precisam de fazer tantas provas por ano… Por exemplo, acho que é mais fácil para as mulheres entrarem num projecto olímpico. Os homens precisam de competir mais para terem a mesma estabilidade financeira.

Qual é o próximo grande desafio?

Os Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, em 2016. Primeiro tenho as provas do clube, mas depois vou focar-me totalmente. Ainda é cedo para pensar em medalhas, mas tudo é possível numa maratona. Não escondo que o meu sonho é ganhar uma medalha olímpica.


 

Sinopse

  • 1994 Começa a treinar atletismo no ACR Conde
  • 1999 Transfere-se para o FC Vizela
  • 2007 Chega ao SC Braga
  • 2008 Torna-se campeã nacional nos 10 000 metros
  • 2009 Conquista o ouro por  equipas nos Europeus de Corta-Mato (2009 e 2010)
  • 2010 Ganha o bronze nos Europeus de Corta-Mato (2010 e 2013)
  • 2011 É vice-campeã europeia de corta-mato (2011 e 2012) e quarta na Maratona de Nova Iorque
  • 2012 Torna-se campeã da Europa nos 10 000 metros, em Helsínquia
  • 2013 Começa a correr pelo Maratona CP e depois pelo SL Benfica
  • 2015 É oitava na Maratona de Londres, com recorde pessoal