“Não sei como seria a vida da Rita sem esta assessoria”

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Há 30 anos, Rita Borralho estabelecia o novo recorde da Maratona de New Jersey, nos Estados Unidos. A vitória abriu-lhe as portas do mundo, onde foi atleta e treinadora. Quando regressou a Portugal, transformou a desilusão numa assessoria desportiva: a RB Running.

Texto: Inês Melo

Foto: Celestino Santos

No dia da entrevista corriam os últimos ventos do frio, os que sopram todo o ano no Complexo Desportivo Monte da Galega, na Amadora. Rita chega de blusão apertado. Esteve quase para não sair de casa – “o médico que não saiba”. Quando tira os fones, sente-se uma brisa tropical: “Émi-pê-bê éfi-émi, a casa da música popular brasileira!” Sete mil quilómetros separam-na do locutor da MPB FM, mas por pouco tempo. Em Maio, regressaria ao Rio de Janeiro para os Jogos Ibero-Americanos e, em Agosto, irá para os Jogos Olímpicos. Nasceu há 62 anos em Vila Nova de São Bento, Serpa, mas o atletismo fê-la cidadã do mundo. Eis a primeira maratonista portuguesa a ter sucesso além-fronteiras, para ler com samba nas curvas.

 Pastel de nata ou pão de queijo?

[Risos] Pastel de nata.

 Ainda passa metade do ano no Brasil e a outra metade em Portugal?

Já estive mais ligada [ao Brasil], vivi 15 anos no Rio de Janeiro.

Em que fase da sua carreira?

Já de treinadora. Em Portugal, fui treinadora da Janete Mayal – atleta olímpica brasileira, que representou “Os Belenenses” e o Maratona [Clube de Portugal]. Entretanto, terminou a carreira no alto rendimento e, quando regressou [ao Brasil], disse-me que estava a acontecer uma coisa muito interessante. Começavam a surgir grupos de corrida, o pessoal estava a aderir e podia ser uma oportunidade para nós.

Foi em que ano?

Há 15 anos, ou mais. Pensei: “Não estou aqui a fazer nada, vamos embarcar nessa.” Decidimos montar uma assessoria desportiva – aqui chama-se grupo de corrida, mas lá é muito mais profissional. A Mayal Athletics foi um sucesso. Tanto treinávamos o atleta de pódio como o cidadão que queria começar a caminhar. Porque lá, até as pessoas que caminham querem acompanhamento. Existe muita informação na TV com mensagens do género: “O exercício diário é bom para a saúde mas, não se esqueça, procure um profissional de Educação Física.” Isto não acontece em Portugal.

Quais foram as diferenças que encontrou no atletismo brasileiro?

No Brasil, as pessoas já corriam nas ruas desde os anos 80. Eles têm outro espírito. Aqui todos querem ser campeões, lá é mais para a qualidade de vida. Já quando abrimos a assessoria, não podíamos aceitar nenhuma pessoa sem atestado médico. Gosto mais do espírito de lá, é mais bacana, como eles costumam dizer.

Por que decidiu regressar?

Voltei porque tive um problema grave de saúde. Todos os anos vinha duas vezes a Portugal, ver a família, os amigos, e fazer um check-up, porque o sistema de saúde brasileiro é… complicado. Em Setembro de 2007 comecei com uma tosse terrível, que não passava por nada. No último ano não tinha feito exames, então quando cheguei, em Outubro, foi a primeira coisa que fiz. Depois do Raio X, a TAC, a biópsia e, por fim, a sentença: carcinoma no pulmão direito. Em três semanas ou um mês a minha vida ia para a quinta das tabuletas.

Não desesperei. Foi muito importante esta minha maneira de me agarrar à vida. Nessa altura, o Dr. Luís Horta, que estava no Centro de Medicina [Desportiva de Lisboa], chamou-me: “Tu és uma campeã e sempre foste uma vencedora, não é agora que vais baixar os braços. Vais pensar que é a mais difícil maratona da tua vida.” Essas palavras criaram uma fortaleza imensa dentro de mim. Eu ia às consultas e os médicos não acreditavam na minha confiança. Eu dizia: “Doutor, lembre-se disto, eu ainda vou mandar este bicho para o espaço.” Foi um ano e meio de quimioterapia e mais 36 sessões de radioterapia.

Duro?

Duríssimo. Cheguei a pesar, sei lá, 40 quilos. E não havia meio do bichinho diminuir… Um dia, depois de muitos exames, o médico chamou-me [para fazer a cirurgia de remoção do pulmão]. Entreguei a minha vida nas mãos dele, não tinha outra chance. E foi assim: acordei e continuo aqui até hoje. Foi por isso que não voltei ao Brasil, ainda tenho exames de seis em seis meses.

Como ficou a sua vida?

Nunca mais pude correr. A forma de ficar ligada ao atletismo foi treinar outras pessoas.

Fale-nos sobre a RB Running.

Na fase em que já podia caminhar, o meu oncologista sugeriu-me ir ver museus. Precisava de ocupar-me com alguma coisa, e estava esquecida daquilo que os 15 anos como treinadora me tinham proporcionado. Procurei as entidades que me deveriam ajudar, afinal tinha dado a minha juventude a Portugal. Quando chegou a hora não tinham emprego para mim. Disseram que estava tudo preenchido e aquelas histórias de sempre. Foi quando decidi montar uma assessoria, com as iniciais do meu nome. Não me intitulo como grupo, sou uma assessoria.

O que distingue a assessoria do grupo de corrida?

O grupo de corrida não dá nada. Juntam-se e vão fazer 10 km, ou o que seja. Os meus atletas têm um programa e eu estou sempre presente. No início, claro, vieram logo as agoirentas: “Tu estás maluca, alguém vai entrar nessa, e a pagar?” De borla eu não ia fazer, é o meu trabalho. Mas tinha de começar por algum lado. Hoje temos cerca de 30 pessoas a treinar.

É quase uma escola.

Não se pode chamar escola, nem grupo. É muito mais do que isso. A assessoria representa um monte de coisas… Para além da treinadora existe a psicóloga, a amiga, a mãe. Não sei como seria a vida da Rita sem esta assessoria. Com certeza, muito triste e monótona. Ia continuar a viver em Portugal, mas sem nada.

A RB Running tem atletas em vários pontos do país. Como é feito esse acompanhamento?

A presença do treinador é muito importante, mas é impossível estar em todo o lado. Mesmo assim, com as tecnologias que existem já é possível estarmos mais próximos. Falamos muito por videoconferência ou no Messenger. Por exemplo, em Portimão tenho um grupo com cerca de dez pessoas, e uma delas está num nível de topo nacional. Quando termina o treino coloca a informação no site do relógio e eu tenho acesso a tudo.

É possível os jovens ainda sonharem com uma carreira no atletismo?

Não existem estruturas, não existe esperança. Os clubes deixaram de investir. Só existe Benfica e Sporting, que não podem absorver os jovens de todo o país. Eles pensam: “Vou-me dedicar para quê?” À minha geração foi prometido que, pelos anos de alta competição, pela participação em mundiais, europeus e Jogos Olímpicos, teríamos direito a uma reforma. Quando acabar a RB Running vou ter zero. Portanto, terei de trabalhar toda a vida. A juventude começa a olhar para aquilo que fizemos e aquilo que temos agora, e percebe que não é nada.

Este ano comemora-se 30 anos da sua vitória na Maratona de New Jersey (4 de Maio). O que representou essa conquista na sua carreira?

Tinha ido ao desconhecido. Nos Jogos de 84 [em Los Angeles] conheci alguns portugueses, que me mandaram uma carta a falar dessa maratona. Nunca pensei que podia ganhar, estavam lá as melhores americanas da época. Ganhei e bati o recorde do percurso. Na altura, o nível dos prémios era igual ao da Maratona de Nova Iorque, o que me deu uma certa independência financeira. Mas não foi só isso. A prova tinha sido transmitida para todos os Estados Unidos, e se eu já estava bem no top 10 de Chicago [em 1985, foi 10.ª na Maratona de Chicago], aquela vitória abriu–me muitas portas. Podia ir onde quisesse nos Estados Unidos. Foi também a partir daí que comecei a ir muitas vezes ao Japão. O atletismo deu-me a conhecer o mundo, isso foi o melhor de tudo.

 

[CAIXA]

Dificuldades 

“Nada foi fácil. Tinha treinos de manhã e à tarde, e era sempre a primeira a chegar. Todos os dias aqueles velhinhos fanáticos do Benfica diziam: “Lá vem a nossa menina.” Eu sabia que não era uma atleta muito rápida… Fui para a maratona, mas tinha que trabalhar mais do que qualquer outra. Calhei na época dos anos dourados do atletismo, com a Rosa Mota, a Aurora Cunha, então esquece [risos].”

Arrependimentos

“Tinha muitos amigos portugueses em Newark. Um dia, levaram-me para conhecer uma high school com montes de crianças a correr. Na altura, pelos meus lugares na Maratona de Chicago, convidaram-me para ser responsável do Atletismo. Com aquela coisa patriótica, não aceitei. É esse o meu arrependimento.”

Alegrias 

“Se não fosse o atletismo, não tinha conhecido o mundo inteiro, nem tido as experiências que tive. Passava épocas nos Estados Unidos e no Japão, muitas vezes a viajar sozinha. Isso dá-te uma liberdade enorme e uma visão para o futuro.”

 

Junho 2016