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O Bonga da Mariquinha, dos coliseus e do Olympia dispensa apresentações. Aos 72 anos, aparece-nos inconfundível, de casaco de cabedal e calças que assentam impecáveis sobre os sapatos de pele encarnada. Porte de atleta. Mas imaginar que, entre 1966 e 1972, o cantor angolano vestiu as camisolas do Benfica e do Belenenses, foi sete vezes campeão nacional de atletismo e bateu consecutivamente o recorde nos 200 e 400 metros é mais difícil do que acertar os passos do semba. Senhoras e senhores: José Barceló de Carvalho, o velocista.

Texto: Rute Barbedo

Fotos: Luciano Reis

Vamos à infância…

À infância? Ih pá… Era a criança que corria mais, pá.

A corrida veio antes da música?

Ah, com certeza. É claro que a música também se vivia nos quintais… Nós íamos para casa do vizinho e comíamos as frutas do quintal dele. É uma coisa de que hoje não há ideia e é por essa razão que os miúdos já não têm a pedalada que eu tinha naquele tempo.

Ainda vai a Kipiri?

Quando posso. O lugar onde nasci fica muito longe de Luanda, mas eu aproveito e vou ao Kipiri, ao Caxito, onde tenho familiares, lá numa xitacazinha [pequena quinta, na língua kimbundu].

Foi lá que começou a correr?

Nós praticávamos, nos bairros de Angola, um desporto não federado, que eram aquelas correrias todas, de muita importância. Havia um tipo que saltava à vara, outro que fazia os 100 metros – às vezes eram só 98…! E eu ganhava quase sempre.

Quando deixou de ser uma brincadeira?

Quando comecei a correr pelo São Paulo [do Bairro Operário], que foi o primeiro clube onde estive [aos 12 anos]. Ainda cheguei a dar uns pontapés na bola, mas nunca tomei isso como referência. Eram as correrias, as estafetas que inspiravam cá o Zeca.

Mais tarde [no Club Atlético de Luanda] tivemos como treinador um grande homem, o Demósthenes de Almeida [Clington], que nos esclareceu de coisas maravilhosas, principalmente sobre a postura de homem. Tinha um olho clínico incrível. Olhava para nós e sabia quem era bom para os 100, os 200 ou os 800 metros. Quando ele me viu, disse: “Oh pá… Aí temos canja! Podes fazer os 100, 200, 400 metros e, mais tarde, também os 800.”

No Atlético, era aquele campo horroroso dos coqueiros, que tinha uma pista complicada com buraquinhos e cinza e carvão e não sei o que mais… Mas foi nesta pista que eu pulverizei o recorde de Angola [nos 200 e 400 metros]. Então os do Benfica pensaram: “Se este tipo faz isto nesta pista, então vem já para aqui!” E eu vim. Aí encontro o [António] Fonseca e Costa [ao lado, atento à entrevista], o nosso querido [Fernando] Matos Fernandes, o Rui Mingas e muitos outros.

Eu sei que era velocista, mas está a ir muito rápido. Ainda em Angola, como eram os clubes, as pistas, as infraestruturas? Como se olhava para o atletismo?

O São Paulo, por exemplo, era um clube de bairro, pequeno. Dividia-se pelo São Paulo dos pretos e o dos brancos, no futebol. Andavam à batatada uns com os outros. Quando havia bola, não podíamos ir para a pista. Só muito depois é que começam a dar importância ao atletismo. Finalmente, os atletas empenhavam-se muito e tinham grandes marcas.

Mas [no São Paulo] não tínhamos treinador, sequer. No Atlético é que me ensinaram a correr… Por muito simples que pareça, não é fácil, principalmente nas curvas [inclina-se para mostrar o ângulo do corpo em relação ao solo], saber os movimentos dos braços, como fazíamos para compensar a velocidade… O treinador dizia-me: “Essas gâmbias têm de ser desenvolvidas!” Ya… Mas quando chovia a gente não treinava. O atletismo tinha muitas carências e problemas.

Como foi o salto para o Benfica, em 1966? Recorde-nos a chegada ao aeroporto.

Eh pá… a chegada ao aeroporto foi uma chegada assim… decepcionante! Estava à espera da “Metrópole”, mas não foi nada disso. Só pensei: “Bom, vamos a isso, paciência.” Quando vou para a secção de atletismo, há um tipo que diz: “Oh Barceló, vamos ali tomar um café.” No fim, foi ao bolso e cada um pagou o seu. Aí eu percebi que aqui era cada um por si e Deus por todos, e comecei a sentir falta de África… Faltava-me a solidariedade, a vivência, a convivência.

Mesmo no mundo do desporto?

Aí era diferente, porque estávamos uns com os outros e uns para os outros. Aliás, se não era o desporto eu não ficava em Portugal.

Mas aqui a exigência seria outra. Como é que isso se reflectiu nos tempos?

Quando a gente se põe ao trabalho, é diferente. Os resultados vieram imediatamente. Quando eu corro pela primeira vez os 400 metros em Portugal numa pista especializada, em tartan, pulverizei o recorde de Portugal. 46 segundos! Boom! “Ganda” porrada! A partir daí, ganhei sempre…

Não quer dar uma “pauzazinha” aí? [Vai ao bar, onde o encontrámos mais tarde à conversa com amigos.]

[Retomada a entrevista.] Tinha 23 anos quando chegou a Lisboa. Deixou todo um contexto de família, amigos e africanidade para trás…

Foi muito complicado. Era uma outra forma de vida, completamente diferente. Quando estamos no nosso meio, sentimo-nos protegidos pelas pessoas que estão connosco e que nos dão força.

 Tem também uma faceta muito política. Quando veio para Portugal, sentiu-se de alguma forma objecto de propaganda, enquanto desportista?

Eu evitei sempre ser um joguete nas mãos de quem quer que seja. E isso fez com que olhassem para mim como um ranhoso. Mas não sabiam que por detrás daquele ranhoso havia uma comparticipação muito fidedigna para com a terra de origem. Não me incomodei nada quando ouvi: “Ah! Ele agora está a correr por Portugal…!” Eu sabia que era eu, de Angola, que estava a mostrar os meus dotes de atleta. Toda a gente sabia. A partir daí, o que eu fazia, quando recebia informações de situações complicadas, era fazê-las passar lá para fora, através das viagens pela Selecção Nacional Portuguesa.

Era um activista fervoroso?

Fervoroso não diria; era mais de caxexe [às escondidas]. Não podia exagerar, porque a PIDE não perdoava.

Como foi descoberto?

Só muito tempo depois. Já tinha saído de Portugal. Fui para a Holanda [em 1972] antes que me apanhassem. Bem, primeiro deixei o Benfica e vim para o Belenenses. Depois bazei e só lá é que dei o grito do Ipiranga, mas também não podia gritar assim muito… As polícias políticas estavam interligadas, tanto que fui descoberto pelos desportistas holandeses, que disseram: “Eh pá, este tipo que está aí a treinar e que se diz chamar Bonga não é Bonga nenhum. É o Barceló de Carvalho, de Portugal!” Ihhh! “Ganda” bronca! No dia seguinte tive de fugir. Fui para a Alemanha, onde fiquei uns tempos, mas aí já estava a gravar o disco [“Angola 72”].

Então o nome Bonga, além de ser artístico, também serviu para esconder a identidade…

Exactamente. De um lado escondia a identidade e do outro era o artista africano.

Por que passou do Benfica para o Belenenses?

A nata estava a sair do pastel, por isso eu ia continuar no pastel a fazer o quê?

Com estas viagens, onde ficou o atletismo?

Ah, o atletismo acabou.

Parou de correr e começou a cantar?

Foi logo a seguir. Moralmente, o desporto já não dava. O atleta tem de ser tudo, é um equilíbrio psicológico e físico, e eu não tinha isso. Tinha de estruturar a minha vida. É então que faço o disco, mas claro que houve problemas a seguir, porque não era um disco que falava do sol nem da bunda das mulatas. Era uma coisa política, em kimbundu, exactamente para não apanharem o que eu estava a dizer.

Mas também para afirmar as origens…

Absolutamente, com a informação toda engajada ali, tanto é que quando o disco chega a Angola, é um estouro incrível. Foi um contributo muito importante. E a partir daí ninguém segura mais o Bonga artista.

Quantos anos tem a sua carreira, afinal?

Nem eu sei! A minha primeira música, de que me lembro, foi feita em 1950 e troca o passo… A gente nunca põe o ano da música no papel. Não sei se nasci para a música, não acredito muito. Se tenho continuado os estudos, no tempo colonial, era um “funcionáriozeco” público e acabou-se.

Estamos na casa do Belenenses. Foi o Bonga que escolheu o local para a entrevista. Continua ligado ao atletismo?

Tenho uma ligação muito forte, mesmo não praticando. Agora dificilmente corro, até para fazer 200 metros vou de carro. Uma vergonha [brinca]!

Mas ainda dá concertos com muita genica.

Ah sim… Danço e de que maneira! Ainda outro dia fiz o Carnaval no B.Leza e foi histórico. Estive duas horas e tal a mexer, a tocar e a dançar. “Tá-se” bem…

Levou a disciplina e a energia do atleta para os palcos?

Sim, senhora! E depois evitar os excessos, para ter essa têmpera que estou aqui a apresentar! Ah, sim, tem tudo a ver com o desporto.